02-02-07
Igreja de São Tiago matriz da Adeganha (Torre de Moncorvo) (**) (MN)-II
O interior de uma só nave, conserva bons frescos quinhentistas, a relembrar de certo modo, a próxima capela da Nossa Senhora de Teixeira (Açoreira) ou a distante Igreja de Santo Isidoro em Marco de Canavezes (*); alguns deles foram descobertos e restaurados recentemente.
É de grande beleza o enorme São Tiago, envolto por moldura de losangos denteados e frisos de motivos geométricos e vegetalistas estilizados; quem terá sido tão brilhante artista?
A temática é obviamente hagiográfica, surgindo, na nave, temas cristológicos, terminando em Calvário sobre o arco triunfal, este encoberto por razões de conservação, também se vê Santo António, os Reis Magos, os objectos de suplício de Cristo… São valiosos estes murais quinhentistas.
O retábulo-mor, de linguagem barroca, integra duas pinturas sobre madeira, quinhentistas, representando São Lourenço e São Martinho, que terão pertencido a um retábulo anterior e do qual, durante o desmonte, foram encontradas peças que teriam sido recicladas para o retábulo actual.
No retábulo-mor encontramos às tábuas de "São Martinho" e “São Lourenço”, pinturas a óleo sobre madeira de castanho atribuídos a Manuel Vicente e Vicente Gil, respectivamente pai e filho, denominados como mestres do Sardoal (porque foi aqui que primeiro se estudaram e identificaram estes autores). Pintores que foram activos nos reinados de Dom João II e D. Manuel I e são os principais representantes da pintura manuelina Coimbrã. No interior em penumbra, sem rosáceas ou frestas alumiantes, não se vislumbram sinais das “Três-Marias”. Vamos então à sua lenda.
“Reza a história que as Três-Marias eram irmãs e pastoras. Iam para o monte de Frei Vivas, monte de zimbros, carrascos, sobreiros e giestas, apascentar o gado. Enquanto o gado pastava, elas entretinham-se a jogar às cartas. Mas uma das três irmãs ganhava sempre e não havia maneira de a fazerem perder, as outras duas ficavam roídas de inveja e intrigadas - Seria ela bruxa? Ou aquilo seria obra do Céu? Nem uma coisa nem outra. Ela ganhava sempre porque jogava com manha.
Finalmente as outras duas descobriram e combinaram desforrar-se. Fizeram uma grande fogueira, com muita lenha, e empurraram para a fogueira a irmã batoteira que lá ficou a arder em grandes chamas. Se tentava sair as outras duas não deixavam e com os dedos em "figas"diziam: Arde e ganha! Arde e ganha! E assim ficou o nome de Arde e Ganha, Adeganha”1.
Estranha lenda, a relembrar tempos de intolerância, materializados durante 3 séculos na inquisição portuguesa, e que foi a maior causa de desonra e pobreza (de espírtio e material) destes 900 anos de história-a instituição ainda hoje se repercute na nossa maneira atávica de ser e fazer.
Para não terminar a visita à igrejinha de um modo triste, e não levar os leitores para sentimentos de culpa congénitos, voltemos para rematar, a um autor que nos orgulha e que também aqui esteve.
“Enfim, a igreja é esta. Não caiu em exagero quem a gabou. Cá nestas alturas, com os ventos varredores, sob o cinzel do frio e da soalheira, o templozinho resiste heroicamente aos séculos. Quebraram-se-lhe as arestas, perderam a feição as figuras representadas na cachorrada a toda a volta, mas será difícil encontrar maior pureza, beleza mais transfigurada. A igreja de Adeganha é coisa para ter no coração, como a pedra amarela de Miranda".(José Saramago, "Viagem a Portugal" Prémio Nóbel da Literatura)
Nota pessoal: Aqui estive pela primeira vez no início da década de 90, estava então numa viagem de estudo de geololgia, orientada sempre com muita sabedoria e alegria pelo Dr. Luís Nabais Conde.
Fontes de Informação: Sites www.adeganha.com 1 e www.monumento.pt. “A Igreja Matriz de Adeganha”, Terra Quente artigo de 15-3-2005
01-02-07
Igreja de São Tiago matriz da Adeganha (Torre de Moncorvo) (**) (MN)-I
« Esta estrada vai dar à aldeia de Estevais, depois a Cardanha e Adeganha. O viajante não pode parar em todo o lado, não pode bater a todas as portas a fazer perguntas e a curar das vidas de quem lá mora. Mas como não sabe nem quer despegar-se dos seus gostos e tem a fascinação do trabalho das mãos dos homens, vai até Adeganha onde lhe disseram que há uma preciosa igrejinha românica, assim deste tamanho. Vai e pergunta, mas antes pasma diante da grande e única laje granítica que faz da praça, eira e cama de luar no meio da povoação ». José Saramago « Viagem a Portugal »
Adeganha é uma aldeia típica transmontana (perdida no tempo, mas não na geografia da “alma portuguesa”), situada no frio e árido Planalto Transmontano espreita a poente a vasta extensão do Vale da Vilariça (**). Em redor, as leiras do centeio, os olivais cobrindo os montes, a penedia encrespada. Em pequenas construções toscas de pedra acautelam-se as ovelhas e os cereais, e o granito é aproveitado para paredes ou para eiras onde se fazem as malhadas.
Para além das relíquias da coeva arquitectura transmontana, ainda possui a segunda mais bela igreja românica transmontana (a primeira é a extraordinária igreja de São Salvador Anciães (***)- e basta para esta um portal e uma paisagem!).
A igreja de São Tiago foi edificada no século XIII, segundos uns, ou no século XII, conforme afirma o Abade de Baçal. Dedicada ao Apóstolo referido e originalmente dotada de um alpendre exterior para albergar os peregrinos, ela situava-se num dos caminhos de Santiago de Compostela. O seu portal pertençe à transição entre o românico e o gótico.
O bestiário da cachorrada é de grande qualidade escultural e com olhar arguto, culto e imaginoso é possível passarmos algum tempo a tentar descortinar o seu significado.
A fachada principal, virada a poente, ergue-se altaneira, de dupla ventana. O portal principal de arco-quebrado anuncia o estilo gótico. Possui duas arquivoltas com decoração fitomórfica assente em peanhas com cabeças antropomórficas, por cima a Cruz Templária. Três estranhas figuras femininas em baixo relevo -as Três-Marias (Três Irmãs, Três Comadres) quebram a frugalidade ornamental da fachada, estas foram imortalizadas em estranha lenda (ver próxima entrada). A do meio está a parir, coadjuvado por uma comadre? Será um símbolo de fertilidade e camaradagem? Se assim for como estamos longe das labaredas proclamadas na lenda. O outro grupo escultórico é mais pequeno e representa um homem com dois objectos na mão que lembram dois pergaminhos. Significará um convite à contemplação e à oração? Mas com os testículos salientes?
Na fachada Sul existe também um Homem com um joelho flectido, levantando-se. Tem os braços abertos e em cada mão segura algo. Ao nível do seu peito uma figura feminina, deitada? Será a vida, o sol, o prazer, a primavera, ou será antes a morte, a lua, o sofrimento e a invernia da alma?
Também a fachada Norte tem um frade olhando de frente e segurando um livro - a Bíblia? Ao lado suportando uma peanha,como se fosse o peso do mundo, uma estranha figura feminina com esgar de sofrimento, de boca e olhos fechados, como dando à luz. Será um apelo a penitência e ao sacrifício, exigido aos indivíduos do mundo medieval?
Debaixo dois túmulos de arcossólios a relembrarem a inevitabilidade da finitude da existência.
Elementos interessantes são as cachorradas que se apresentam nas fachadas laterais representando signos tão díspares como, canídeos, triângulos, rostos de homem e mulher, aves, bovídeos...
Todos estes símbolos enigmáticos foram criados e entendidos pela mentalidade do Homem medieval. É por essa e por outras que eu gosto do românico, o mais telúrico estilo arquitectónico e para mim um verdadeiro estado sublimação.
Fontes de Informação: Sites www.adeganha.com e www.monumento.pt. “A Igreja Matriz de Adeganha”, Terra Quente artigo de 15-3-2005
27-05-06
Torre de Moncorvo
Igreja Matriz de Torre de Moncorvo (MN) (*)
Igreja de Santa Maria Maior, matriz de Adeganha (MN) (**)
Senhora do Castelo (Adeganha) (*)
Miradouro de São Gregório e Povoado do Baldoeiro (IIP) (*)
Veiga da Vilariça (**)
Panorama da Senhora do Castelo (vestígios de povoado) em Urros (*)
Outros locais com algum interesse turístico
Muralhas e Ruínas da Vila Velha de Santa Cruz ou da Derruida (MN)
Castelo da Mina
Paisagem na Ponte do rio Sabor
Foz do rio Sabor no rio Douro
Museu do Ferro e da Região de Moncorvo
Jazidas de ferro na Serra do Reboredo
Panorama na Estrada Nacional 220
Igreja da Misericórdia da Torre de Moncorvo (IIP)
Ermida da Nossa Senhora de Teixeira (IIP) (Sequeiros)
Igreja de Santo Apolinário em Urros (IIP)







