27-08-07
Vale da Vilariça (**) (Torre de Moncorvo)
O Vale da Vilariça tem uma área aproximada de 34.000 hectares, constituindo uma pequena planície aluvionar de 5000 hectares, da ribeira que lhe dá o nome, e que nasce a cerca de 25 kms na Serra de Bornes.
O Vale corresponde a uma mega fractura activa, que atravessa o distrito de Bragança no sentido N/S, provinda da Galiza e que se prologa pelo distrito da Guarda. Esta falha alargou-se no curso inferior do rio Sabor e na ribeira da Vilariça. É esta grande estrutura que obriga o Douro a dar um meandro caprichoso na Quinta Vale de Meão. Quando o caudal do rio Douro é maior, impede as águas de rio Sabor de desaguar naquele. É o refluxo do rio Sabor que possibilita a sedimentação de nutrientes no fundo do vale tornando-o muito fértil- é a rebofa. A regularização do curso do Douro, primeiro com o rompimento do Cachão da Valeira no final do século XVIII e mais recentemente com a construção de barragens, tem vindo a diminuir a intensidade das rebofas do passado.
Durante séculos a cultura do cânhamo dominou o vale da Vilariça, decrescendo a sua importância após meados do século XVIII, com o encerramento da Real Feitoria dos linhos cânhamos e com o desenvolvimento da cultura da seda. A partir daí são as culturas cerealíferas e hortícolas em regime intensivo que ocupam as atenções dos lavradores da veiga.
São famosos, apesar de cada vez mais esquecidos, os melões, «Carrasco» e «Lagarto», variedades regionais oriundas do Vale.
Embora aqui ou ali se vejam alguns tractos de vinha, esta espalha-se mais-tal como as amendoeiras, as oliveiras e as laranjeiras-pelas encostas que ladeiam o vale. A produtividade das terras da Vilariça é notável, permitindo o desafogo financeiro das populações do Concelho de Torre de Moncorvo.
As escarpas graníticas vigorosas, delimitam o Vale da Vilariça e no seu topo, em cabeços, implantaram-se vários povoados pré-históricos: Baldoeiro-IIP (*), Santa Cruz da Derruída-MN, Castelo da Mina-IIP, Senhora do Castelo na Adeganha (*), todos eles ricos em vestígios arqueológicos. Destes “castros”, por vezes inacessíveis ao vulgar turista, colhem-se belas visões panorâmicas do vale, com o amplo xadrez geométrico dos seus campos verdejantes.
Mas há um grande senão nesta beleza. Nos dias quentes de Verão o calor húmido torna-se insuportável, e as sombras não abundam. A insalubridade do estio no passado deve ter provocado a demanda das populações destes povoados abandonados; isto também explica que a população de Santa Cruz da Derruída se tenha mudado, e fundado outra localidade, na Idade Média -Torre de Moncorvo - mais defendida das sezões.
Na foz deste vale, defronte ao Monte de Meão, meandra o vasto Douro, num lençol de água que nos faz esquecer da nossa existência e que nos arrasta para uma estranha melancolia; partamos daqui com a certeza que esta depressão, é um oásis de verdura e de fertilidade no ressequido e descarnado Trás-os-montes. É um dos belos rincões de Portugal.
23-03-07
Senhora do Castelo de Urros (Torre de Moncorvo) (*)
Aqui cessa a crista quartzítica, este enorme paredão que constrói a margem direita do Douro na região de Freixo de Espada à Cinta - Torre de Moncorvo. Apesar de as rochas terem idade ordovícica a sua fantástica estruturação orogénica deve-se aos movimentos alpinos.
É bela esta paisagem agreste; sucedem-se ao redor as encostas boleadas de xisto, protegidas da nudez por um manto quase continuo de mato rasteira e aromático, giestas, estevas, aqui e ali interrompidos na sua monotonia por terrenos lavrados e por manchas de amendoeiras e olivais. E ao fundo a belíssima panorâmica do rio Douro.
A capelinha é consagrada à Nossa Senhora do Castelo (também conhecida como Nossa Senhora dos Prazeres), cuja romaria decorre na pascoela. Foi edificada sobre ruínas de povoações coevas como atestam os restos de cerâmica encontradas de varias épocas, medieval, romana e da idade do ferro.
Ainda existe uma linha de muralha de aparelho grosseiro, formado por pedras de quartzito sobrepostas, que delimitam um perímetro subcircular. A designação "Castelo" está relacionada com a existência de um castelo medieval, ainda usado nos séc. XII e XIII.
Afonso Henriques concedeu a Urros um foral importante (1182), do mesmo tipo que costumava ser atribuído a grandes povoações. Da dominação árabe anterior e dos conflitos com os cristãos que aqui viviam, dão conta de lendas e tradições como a do topónimo matança no termo da freguesia ou a da gruta dos Mouros no penhasco onde assenta a capela. Acerca desta diz o padre Argote no século XVIII.
“... no fundo de uns altos rochedos, está uma concavidade subterrânea, a que o vulgo chama o Buraco dos Mouros e por dentro tem a largura bastante para andarem cinco pessoa emparelhadas. Houve pessoas que intentaram investigar o comprimento e fim desta notável concavidade, mas, à vista do muito que corria para o interior, desistiram da empresa : só depõem que dentro acharam largos, formados à maneira de casas". Dizia ainda o diligente Pinho Leal que a dita caverna, “ feita na rocha, passa por baixo da ermida ..., e diz o povo que isto foi habitação dos árabes..., ainda que dá indícios de ser antes obra romana, pela sua perfeição, e provavelmente mina metálica “, tinha razão Pinho Leal.
O desaparecimento do pequeno castelo poderá estar relacionado com o conflitos entre Dom Afonso II e suas irmãs, apoiadas por Dom Sancho I de Leão, que nesta região foram muito violentos, levando à destruição e despovoamento de algumas vilas e aldeias.
Divisam-se outros locais notáveis, já descritos no site, como é o caso do miradouro de São Gabriel (*) e na outra margem o monte Calabre, que se pensa ter sido o berço da cidade de Calábria, sede do Bispado no séc. VII com os seus restos de muralha.
Não aconselho o deslocamento em viatura normal até ao local, confesso que tentei e corri alguns riscos-o viajante assustou-se!
Deixe o automóvel no adro do templo renascentista e barroco de Santo Apolinário, e se puder não deixe de se envolver em mais uma lenda significativa do nosso imaginário.
Segundo a crença local, o santo, bispo da cidade de Calábria, na outra margem do Douro (na actual Quinta da Leda), teria sido preso pelos mouros que o amarraram a dois touros que o arrastaram até ao sítio da capela. Santo Apolinário foi de facto bispo, mas da cidade italiana de Ravena, onde foi martirizado, não pela moirama mas pelos romanos; com os seus afãs e sofrimentos, lançou as sólidas raízes da história cristã daquela cidade.
O certo é que as relíquias do Santo existem, guardadas num túmulo decorado lateralmente com cenas da vida do Santo e com estátua jacente, assente sobre quatro mísulas em forma de cabeça de leão. Está colocado sobre um caixão rectangular, em xisto que, segundo a tradição foi a primitiva sepultura de Santo Apolinário; o povo pede a sua protecção contra as febres intermitentes. Seria interessante uma análise aos ossos que se encontram no túmulo; mas a ciência não estragaria o mistério atractivo do local?
Diz-nos ainda o célebre antiquário Pinho Leal “ Em algumas escavações que se têm feito junto à ermida, apareceu um portal completo e várias pedras de granito, aparelhadas, qualidade de pedra que não há nestes sítios – onde só existem rochas de xisto e quartzites; do que se conclui que vieram para aqui de algumas léguas de distância. No século passado (século XVIII), foram aqui achadas várias moedas de ouro, prata e cobre, e uma grande pia, também de granito “.
Não estaremos em presença de um templo pagão, posteriormente substituído pelo culto ao Santo de Ravena ?
Agora depois de tão enigmática visita, espera-o uma dura caminhada ascensional, não aconselhável a gentes com menor preparação física; atingirá de novo um Monte Alto, um ermo absoluto embrenhado em notável beleza natural, mais um improvável refugio de viandantes que procuram restaurar a sua harmonia espiritual.
Fonte de Informação: http://www.jfurros.no.sapo.pt/freguesia.htm; LEAL, A. Pinho – Portugal Antigo e Moderno: Dicionário, 1.ª edição, Lisboa, Livraria Editora Mattos Moreira & Companhia, vol. III, 1874
09-03-07
Miradouro de São Gregório e Castro do Baldoeiro (IIP) (*) (Torre de Moncorvo)
Fui subindo aquela bonita estrada sinuosa para o Planalto da Adeganha. Parei em todo o recanto, a paisagem é bela; por fim deixo de subir e atingo a orla da planura. Demorei-me algum tempo no Miradouro de São Gregório onde observo o vicejante Vale da Vilariça, a colina isolada da mítica Santa Cruz da Vilariça (MN), de onde vim, a foz do selvático rio Sabor, e a curva do Douro que circunda o Monte Meão; e no lado oposto onde me encontro, também grandioso bloco tectónico soerguido, diviso Vila Flôr e o ponto da fragada onde se deve situar as ruínas do antigo convento Trinitário e o miradouro de Santa Bárbara (que não conheço e que deve ser notável).
Mas é aqui nesta encosta, neste esporão à minha frente, no seio de imponentes rochas graníticas disformes, que se encontra o mítico e importante Povoado do Baldoeiro (IIP). Parti daqui com a noção que o belo é tão importante como o útil. Talvez ao regresso, à tardinha, ziguezagueasse entre aquelas rochas que nos sussurram segredos, depois de ver o objectivo primário para a viagem - visitar a Igreja Matriz da Adeganha (MN) (**).
Quando retornei ao esporão rochoso este iniciava o seu mergulho na penumbra. Então desci pelo muro abaixo, e ala comigo, a percorrer aquela estrada romana e a tentar apreender a alma panteísta do local.
Lancemos a esmo todas as informações que tinha quando cheguei e principalmente retive quando parti.
Local que apresenta vestígios de ocupações do Calcolítico, do Bronze Final, da Idade do Ferro Inicial, Romana e da Alta Idade Média; que existem ténues vestígios de habitações (duas fiadas de pedra no máximo) e de cerca defensiva, a enigmática estrada de pedra, penedos com estranhas formas, abrigo-me num, fiel vagina da Deusa ctónica, onde me sento como animalejo, restos de cerâmica utilitária incisiva e lisa, fragmentos de telha, a existência de machados de pedra polida. Ali um aprumado lajeado em granito a relembrar que aqui poderá ter sido a Cividade dos Banienenes e assim seria um castro romanizado daqueles povos citadados na magnífica Ponte Romana de Alcântara (***).
Apesar dos parcos vestígios romanos, aqui foi encontrada uma lápide dedicada à Júpiter, dedicada por Sulpicus Basus dos Banienses. Seria aqui a Civitas romana ou o local era já mágico e religioso, sendo a ara transportada até ao Baldoeiro em romagem, como prova de fé e gratidão a divindade que tutelava este hipotético santuário romano? Ficamos a aguardar futuros estudos arqueológicos. Também aqui foi povoado vetão como comprova o Touro encontrado por José Leite de Vasconcelos- totem religioso daqueles povos.
Mais comoção ao ver os restos derruídos da românica igreja de São Mamede e o local onde existiu um torre medieval, além sepulturas antropomórficas bem afeiçoadas. Mas onde a emoção atinge o extremo é ver por fim, naquele enorme penedo, grandes insculturas serpentiformes, relacionadas com cultos ofiliátrico, já descobertas por Santos Júnior.
Lembro-me de Avieno e da nossa Ophiusa “Terra das Serpente” como nome do território português na pré-história recente, associado ao nosso território dos adoradores de serpentes. Segundo este autor romano os Estríminios, que habitavam o Ocidente Peninsular, teriam sido expulsos por uma “invasão de serpentes” ou por um povo os Saephes que conforme o nome indica, seriam adoradores de serpentes (do grego sepes). Será a imaginação de Avieno a funcionar, será lenda ou será realidade da nossa pré-história? Estranho é sentir os ofídios como totem ou manifestação divina, agora tão repulsivos ao nosso sentir.
No recôndito do meu pensamento germinaram no espírito ideias confusas de solidão, renúncia e erudição. Mas a magia e a beleza do local tudo abrangem.
Quando chego ao automóvel estou quase a compreender a religião do saudoso Orlando Ribeiro. Digo Adeus a toda uma multidão estatigráfica de fantasmas, povos que fomos e já não somos. Parti ainda com o avatar da Lua a surgir e... no zénite flutuava ainda um resto de clarão crepuscular.
Fonte de Informação -Avieno, Rúfio Festo (ed. José Ribeiro Ferreira), Orla Marítima de 350 d.C., Lisboa, 1992. Site da DGMN.
08-03-07
Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Matriz de Torre de Moncorvo (MN) (**)
“A Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Matriz da vila de Torre de Moncorvo, ergue-se no local de um templo paroquial primitivo da Baixa Idade Média. O ambicioso e majestoso monumento que hoje vemos iniciou-se em 1544. É uma obra maneirista, austera e de linhas severas, com contrafortes pronunciados e dominada pela exuberância e altura da fachada principal. Esta divide-se em dois corpos verticais sobrepostos: o inferior, que corresponde ao portal principal e às duas ordens de nichos que o sobrepujam, e o superior, formado integralmente pela maciça torre sineira.
O interior do templo encontra-se organizado segundo o esquema de hallenkirchen (igrejas-salão), sendo os cinco tramos das naves abobadados à mesma altura. Nas suas proporções e disposição geral, o interior revela a mesma austeridade e racionalidade do exterior, como se testemunha na longa série de tramos do corpo da igreja simetricamente abobadados. A capela-mor ostenta na parede fundeira um retábulo barroco de talha dourada, e nas paredes laterais frescos alusivos a cenas bíblicas, entre as quais uma Última ceia. Outra notável campanha moderna foi a que deu origem ao retábulo lateral na nave do Evangelho, do século XVII, e com painéis alusivos à Paixão de Cristo”.1
A Igreja Matriz de Moncorvo é a que tem maiores dimensões em Trás-os-Montes, maior até que as Sés de Miranda do Douro (*) ou Bragança. A primeira impressão com que deparamos ao chegar ao largo da praça da matriz é a de verticalidade e de monumentalidade do templo. O sentido de amplidão e altura mantém a impressão exterior, com as suas oito grandiosas colunas que suportam as pesadas abóbadas polinervadas em granito.
O seu amplo volume marca a silhueta do casco antigo de onde quer que o observemos. À escala é majestosa, digna de uma Sé, e poderá ter sido construída com este propósito, já que em 1617 era pedido ao rei Filipe a separação da Dioceses de Braga e a criação de um bispado com sede em Moncorvo. Tal nunca viria a acontecer, em 1881 a paróquia passaria a estar integrada na Diocese de Bragança.
Do lado de evangelho está exposto um precioso tríptico em madeira do século XVII, com a Parentela de Santa Ana com três cenas da sua vida: uma representa a Revelação profética de um anjo a S. Joaquim e o encontro deste com a esposa à Porta Dourada de Jerusalém; outro, o casamento de S. Joaquim com a futura Mãe da Virgem; o outro, a Apresentação do Menino Jesus pela Virgem a Santa Ana.
As imagens, apesar de pequenas são de excelente qualidade, sendo igualmente de destacar a policromia abonada e cuidadosa que arrebatava o homem de Quinhentos e que ainda hoje contribui para a empatia do observador. A obra é de origem flamenga, importante de Antuérpia, datável de cerca de 1520.
No templo está bem patente no seu estilo severo o espírito tridentino, e é sem dúvida um dos mais notáveis monumentos maneiristas portugueses.
Fonte de Informação: Site do IPPAR-1
16-02-07
Santuário de Nossa Senhora do Castelo (Adeganha) (Torre de Moncorvo) (*)
Dirigimo-nos ao Santuário da Senhora do Castelo (*). Percorremos a orla do Planalto da Adeganha em estradão que desengonça a pobre viatura! Dos três "castelos" indicados pelo povo-Castelo dos Mouros, da Junqueira e este, vou ao mais cómodo; mesmo assim, repito, pobre viatura!
O ambiente granítico é agreste com carvalhas, zimbros e carrascos, por vezes saltita à nossa frente uma perdiz. Local ideal para cobras, salteadores, monges, pensadores e estetas.
A poente, descomunais, thors graníticos, a fragada, segundo as gentes locais, que por vezes permitem divisar, em abrupta quebrada o fértil vale da Vilariça. Por fim o santuário de poderosa fama milagreira.
É constituído por uma capela principal, a da Senhora do Castelo e pela de São João, implantada no outeiro como um ninho de águias; o povo chama-lhe carinhosamente São Joãozinho. Era o padroeiro das maleitas. E não levava caro, bastava o seu chapéuzinho atestado de trigo...
Segundo se diz a capela foi construída no século XVI e consta ainda que foi mourisca antes de ser cristã.
A capela da Nossa Senhora, a maior, fica mais em baixo num vasto terreiro.
É um espaço pejado de histórias (a das açucenas que não murcham, a do soldado que vem da guerra- esta não a conheço) e de vestígios arqueológicos. O local teve ocupação do Calcolítico à Alta Idade Média, sendo os achados mais significativos da Idade do Ferro; aqui e além ainda se observam vestígios de troços de muralhas.
Em meados do século XVIII, dizia o Padre Luís Cardoso que "no sitio em que se acha hoje a Senhora do Castelo, houve antigamente uma grande cidade, da qual ainda se descobrem parte de muros" e ali perto" à muita pedra que parece ruínas de antiga fortaleza e dizem ser um castelo de mouros".
Por aqui andou o Abade de Baçal enredando restos arqueológicos, e segundo este “é muito frequente ao longo da encosta do cabeço de S. João e após as chuvas de Inverno encontrarem-se fragmentos de barro decorados, pedras aparelhadas.”
Uma anciã passa com uma azémola, rapidamente estabeleço diálogo, a princípio suspeitosa, depois simpática; não há quem resista à simpatia deste vosso viajante!
Conta-me a lenda (o milagre) associada à (re) construção do santuário.
"Há já muitos, muitos anos, vinha para aqui guardar o rebanho uma pastorinha das redondezas. Logo que chegava, entrava na capela e rezava à Senhora do Castelo. Dava dó, a capela! Já chovia no altar. E as raposas acoitavam-se ali de noite. Um dia Nossa Senhora sorriu-lhe. Ficou a pastorinha muito assustada! Mas logo a Mãe de Deus a sossegou: "não tenhas medo, minha filha. Gosto muito das tuas visitas. E quero pedir-te um favor. Diz ás pessoas do Vale e da Fragada que venham rezar aqui e que me componham a capela". Perguntou a pastorinha como acreditariam nela. Mas logo a Senhora a sossegou prometendo um sinal.
Foi-se logo ela dali. E aonde não foi, mandou. No domingo seguinte muita gente veio cantar e rezar à Senhora do Castelo. Até o Sr. Padre. Com a estola e água benta, não fosse o Demónio tecê-las. Lamentavam todo o estado de abandono em que se encontrava a capela. E logo fizeram o peditório para a compor quanto antes. De repente gritou a pastorinha: "Olhem para o monte de São João". Todos olharam. Até as ovelhas! Foi tão grande o clamor, que ainda hoje, em certas alturas, ela ecoa pela Fragada fora. O monte de São João estava todo cobertinho de açucenas! E desde então, até ao dia de hoje, sempre aqui floresceram em Maio..."1
Poética lenda, com a idosa a insistir que ali é que deveria ser a verdadeira peregrinação à "Nossa Senhora" e não à Cova da Iria; mas a romagem, sem as multidões de Fátima, ainda hoje existe, em peregrinação às açucenas e à Senhora. A festa realiza-se no terceiro domingo de Maio.
Quase que esquecia de informar o leitor que a razão da nossa ida ao lugar começou por ser o panorama imponente do local, sobre o estrutural Vale da Vilariça, com as quintas da Terrincha, da Silveira a seus pés. Mas a imagem forte que retenho é outra.
Mau grado o meu lado agnóstico, comoveu-me profundamente a espiritualidade (mais do que a religiosidade) da camponesa com o seu burrico, afastando-se, a descer o íngreme monte; peça bucólica na imensidão tempo e do espaço perdido, recolho-me à minha pequenez e mergulho nas profundidades do "meu" sagrado. É quase noite e apenas um borrão de luto se desloca ao longe. Um novo aceno, estamos vivos, eu, a senhora Maria e o burrico. Partamos desprendidos!
Fonte de Informação - "Mensageiro de Bragança" de 25-05-2006, de um artigo retirado do Sr. Padre Joaquim Leite. Maria.
02-02-07
Igreja de São Tiago matriz da Adeganha (Torre de Moncorvo) (**) (MN)-II
O interior de uma só nave, conserva bons frescos quinhentistas, a relembrar de certo modo, a próxima capela da Nossa Senhora de Teixeira (Açoreira) ou a distante Igreja de Santo Isidoro em Marco de Canavezes (*); alguns deles foram descobertos e restaurados recentemente.
É de grande beleza o enorme São Tiago, envolto por moldura de losangos denteados e frisos de motivos geométricos e vegetalistas estilizados; quem terá sido tão brilhante artista?
A temática é obviamente hagiográfica, surgindo, na nave, temas cristológicos, terminando em Calvário sobre o arco triunfal, este encoberto por razões de conservação, também se vê Santo António, os Reis Magos, os objectos de suplício de Cristo… São valiosos estes murais quinhentistas.
O retábulo-mor, de linguagem barroca, integra duas pinturas sobre madeira, quinhentistas, representando São Lourenço e São Martinho, que terão pertencido a um retábulo anterior e do qual, durante o desmonte, foram encontradas peças que teriam sido recicladas para o retábulo actual.
No retábulo-mor encontramos às tábuas de "São Martinho" e “São Lourenço”, pinturas a óleo sobre madeira de castanho atribuídos a Manuel Vicente e Vicente Gil, respectivamente pai e filho, denominados como mestres do Sardoal (porque foi aqui que primeiro se estudaram e identificaram estes autores). Pintores que foram activos nos reinados de Dom João II e D. Manuel I e são os principais representantes da pintura manuelina Coimbrã. No interior em penumbra, sem rosáceas ou frestas alumiantes, não se vislumbram sinais das “Três-Marias”. Vamos então à sua lenda.
“Reza a história que as Três-Marias eram irmãs e pastoras. Iam para o monte de Frei Vivas, monte de zimbros, carrascos, sobreiros e giestas, apascentar o gado. Enquanto o gado pastava, elas entretinham-se a jogar às cartas. Mas uma das três irmãs ganhava sempre e não havia maneira de a fazerem perder, as outras duas ficavam roídas de inveja e intrigadas - Seria ela bruxa? Ou aquilo seria obra do Céu? Nem uma coisa nem outra. Ela ganhava sempre porque jogava com manha.
Finalmente as outras duas descobriram e combinaram desforrar-se. Fizeram uma grande fogueira, com muita lenha, e empurraram para a fogueira a irmã batoteira que lá ficou a arder em grandes chamas. Se tentava sair as outras duas não deixavam e com os dedos em "figas"diziam: Arde e ganha! Arde e ganha! E assim ficou o nome de Arde e Ganha, Adeganha”1.
Estranha lenda, a relembrar tempos de intolerância, materializados durante 3 séculos na inquisição portuguesa, e que foi a maior causa de desonra e pobreza (de espírtio e material) destes 900 anos de história-a instituição ainda hoje se repercute na nossa maneira atávica de ser e fazer.
Para não terminar a visita à igrejinha de um modo triste, e não levar os leitores para sentimentos de culpa congénitos, voltemos para rematar, a um autor que nos orgulha e que também aqui esteve.
“Enfim, a igreja é esta. Não caiu em exagero quem a gabou. Cá nestas alturas, com os ventos varredores, sob o cinzel do frio e da soalheira, o templozinho resiste heroicamente aos séculos. Quebraram-se-lhe as arestas, perderam a feição as figuras representadas na cachorrada a toda a volta, mas será difícil encontrar maior pureza, beleza mais transfigurada. A igreja de Adeganha é coisa para ter no coração, como a pedra amarela de Miranda".(José Saramago, "Viagem a Portugal" Prémio Nóbel da Literatura)
Nota pessoal: Aqui estive pela primeira vez no início da década de 90, estava então numa viagem de estudo de geololgia, orientada sempre com muita sabedoria e alegria pelo Dr. Luís Nabais Conde.
Fontes de Informação: Sites www.adeganha.com 1 e www.monumento.pt. “A Igreja Matriz de Adeganha”, Terra Quente artigo de 15-3-2005
01-02-07
Igreja de São Tiago matriz da Adeganha (Torre de Moncorvo) (**) (MN)-I
« Esta estrada vai dar à aldeia de Estevais, depois a Cardanha e Adeganha. O viajante não pode parar em todo o lado, não pode bater a todas as portas a fazer perguntas e a curar das vidas de quem lá mora. Mas como não sabe nem quer despegar-se dos seus gostos e tem a fascinação do trabalho das mãos dos homens, vai até Adeganha onde lhe disseram que há uma preciosa igrejinha românica, assim deste tamanho. Vai e pergunta, mas antes pasma diante da grande e única laje granítica que faz da praça, eira e cama de luar no meio da povoação ». José Saramago « Viagem a Portugal »
Adeganha é uma aldeia típica transmontana (perdida no tempo, mas não na geografia da “alma portuguesa”), situada no frio e árido Planalto Transmontano espreita a poente a vasta extensão do Vale da Vilariça (**). Em redor, as leiras do centeio, os olivais cobrindo os montes, a penedia encrespada. Em pequenas construções toscas de pedra acautelam-se as ovelhas e os cereais, e o granito é aproveitado para paredes ou para eiras onde se fazem as malhadas.
Para além das relíquias da coeva arquitectura transmontana, ainda possui a segunda mais bela igreja românica transmontana (a primeira é a extraordinária igreja de São Salvador Anciães (***)- e basta para esta um portal e uma paisagem!).
A igreja de São Tiago foi edificada no século XIII, segundos uns, ou no século XII, conforme afirma o Abade de Baçal. Dedicada ao Apóstolo referido e originalmente dotada de um alpendre exterior para albergar os peregrinos, ela situava-se num dos caminhos de Santiago de Compostela. O seu portal pertençe à transição entre o românico e o gótico.
O bestiário da cachorrada é de grande qualidade escultural e com olhar arguto, culto e imaginoso é possível passarmos algum tempo a tentar descortinar o seu significado.
A fachada principal, virada a poente, ergue-se altaneira, de dupla ventana. O portal principal de arco-quebrado anuncia o estilo gótico. Possui duas arquivoltas com decoração fitomórfica assente em peanhas com cabeças antropomórficas, por cima a Cruz Templária. Três estranhas figuras femininas em baixo relevo -as Três-Marias (Três Irmãs, Três Comadres) quebram a frugalidade ornamental da fachada, estas foram imortalizadas em estranha lenda (ver próxima entrada). A do meio está a parir, coadjuvado por uma comadre? Será um símbolo de fertilidade e camaradagem? Se assim for como estamos longe das labaredas proclamadas na lenda. O outro grupo escultórico é mais pequeno e representa um homem com dois objectos na mão que lembram dois pergaminhos. Significará um convite à contemplação e à oração? Mas com os testículos salientes?
Na fachada Sul existe também um Homem com um joelho flectido, levantando-se. Tem os braços abertos e em cada mão segura algo. Ao nível do seu peito uma figura feminina, deitada? Será a vida, o sol, o prazer, a primavera, ou será antes a morte, a lua, o sofrimento e a invernia da alma?
Também a fachada Norte tem um frade olhando de frente e segurando um livro - a Bíblia? Ao lado suportando uma peanha,como se fosse o peso do mundo, uma estranha figura feminina com esgar de sofrimento, de boca e olhos fechados, como dando à luz. Será um apelo a penitência e ao sacrifício, exigido aos indivíduos do mundo medieval?
Debaixo dois túmulos de arcossólios a relembrarem a inevitabilidade da finitude da existência.
Elementos interessantes são as cachorradas que se apresentam nas fachadas laterais representando signos tão díspares como, canídeos, triângulos, rostos de homem e mulher, aves, bovídeos...
Todos estes símbolos enigmáticos foram criados e entendidos pela mentalidade do Homem medieval. É por essa e por outras que eu gosto do românico, o mais telúrico estilo arquitectónico e para mim um verdadeiro estado sublimação.
Fontes de Informação: Sites www.adeganha.com e www.monumento.pt. “A Igreja Matriz de Adeganha”, Terra Quente artigo de 15-3-2005
27-05-06
Torre de Moncorvo
Igreja Matriz de Torre de Moncorvo (MN) (*)
Igreja de Santa Maria Maior, matriz de Adeganha (MN) (**)
Senhora do Castelo (Adeganha) (*)
Miradouro de São Gregório e Povoado do Baldoeiro (IIP) (*)
Veiga da Vilariça (**)
Panorama da Senhora do Castelo (vestígios de povoado) em Urros (*)
Outros locais com algum interesse turístico
Muralhas e Ruínas da Vila Velha de Santa Cruz ou da Derruida (MN)
Castelo da Mina
Paisagem na Ponte do rio Sabor
Foz do rio Sabor no rio Douro
Museu do Ferro e da Região de Moncorvo
Jazidas de ferro na Serra do Reboredo
Panorama na Estrada Nacional 220
Igreja da Misericórdia da Torre de Moncorvo (IIP)
Ermida da Nossa Senhora de Teixeira (IIP) (Sequeiros)
Igreja de Santo Apolinário em Urros (IIP)











