Portugal Notável

Valor Universal (*****) Muito Notável (***) Notável (*)

19-10-06

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Paisagem em Castelo Melhor-Capela do Arcanjo São Gabriel (V.Nova de Foz Côa) (*)

Quem for visitar o núcleo da Penascosa (****) das gravuras rupestres do Côa, não pode deixar de se maravilhar com a paisagem em Castelo Melhor. Repare no restauro aprumado do Centro de Recepção de Castelo Melhor, aproveitado de um lagar e armazém construído em xisto e quartzito e a partir daí parta em direcção a dois locais que não deve perder: O castelo (IIP) e lá no alto a capelinha de São Gabriel.

O Castelo está empoleirado num cabeço dominando a povoação a Sul. É aparelhado de xisto e tem o traçado de um polígono irregular. Vale a pena subir ao castelo que ainda conserva vestígios da época leonesa (o rei D. Afonso VII concedeu foral à localidade em 1209) e da reedificação que D. Dinis mandou fazer. Lá estão as muralhas ornadas de fortes cubelos circulares, a porta de arco em ogiva, a cisterna, restos de construções intra-muros.

Toda a paisagem em redor está coberto de pombais, oliveiras e amendoeiras, estas últimas quando entram em floração transformam este torrão num mítico paraíso perdido pintalgado de branco e rosa. Rodeia-me o perfume de algumas plantas silvestres que me habituei a ver por estes caminhos – rosmaninho, estevas, alecrim, tomilho, poejo e a azeda.

Os montes em redor têm o nome de santos encimados por ermidas brancas, de devoção popular antiga, necessários à luta difícil contra as trovoadas, as enfermidades, as más safras e o demo.

Vale a pena subir à capela novecentista do Arcanjo São Gabriel de onde se alcançam extensos horizontes. Mais perto, numa elevação orientada a NO., localiza-se a Capela de Santa Bárbara. É a Norte o rio Douro, marginado à direita pelo colosso quartzítico do Penedo Durão-Assumadouro (**) (em Freixo de Espada à Cinta), onde se inclui o seu remate na Senhora do Castelo em Urros (*) (Torre de Moncorvo) e ainda o monte de Calábria, com a sua Quinta da Leda; é a levante o extenso Planalto Castelhano que abrange os ubérrimos terrenos do sector levante do Concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, é ainda a panorâmica de conjunto sobre a antiga localidade de Castelo Melhor e o seu Castelo; a SE é a Serra da Marofa (*), que se destaca nitidamente da superfície da Meseta, Castelo Rodrigo (*), Almendra; a sul a região granítica de Cidadelhe (***), o troço inferior do rio Côa onde se insere o Parque Arqueológico do Vale do Côa (*****). A uma distância de aproximadamente 1 Km da capela, a poente, encontra-se o ponto mais alto do quartzítico monte de S. Gabriel (654m), local de onde se advinha uma fabulosa vista panorâmica, mas que é apenas acessível a viajantes experimentados.

Nota pessoal - A última vez que aqui estive foi em meados de Março deste ano. Sentia-me isolado, mais só -uma solidão e um isolamento todo de dentro que me apartava do mundo exterior, habituado que estou ao derredor barulhento e buliçoso da minha bela cidade; tudo isto é belo, mas despovoado. Alguns telefonemas relembraram-me que não estava só e lá fui jantar em Parada com gratas companhias.

Fonte de informação: www.monumentos.pt

Ver entradas: Núcleo de Gravuras Rupestres da Penascosa (****), Panorama da Ermida da Nossa Senhora de Urros (*) (ainda não colocada), Castelo Rodrigo (*), Panorama da Serra da Marofa (*), Panorama de Assumadouro-Penedo Durão (**). Paisagem na EN 332 entre Almendra e a sua estação de Caminho de Ferro (**). m

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17-10-06

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Paisagem na E.N. 332 entre Almendra e a sua estação de caminho de ferro (Vila Nova de Foz Côa) (**)

Depois de visitarmos Almendra, nada melhor que irmos ter à sua estação em direcção ao Douro. São uns doze km de percurso, cheios de motivo de interesse, e que, entre Fevereiro e Outubro, ficarão perpetuados para todo o sempre na nossa memória.

Se em Fevereiro são as radiosas amendoeiras em floração, que nesta região -entre Castelo Melhor e a estação de Almendra- são as mais belas dos País; na primavera verá e sentirá toda uma pluralidade de tons e fragrâncias do coberto vegetal mediterrânico; no Verão, de calor sufocante, e no Outono conhecerá o vinhedo de umas das melhores quintas de vinho do mundo (a Quinta da Leda) e sempre o Douro, rio idílico que é um sonho concretizado numa paisagem assombrosa.

A meio do trajecto transpõe-se, em local aprazível, a ribeira de Aguiar. Junto está uma capela dedicada à Senhora do Campo, outrora centro de romaria importante. Bebo da sua fonte da sua água fresca, muito mineralizada (que mereceria um estudo hidrogeológico).

Olho para o vulto enorme do monte Callabria, rodeado pelo seu gigantesco vinhedo. Neste topo agora inacessível pela Quinta da Leda, pertencente à Casa Ferreirinha, existem restos de muralhas, que segundo alguns autores, teria sido o berço da cividade de Calábria, sede de bispado no século VII, cujos prelados teriam tomado assento nos concílios de Toledo de 621 a 693, tendo sido local de cunhagem de moeda do reino visigótico. Esta localidade tinha extraordinária importância  no período suevo/visigótico. O seu último bispo, São Zenão, teria sido morto pelos mouros por volta de 717; mas o povo conta a lenda do martírio do Santo Apolinário, prestando-lhe grande devoção do outro lado do Douro, em Urros, onde teria ido parar o seu corpo arrastado por touros. Da hipotética Calábria restam apenas vastos troços de largas muralhas de xisto e quartzito de cerca de 2,20 cm de largura, tendo sido referenciados no recinto da cerca muito achados arqueológicos (mosaicos, tijolos, moedas, pedras de construção…).

Nas imediações, têm sido também encontrados vestígios da presença romana como uma lápide funerária latina da capela de Santo Cristo, no sítio da Aldeia Nova, transferida para a capela da mesma invocação em Barca de Alva onde hoje se encontra. Provavelmente nesta época seria um simples castellum.

Na encosta virada ao Douro existem vestígios de exploração de ferro e ouro, provavelmente também da época romana. Estas ruínas são um interessante enigma arqueológico e lendário, que mereceriam ser estudados profundamente e postos ao serviço do turismo nacional. A paisagem que dai se divisa é magnífica (repetimos que o local é actualmente inacessível, até aos intrépidos viajantes). A razão da sua inacessibilidade, prende-se com a existência em seu redor da extraordinária Quinta da Leda.

Comprada em 1979, ano em que começou a plantação da vinha, na actualidade de aproximadamente 85 hectares, com as castas recomendadas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Francesa, Tinta Barroca e Tinto Cão. No ano de 2000 entrou em funcionamento uma nova adega que permite, com modernos sistemas de vinificação, preservar ao máximo os componentes naturais das uvas. O enólogo responsável, José Maria Soares Franco, selecciona e determina para que tipo de vinho será destinado cada lote. Daqui se fazem, por exemplo a Quinta da Leda, o Callabriga e o vinho português de maior nomeada o mítico Barca Velha (este ano de 2006, é o seu ano, com colheita de 1999); A produção total da colheita de 1999 não chegou às 30.000 garrafas. Este Barca Velha foi feito com uvas das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinto Cão. Com este lançamento, passa a existir apenas 15 colheitas declaradas de Barca Velha desde 1952, o que só reforça o estatuto de lenda que o vinho adquiriu. Só tiveram direito à designação de Barca Velha as colheitas de 1952, 1953, 1954, 1957, 1964, 1965, 1966, 1978, 1981, 1982, 1983, 1985 (executados a partir das castas da Quinta Vale de Meão), 1991, 1995 e, agora, 1999. Esta quinta produz vinhos do Douro de qualidade superior, de grande complexidade e elegância, símbolo de excepção da riqueza e contemporaneidade dos grandes vinhos Douro e cuja quinta, apesar de recente, espanta que não tenha sido inserida no Alto Douro Vinhateiro- Património Mundial da Humanidade.

A seguir à Quinta sucedem-se nestes locais grandes descampados, onde a vegetação mediterrânica retomou o espaço e onde abundam perdizes, coelhos e lebres, que fogem sobre os rodados da minha viatura.

E o Douro magnífico; do outro lado, terras de Torre de Moncorvo, em grandioso meandro, agora atapetado de vinhedo e ao fundo a pequena estação de Caminho de ferro desactivada de Almendra- pequena casinha fantasmagórica de meter medo e ao mesmo tempo aconchegada e ternurenta-muito nostálgica de um movimento que hoje não tem. Caminho até ao eflúvio, com as suas águas fulgentes e ali fico quedo e sempre mudo a remoer esta paisagem assombrosa.

Olivedos, vinhas, amendoeiras e pombais; Calábria de mitos e mistérios; Quinta da Leda e o Barca Velha; a capela da Senhora do Campo e as suas águas, a ribeira de Aguiar, o Penedo Durão, a estação de Almendra e entre todas as atracões o Douro, o rio que mais se parece com o Absoluto. O silêncio e a beleza cenográfica remetem para o paraíso terreal primaveril; mas a semelhança do Alentejo, transforma-se em inferno escaldante no estio.

Com o sentimento de que estou a ficar cada vez mais panteísta, parto com lágrimas nos olhos com saudades dum local que espero voltar a visitar, apesar da sua longura.

Bibliografia – Alto Douro- Douro Superior de Fernando Sousa e Gaspar Martins Pereira (col. Novos Guias de Portugal)

Ver entradas: Quinta Vale de Meão (*), Panorama da Ermida da Nossa Senhora do Castelo (Urros) (*) (ainda não colocada).

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13-10-06

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Casa de Almendra / Solar do Visconde de Almendra / Solar dos Viscondes do Banho (Vila Nova de Foz Côa) (IIP) (*)

Este é um solar truncado, mas de grande beleza e que se encontra situado numa zona belíssima de um Portugal esquecido.

Começou-se a construir em 1743, por iniciativa de Manuel António de Castilho e Távora Falcão Mendonça que era Fidalgo da Casa Real, Capitão-mor de Almendra e Castelo Melhor, mas em 1758 a construção da casa foi interrompida por ordem do Marquês de Pombal, devido ao processo dos Távoras, uma vez que o capitão pertencia a esta família (é bem visível nas paredes laterais esta interrupção); em 1810 as tropas de Napoleão transformam a casa em Quartel-General e ao retirarem-se incendeiam-na, tendo ficado parcialmente destruída, sendo reconstruída no final do século XIX. O Rei Dom I Luís criou este viscondado em 1870.

O Solar de Almendra é um palácio barroco que albergou os Viscondes do Banho e de Almendra. O edifício palaciano, exemplo ditoso da arquitectura séculos setecentista é provavelmente o mais belo da raia portuguesa a norte do Tejo.

É constituído por dois pisos aparelhados em granito amarelo, onde conserva austera fácies que contrasta com as belíssimas janelas barrocas (com as típicas vieiras invertidas e flores– de-lis) e com a marcante varanda com balaústres. O brasão de armas da ilustre família, enquadrado por um frontão curvilíneo, permanece em cima da varanda. Curiosamente, o brasão nunca foi devidamente terminado de esculpir; talvez por ordem de Sebastião de Carvalho e Melo.

O solar tem afinidades com a Casa do Cabo em São João da Pesqueira (*), a Casa de Nossa Senhora Conceição em Cedovim e a Casa Grande em Freixo de Numão (*).

Almendra é terra bonita que vale a pena ser visitada, não só durante a floração das amendoeiras, mas em qualquer época do ano com a sua Igreja Matriz (IIP), que é um templo fortaleza construída no século XVI; cinco capelas, em que destaco a da Misericórdia, a Casa dos Bordalos, o pelourinho (séc. XVI) (IIP), a Casa da Câmara e a Fonte Grande. Outro local de interesse é o Santuário de Nossa Senhora do Campo, com o seu parque de merendas.
Falar do Património de Almendra, é obrigatório referir as Ruínas da mítica Calábria- uma cidade antiga, antiga sede de bispado visigótico fundada entre os séculos III e II a C e que se localizava no termo desta freguesia junto ao Douro -lá iremos.

Como nota curiosa acrescento que em Almendra viveu o menino Francisco José Viegas vencedor Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) 2005, com o seu ( o nosso) Longe de Manaus.

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07-10-06

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Igreja matriz de Vila Nova de Foz Côa (MN) (*)

É um templo cuja construção terá decorrido no reinado de Dom Manuel, e que foi profundamente alterado nos séculos seguintes, mais não conservando do tempo do venturoso, do que o belo pórtico manuelino; quem sabe obra de algum dos  Arrudas, que nesse tempo trabalhavam na Sé de Guarda (**) e na edificação da valiosa igreja matriz de Freixo-de Espada à Cinta (*).   

Nota-se que a igreja tem influência Castelhana, particularmente  no coroamento com três ventanas, para albergar os sinos e uma grinalda já renascentista. Na parede podem ver-se cinco figuras de gosto renascença, em alto-relevo, saindo das molduras.

Típico do Manuelino é o portal, de pendor naturalista, como colunelos a emoldurar as arquivoltas, cujos remates laterais terminam em esferas armilares, encimadas uma pela Cruz de Cristo e a outra pela flor-de-lis. Dois escudos com as armas reais ladeiam um nicho que alberga a uma imagem da Nossa Senhora da Piedade ou do Pranto, em Pedra de Ançã.

O interior é também interessante com os arcos que sustentam os vigamentos muito desnivelados e as  colunas inclinadas. É coberto por um tecto com pinturas. Os altares são de banal talha dourada barroca. Do imaginário merece referência uma Pietá do século XVII, que se encontra no altar-mor, e uma escultura da Senhora do Rosário do século XVI, colocada no altar lateral do lado da Epístola. Na pintura realça-se um tríptico de pintura quinhentista, sobre madeira, com três evocações da paixão de Cristo: Jesus a caminho do calvário; Jesus na cruz; descimento da Cruz, em belos tons violetas. 

Se visitar o Parque Arqueológico, dispense meia hora para visitar este belo conjunto (fachada da igreja  e pelourinho) e pense como foi possível este estilo inventado por nós e promovido pelo rei Venturoso, ter em tão pouco tempo, marcado para sempre, com beleza, naturalismo e forte simbologia, o nosso território.

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29-09-06

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Pelourinho de Vila Nova de Foz Côa (MN) (*)

Este é um dos mais vistosos e monumentais pelourinhos de Portugal, e merece que o visitante lhe dedique um ror de tempo; é Monumento Nacional desde 1910.  Sendo pelourinho quinhentista evoca naturalmente o rei Venturoso que tentou restaurar a nova “Idade do Ouro” para a Humanidade, apoiado na cristandade e nos cavaleiros da Ordem de Cristo, cuja ideologia é visível em alguns dos símbolos deste monumento.

Totalmente construído em granito, tem um fuste quadrangular decorado por colunelos embebido nos ângulos, tendo a metade da sua altura um cordame volumoso; a coluna tem ainda esferas, losangos, vieiras e quadrifólios. Capitel é adornado por motivos encordoados, folhas de acanto e vieiras; tudo isto rematado por um por um grupo de coruchéus, um deles com o escudo das cinco quinas, sobre os quais se erguem a esfera armilar e a flor de lis.

Se a estrutura de cariz arquitectural impressiona, não menos importante é a decoração volumosa e de talhe avultado, idêntica da que se vê ao lado no belo portal da igreja matriz (*).

Os encordoamentos do pelourinho, são uma loquaz homenagem à actividade das cordoarias, ligada à vida do mar, pese embora a distância da costa, e que por volta de 1525 empregava 44 famílias a viver intramuros e cento e oito fora deles, essencialmente Judeus, que aqui constituíram uma comunidade, que foi uma verdadeira alavanca do desenvolvimento desta região. Infelizmente, o fanático e imbecil, rei Dom João III,  pediu a instalação da inquisição em Portugal e depois sabemos o triste fim que ainda vamos tendo nesta área do País.

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28-09-06

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Povoado de Castelo Velho de Freixo de Numão (V. N. de Foz Côa) (IIP) (**)

O Povoado de Castelo velho é um lugar imponente, não apenas como “sítio arqueológico” mas também como miradouro para poente: é o Vale da Vilariça (aqui mais apertado, mas não menos espectacular), a lembrar tensões feéricas ocorridas na Crosta Terrestre; são os montes boleados xistentos, que coleiam o vale sagrado do Côa; é a pequena e bonita Vila Nova de Foz Côa (agora cidade nova) em toda a sua abrangência; é a pequena crista de Calábria, que no seu cume continha a importante cidade visigótica e onde nos seus flancos se estende o vinhedo da Quinta da Leda, onde se fabrica um dos mais afamados vinhos tintos mundiais - o Barca Velha; é a margem direita do rio Douro, que se divisa no meandro do Pocinho com a grandiosa crista quartzítica de Penedo Durão e que se estende até à Ermida da Senhora do Castelo-Urros (*), já em terras transmontanas; é a serra da Marofa; é o Planalto Castelhano enfim… 

O Castelo Velho, habitado em três fases durante as idades do Cobre e do Bronze, foi estudado detalhadamente, por Susana de Oliveira Jorge e Sá-Coixão (este último nome será nas próximas entradas evocado amiúde por nós), é constituído por dois conjuntos de muralhas: a exterior mais frágil, com função de protecção ou simples delimitação do povoado propriamente dito; e a muralha interior, mais marcada e dotada de contrafortes radiais. No interior desta última cerca, de planta circular, foram encontradas estruturas de combustão de possíveis lareiras, buracos de postes, silos e espaços para o armazenamento de alimentos e produtos, bem como áreas dedicadas à moagem e à tecelagem.

Neste recinto as estruturas subcirculares, junto ás portas voltadas para os quatro pontos cardeais, têm carácter eventualmente utilitário, que poderão ter funcionado como espaços de reserva de alimentos; mas a sua disposição parece obedecer, concomitantemente, a preocupação de natureza ritual. Na estrutura junto à entrada Oeste foram ainda encontrados enterramentos, o que acentua o seu carácter religioso e cerimonial.

No topo do morro foi construída por uma grande torre maciça de planta circular, que era um grandioso “monumento” destacado na paisagem envolvente.

O conjunto para além da sua função doméstica, teria assim tido uma função sagrada, mais realçada com a edificação da grande torre central que serviria não tanto como estrutura defensiva, mas antes como “monumento” sinalizador da paisagem-ou seja de marcação simbólica e/ou territorial (e porque não, estética) desta região sítio e das populações que aí habitavam.

O carácter polissémico do local, nega a habitual dicotomia tradicional, entre povoados, sepulcros e santuários aceite para as idades dos metais- e por isso Castelo Velho é um marco importante na Arqueologia.

Em qualquer circunstância, emerge uma pergunta central: o que ocorria no interior e á volta deste “monumento”?

Teria sido em diferentes fases da sua existência reduto defensivo, marcador territorial, local de preparação de alimentos e local religioso ritualizado? As funções seriam concomitantes umas das outras?

Tornou-se morosa a minha perscrutação interior com pensamentos que se atropelavam e entrechocavam com incrível rapidez acerca deste local, situado em zona de charneira situada entre Trás-os-Montes e a Beira Interior.

Todo este espaço único foi magnificamente musealizado e terá um centro de interpretação. Este é um edifício moderno de belas linhas modernas e arrojadas, em que o arquitecto teve a feliz ideia de imitar e assim ressuscitar contemporaneamente a torre central, que servirá de mirante para todo o monumento e para a paisagem em redor.

Parto com expectativa para o aro de Freixo de Numão, envolto em mistério e com o espirito atestado de infinita beleza!

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27-09-06

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Parque Arqueológico de Foz Côa (Património Mundial da Humanidade) (*****) (Conclusão)

Peço aos leitores que não leiam este próximo post, porque vão estar sujeitos as elucubrações de alguém que não leu mais do que meia-dúzia de artigos sobre o tema e que apesar de ter apenas visitado os núcleos do Vale do Côa, Mazouco e Siega Verde, tem a pretensão de dizer algo com nexo, mas nada original, sobre o ambiente e as motivações dos nossos antepassados paleolíticos. Espero que o grupo dos viajantes amadores não fique mal, pelas minhas divagações no ciber-espaço. Pare aqui, não leia mais, porque é agora que vou começar!

Era uma vez um grupo de Homo sapiens sapiens recolectores que encontraram o seu paraíso; o ambiente do planeta era gélido, seco e os rios pouca água levavam, exceptuando no degelo primaveril. A serra da Estrela, mas também a Serra da Peneda, estavam cobertas por glaciares, que escavavam vales em U nos seus flancos; mas o poente da Península Ibérica, principalmente nos vales mais profundos, ao abrigo do frio gélido, eram locais privilegiados para se estar, caçar e pescar. Também aqui os animais encontravam melhores condições ambientais (inclusive água líquida e pastos), refugiando-se da tundra. Era o éden e ainda o é (os portugueses contemporâneos são uns ingratos). E neste paraíso inicial os primeiros homens “modernos”, esboçaram o início da arte; mas o que temos hoje acessível são ínfimos fragmentos de uma mundividência outrora riquíssima e iluminada pela violência bárbara da natureza.

Enquanto a arte paleolítica é de carácter naturalista, privilegiando a figuração de grandes animais herbívoros, o mesmo não acontece com as “artes” que lhe sucedem, por exemplo a neolítica (que tanto gosto), que é maioritariamente simbólica e abstracta. È certo que a arte fundadora nos é interdita no seu significado, mas mesmo assim aqui ficam algumas especulações avulsas sobre o tema:

- Representariam animais para propiciar a sua fecundidade e assim aumentar as rezes de caça?

Desta maneira, estar-se-ia a pedir ao sagrado que propiciasse abundante caça, tal como ainda hoje pedimos nas nossas orações e evocações ao divino? -em suma uma manifestação religiosa.

- Estaremos em presença de um desejo do Homem em provar que existia uma hierarquização animal e que considerava os animais gravados (auroques, cervídeos, equídeos, e caprídeos superiores aos outros que não figurava (roedores, felinos, pássaros, peixes e canídeos)? Talvez os primeiros indícios de uma distinção da condição humana face (superior) -e por oposição -à condição animal (inferior)!

- Seriam marcadores de territórios e de caça de diferentes tribos e clãs?

- Existiria aqui coabitação entre o Homem “moderno” em contacto com o seu rude “primo” neandertal, e a arte poderia ser uma maneira do primeiro se distinguir do outro?

- Estaremos em presença de animais que poderão representar “auxiliares de viagem” (“spirit-helpers”) e que apenas poderiam ser desenhados por visionários xamãs? Estaríamos já então em demanda da imortalidade e do sagrado, com a constatação da existência de mundos paralelos para onde migraríamos após a nossa morte?

O carácter sagrado do vale, em longuíssimo tempo, é perpetuado pela existência de gravuras paleolíticas, Neolíticas, Calcolíticas, Idade do Ferro até à época histórica com a figuração de uma interessante custódia seiscentista ou ainda de outras figurações religiosas do século XX.

Após a descoberta do Cavalo de Mazouco, do vale do Côa (a que se segue Siega Verde) é hoje lícito considerar a hipótese de terem existido diversos locais de concentração de gravuras ao ar livre que completassem as belíssimas pinturas do grupo franco-cantárbico (Lascaux, Altamira (ver mais História da Arte), e da nossa gruta do Escoural (**) em Montemor-o-Novo.

A sua preservação ficou no entanto comprometida pelas brutais amplitudes térmicas que sucederam ao período glaciar, quando a Europa, que se encontrava literalmente coberta por uma camada de gelo e ao aquecimento gradual do ambiente: um fenómeno de crioclastia que terá degradado os painéis litológicos.

A sua preservação no território português e espanhol deve-se, precisamente, ao facto de aqui ter sido muito menor o impacto desta brusca alteração climática. Dai que também a fauna tipicamente euro-siberiana (mamutes e bisontes) não se encontre aqui representada.

Recentemente têm sido efectuadas prospecções nos vales mais abrigados e de menor demografia histórica que poderão conter algumas surpresas (por exemplo: Zêzere, Ceira e Tejo – e a “minha” água entendida como elemento mágico, criador de vida.

Saberemos, de facto algum dia da razão do impulso artístico/simbólico dos primeiros homens modernos?

Venha ao Côa e decida por si, racionalmente ou de acordo com o sonho e a emoção, e parta com a impressão que assistiu ao mais antigo “Património Mundial da Humanidade”, no que concerne à sua actividade artística.

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26-09-06

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VIII- Parque Arqueológico de Foz Côa (*****)- Falar de novo em Cidadelhe

“Porque Provins?”

“Nunca esteve em Provins? Lugar mágico, ainda hoje o sentimos, vá lá. Lugar mágico, ainda todo perfumado de segredos.”

O autor do post pede licença ao Professor Umberto Eco, para utilizar a sua frase retirada do Pêndulo de Focault e pede aos prezados leitores que substitua Provins por Cidadelhe. Este vosso servo idolatra este local associado a lendas, mitos e de beleza invulgar (ver entradas anteriores).

Já era relativamente tarde, mas não poderíamos deixar de visitar o “Castelo dos Mouros” e o “Poio do Gato”; mas uma habitante local avisou-nos, venham de lá antes de anoitecer, senão aparece a Dama que é capaz…o meu irmão quase tão céptico como eu, hesitou. São decerto reminiscências de algum culto a uma divindade pagã disse-lhe eu, e lá fomos, não tinha medo …O Génio ainda estava alto e não deslumbramos nenhuma ninfa; que a existir seria uma alseíde!

Uso este fraseado para informar que é urgente a preservação e a recuperação de Cidadelhe, e que uma das maneiras mais eficazes será através de existência de um centro de recepção e interpretação para visita às pinturas e gravuras rupestres da Faia, classificadas pela UNESCO e pertencentes à área de jurisdição do PAVC e fundi-lo com o novo centro de recepção turística (parabéns à edilidade de Pinhel). As entidades competentes devem planear e executar com inteligência a salvaguarda da aldeia mais enigmática de Portugal e também uma das mais belas do País. Para quando a classificação da “Aldeia de Baixo” e do “Castelo de Mouros”, pelo IPPAR?

Algumas boas notícias:

- Está para breve a abertura do concurso para a construção do Museu do PAVC.

- Inserção de Cidadelhe na rota aldeias do Côa e que será terá alguma verbas para se renovar.

- Está prevista a abertura ao público de um quarto núcleo do PAVC, ainda neste ano – o da Quinta do Fariseu.

Existem alguns sinais de esperança para a região onde se encontra o mais extraordinário museu pré-histórico da Humanidade e que em redor tem um património notável. O Concelho de Vila Nova de Foz Côa, e segundo as minhas contas, é um dos mais belos do País, sob o ponto de vista da qualidade e quantidade de locais notáveis e merece a nossa visita.

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05-09-06

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VII-Parque Arqueológico do Vale do Côa - Núcleo da Penascosa (****)

Estar aqui ao luar é um momento singular na existência de qualquer ser humano.Envolvidos por brisa deleitosa, sentindo o murmúrio da rio a correr em leito xistoso em bela praia fluvial, envolvidos por um coaxar de rãs insuperável. Ficamos embebidos de hidrolatria. 

Quando se acendeu a iluminação artificial do primeiro painel, ouviram-se fragores de estupefacção; o que se viu adquiriu uma transcendência mágica e compreendemos de imediato a importância daquele santuário ao ar livre.

Como diz Martinho Baptista, director do Centro Nacional de Arte Rupestre (CNART), “…à noite, com a incidência da luz rasante, até as figuras saltam das pedras…”, porque é então que todas as subtilezas da rocha e da gravura adquirem forma e textura.

Sentia-se um ambiente ambíguo, entre o alquímico e o científico. Estávamos a descortinar a aurora artística e religiosa da humanidade, quando esta dá os seus primeiros passos para se afastar da bestialidade do nosso parente Neandertal. 

As questões surgiam em catapultas impulsionadas pelo meu irmão em estado de lucubração forçada: por que razão as gravuras eram sobrepostas deixando o resto do painel vago? Qual o motivo destes homens? Porque se repetem sempre os mesmos animais (cabras montesas, auroques e cavalos), escasseando os peixes, as aves e os felinos? …

A nossa amiga Emer (arqueóloga e irlandesa, especializada em cultos druídicos) defendia que devemos deixar tudo ao sabor da nossa imaginação. O meu espírito científico rebatia que não! Num próximo post explicarei algumas das teorias mais verosímeis do vale do Côa. A algaraviada tornou-se grata e fraterna, com o guia, com grande profissionalismo e mérito, a tentar por alguma ordem na expressividade efabulatória, dos quatro viajantes ao mundo paleolítico

A luz iluminou subitamente um palimpseto com 14 figuras, todas elas maravilhosamente gravadas. Este painel é dos mais famosos, mas de noite, ao luar, a nitidez é tal que nos faltariam sempre palavras para descrever esta maravilha artística provinda dos confins da Humanidade. Ficou-me na retina, a visão de um dos auroques do topo, cuja cabeça original se perdeu provavelmente por fractura da rocha, o animal foi posteriormente “corrigido” com uma cabeça a olhar para trás.

Noutro painel, encontramos um registo semelhante ao anterior, mas escavou-se na base do afloramento em aluvião e encontrou-se um verdadeiro coito animado: uma égua e um cavalo a acasalarem, mostrando este a cabeça em três posições diferentes e as patas dianteiras em duas posições, simulando assim movimento. A égua, mais antiga está perfeitinha e o corcel nem por isso (o criador estaria ardente?). Na mesma rocha, outra raríssima representação de cabra a olhar de frente, técnica que só foi empregue no final do Paleolítico Superior.

Noutra rocha um equídeo à escala natural e um peixe, este aproveitando uma convexidade da própria rocha, para dar a sensação de volume: tudo é maravilhosamente nítido, a boca, os olhos, as guelras, as barbatanas…e até o imaginei (truta?) a saltitar na água.

Aqui é estamos em presença de outro exemplo curioso em que numa rocha grande com imenso espaço vago as figuras foram sobrepostas umas às outras, no topo do painel, como se aquela fosse a zona por excelência para marcar as figuras.

Perante o espectáculo fazíamos por vezes um enorme ruído de exaltação, entrecortados por momentos de profundo silêncio, respeitador, do momento inolvidável porque estávamos a passar; tentava então ajeitar a máquina fotográfica no solo, num ponto mais sobrelevado, para tentar captar digitalmente a perpetuidade demiurga daquelas figuras (recomendo aos leitores que levem um tripé, para não sofrerem as minhas agruras).

Não posso esquecer que de dia a experiência também é excelente; aprofundamos para além da impressão da hidrolatria, também a da litoratia e de biolatria, do rio Côa e pode também ficar a conhecer a paisagem de Castelo Melhor-miradouro de São Gabriel (*); que em Fevereiro é o mais belo espectáculo de amendoeiras em flor no nosso país (ler num próximo post); mas quem observa as gravuras à claridade do sol, apenas fica com uma pálida imagem da sonata paleolítica ao luar...e ao gerador (quando este funciona).

Outras notas

De dia visitei o núcleo da Penascosa por duas vezes, a última no dia dos meus anos em 2006, guiado pela loquaz e alegre guia, de seu nome Angela, partindo do núcleo de Castelo Melhor, observamos ao longe a grandiosa Quinta da Erva Moira (pela sua beleza, os seus achados, musealização arqueológica e pelos seus divinos néctares). Por razões de segurança, o único ponto visitável durante a noite, são as diversas gravuras nas rochas do núcleo da Penascosa. Terá que marcar a visita com antecedência, porque apenas se realiza ao luar e em boas condições climatéricas e leve repelente contra mosquitos.

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02-09-06

da_nacional_geographic

                                            Fotografia retirada da revista National Geographic

VI-Parque Arqueológico do Vale do Côa-Património Mundial da Humanidade (*****)

O vale do Côa seria, no Paleolítico Superior, um paraíso na terra, um local com um microclima tão mágico que, por aqui, a Primavera não resistiria a espraiar-se até Setembro - e com ela a época de acasalamento entre animais. O ambiente peace and love levou as gravuras rupestres de Foz Côa a excluir qualquer representação de cenas bélicas entre auroques - antepassados dos actuais bois -, cabras, corços, veados e cavalos, e do homem com estes. Num período datado entre 30 a 10 mil anos atrás, os caçadores-recolectores do vale gravaram quadros solitários ou amorosos do quotidiano numa pedra que não estalou com o degelo dos glaciares da serra da Estrela.
A remota tradição pictórica só terminou no ano passado, quando morreu o último artista do Côa. Anónimo como os seus antepassados, só se sabe que era moleiro ou pastor e gostava de desenhar, nestas telas de xisto e granito, o castelo de Guimarães e o comboio a atravessar a ponte.
Estamos na Canada do Inferno (o nome não podia ser menos condicente com o relato anterior), a zona que concentra 90% das gravuras do maior parque arqueológico de arte rupestre ao ar livre do mundo, perto de Vila Nova de Foz Côa e um pouco acima da margem do rio que baptizou a povoação. O caminho para este núcleo de gravuras, apenas um dos três visitáveis, faz-se de jipe, oito pessoas de cada vez. O fantasma da barragem que António Guterres foi convencido a embargar, em 1996, acompanha-nos durante todo o caminho, um fantasma feito de cimento em alguns locais e de marcas improvisadas do nível a que as águas subiriam noutros - e eram mais de 200 metros. "Isto não foi só uma luta pelas gravuras, também foi uma luta pela arqueologia portuguesa", há--de dizer Helena Garrido, anfitriã deste santuário de 200 metros quadrados há dez anos.
A guia não é formada em Arqueologia mas fez bom uso do curso proporcionado pelo parque e ombreia agora num diálogo mano a mano com um jovem investigador belga, que duvida da tese flower power acerca do vale. "É a interpretação do Centro Nacional de Arte Rupestre, mas, sendo arte, é sempre discutível e subjectiva", responde num francês perfeito quando o arqueólogo belga, com look à Che Guevara, opina que os dois cavalos que parecem estar a acasalar são sobreposições de diferentes épocas. Na vereda surge um segurança, que olha atentamente para um emigrante português em França, demasiado entusiasmado a apontar com uma cana a figura que conseguiu finalmente decifrar, tocando na pedra de forma audível. Há onze securitas neste parque, a trabalhar 24 horas por dia, para que os onze guias não fiquem sozinhos na defesa das gravuras.
O entusiasmo e anterior frustração deste emigrante na leitura das gravações paleolíticas - feitas através de incisões filiformes, picotagem ou abrasão - é compreensível: para o olho pouco treinado do comum mortal, as representações não são evidentes, com algumas excepções. É preciso ver as fichas de interpretação que Helena estende, dar asas à imaginação e não deixar que os veios naturais da rocha, que correm sempre numa determinada direcção, nos distraiam. Feitos com quartzos e sílicos por estes homens que viviam em tendas, à beira de um rio que começava mais abaixo e com neve no pico do que agora são suaves colinas, os riscos têm uma arbitrariedade estranha na sua firmeza. "Tem a ver com a força aplicada e a superfície mais ou menos afiada do objecto."Só os invisuais podem agora tocar-lhes, e essas são as visitas que Helena prefere.
Entrar nesta espécie de máquina do tempo, ver as gravuras no local em que foram feitas, é inestimável - mas também tem os seus custos. Está um calor insuportável no vale do Côa. Ao visitante que quer distinguir todos os animais já descritos - e ainda peixes, simples signos de origem oculta e uma rara figuração humana, o Homem de Piscos - pede-se tempo, disponibilidade e resistência a temperaturas que podem chegar aos 55 graus, devido ao microclima próprio da zona. Uma italiana de saltos altos desespera, já duvida dos riscos e começa a derreter a maquilhagem. Helena Garrido revela que já perdeu quatro quilos este Verão. A mulher do emigrante começa a sentir-se mal e tem de se sentar. "Não sabia que o bilhete incluía sauna."
A queda de 20 mil para 12 mil visitantes em 2005 explica-se por tudo isto: os números nunca poderão ser comparáveis aos de um museu. Talvez por isso a população,os guias, toda a gente aguardem ansiosos pelo cumprimento da promessa da ministra da Cultura: um museu em 2008. Faltam infra-estruturas hoteleiras e acessos, dizem; e a verdade é que quem vem de Torre de Moncorvo, do interior, nem sequer tem placas para o parque e para a vila. A mais antiga forma de arte do mundo sabe compensar, no entanto, quem a aprecia: a turista italiana já esfregou os olhos esborratados e dá gritinhos de alegria quando distingue um veado estilizado, feito apenas de três incisões certeiras, há 30 mil anos atrás.
Artigo do DN, por Maria José Margarido (24-8-2006)

Posté par Castela à 04:47 - Vila Nova de Foz Côa - Commentaires [0] - Rétroliens [0] - Permalien [#]



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