25-02-06
Notas avulsas sobre o concelho de Pinhel
Recomendações
- Requalificar a Praça Central de Pinhel de acordo com o plano dos arquitectos João Marujo e João Ramos, acrescentando uma estátua da rainha Catarina de Bragança (Regente e rainha de Inglaterra) e/ou de João Pinto Ribeiro (o “João das Regras” da restauração de 1640)
- Requalificar o centro histórico de Pinhel, elaborando um Plano de Pormenor e criar uma Sociedade de Reabilitação Urbana que, recorrendo a todos os recursos financeiros e programas optimizem o próximo Quadro Comunitário de Apoio (2007-2013) (Pólis, Aldeias Históricas, Agenda 21 Local, URBCOM, MODCOM, PRAUD, PROQUAL ....)
- Requalificar o Solar dos Távoras em Souropires.
- Requalificar o parque urbano da Trincheira (Pinhel).
- Inventariar, estudar e defender: o Bogalhal-velho, a Aldeia (Azêvo) e Cidadelhe (inclui o Castelo dos Mouros); e ainda a Quinta de Santo Antão, as Minas da Senhora das Fontes (Santa Eufémia), a Ponte Pedrinha (Pereiro), a Senhora da Torre (pinhel) e o Castelo (Prados) em Freixedas.
- Estudar, recuperar e musealizar os frescos na igreja de Alagoa (Argomil).
- Criar um Centro de Acolhimento, para os turistas terem acesso às gravuras e pinturas rupestres da Faia e ao Castelo dos Mouros (Cidadelhe).
- Criar percursos pedestres naturais e arqueológicos, certificando-os na Federação Portuguesa de Campismo aproveitando a Ribeira das Cabras e o Vale do Côa.
- Estudar o Complexo hidrogeológico fluoretado da Sinchela-Abelhão e ainda as águas sulfurosas de Ribapinhel ( Ribeira das Cabras).
- Continuar a estudar a vila Romana da Quinta do Prado Galego.
- Classificar, as aldeias de Cidadelhe, Bogalhal-Velho e Aldeia (Azêvo) e ainda os sítios arqueológicos de Castelo dos Mouros, Castelo dos Prados (Freixeda), Senhora das Fontes (Santa Eufémia), Senhora da Torre (Pinhel) e a Ponte Velha do Côa. O Centro Histórico de Pinhel e Cidadelhe também poderão ser classificados como Aldeias Históricas.
- Contratarem biólogos especializados, com ligação ao Ensino Superior, para revitalizarem as áreas classificadas da Rede Natura 2000 (vales da ribeira das Cabras e do rio Côa).
- Construírem-se novas unidades de alojamento e recepção turística.
- Em parceria com os municípios vizinhos, constituir uma loja de venda de produtos locais e divulgação turística, nas grandes cidades portuguesas e espanholas (Lisboa, Porto, Madrid...).
- Utilizar todos os meios disponíveis (televisão revistas, feiras...) para divulgar Pinhel.
O que eu gosto em Pinhel
- Do seu brasão (Pinhel, Cidade Falcão)
- Gosto da Tapioca, Papas de Milho (que aprendi a fazer) e ainda dos almoços diários do Restaurante Skylab e na cantina na Escola Secundária.
- Da sua bonita paisagem, principalmente nos vales do Côa, Ribeira das cabras e da paisagem granítica em Gamelas (na Estrada Nacional 324).
- Da sua história.
- Dos locais notáveis referidos
- E o melhor de Pinhel? os pinhelelenses, claro!
As gentes de Pinhel - laboriosas, tranquilas, simpáticas, humildes e desprendidas – vão ser capazes de criar um centro histórico de excepção e então observarão os visitantes a fruir os seus monumentos e a conhecer valores milenares que fazem de nós uma pátria singular.
Do que eu não gosto
- Do desmazelo e abandono, a que está votado o seu património histórico.
- Da resignação e falta de espírito combativo das suas “gentes”.
- Da falta de uma piscina.
- Dos maus acessos para os concelhos vizinhos (exepto para Almeida).
- Do encerramento da fábrica Rhodes, que colocará Pinhel numa situação dramática.
04-02-06
Pinhel-Cidadelhe (***)-IV-Conclusão
Cidadelhe tem das mais belas gravuras de Arte rupestre ao ar livre, declaradas Património Mundial da Humanidade; possui um castro riquíssimo em evocações arqueológicas e mágicas; contem um mirante colossal para as escarpas verticais do rio Côa; tem uma pequena aldeia rústica, histórica e literária, como eu nunca vi e imortalizada por Saramago; e tudo isto rodeado por um belíssimo ambiente natural. Infelizmente são raros os portugueses que a conhecem, e muitos deles endividam-se para visitarem locais longínquos, inferior em qualidade estética e patrimonial aos atractivos descritos.
Bem hajam o esforço desenvolvido pela ADERCI presidido pelo Senhor Marques Reigado que elaboraram plano estratégico de desenvolvimento para a localidade.
Cidadelhe e o seu ambiente envolvente, é a par de Marialva, Monsanto, Linhares da Beira, Sortelha e Monsarraz, uma das mais belas aldeias de Portugal e que deveria ser classificada como “Aldeia Histórica”.
Urge estudar, inventariar, classificar, revitalizar, defender e divulgar Cidadelhe.
Este é o momento ideal para se fazerem projectos e planos, uma vez que é dever dos agentes locais e regionais, conseguirem o máximo proveito do próximo Quadro Comunitário de Apoio (IV) da União Europeia, para revitalizarem este espaço- repito, único em Portugal.
O que for feito, não poderá ser destinado a um excursionismo de massas acéfalo, mas sim destinado a um turismo cultural e natural de qualidade.
Para além da requalificação cuidada do “Povo de Baixo”, do Castelo dos Mouros e do acesso as Gravuras Rupestres, é importante a existência de um centro de acolhimento e de acompanhamento dos turistas aos locais de interesse. Os dois monumentos arqueológicos, devem ser resguardados, porque o seu espólio pode desaparecer nas mãos de galfarros.
Às minhas cicerones, que foram a senhora Laura (imortalizada na obra de Saramago, irmã do senhor Guerra), a senhora Hortênsia e a senhora Rosário, o meu bem-hajam.
Para finalizar, também não me posso esquecer da linda história do Pálio contada pelo escritor. O pálio bordado a ouro e seda, veludo carmesim de Veneza, é carinhosamente guardado numa casa particular, em absoluto segredo e apenas no Domingo de Páscoa, durante a Procissão do Santíssimo, pode sair à rua. É uma das relíquias da terra; talvez ainda não mereça a sua contemplação, mas o viajante não entristece, porque Cidadelhe tem muito para reparar, sentir e pensar.
29-01-06
Pinhel-Cidadelhe (***) III- Núcleo de Arte Rupestre da Faia (***)
Nesta freguesia podemos encontrar das mais impressivas expressões artísticas do Parque Arqueológico do vale do Côa, mas inacessíveis ao mero cidadão.
“Encontramos seis sítios que acompanham o curso do rio Côa ao longo de cerca de 800m, na sua margem esquerda. Distribuem-se pelas formações escarpadas, aproveitando os painéis verticais e lisos virados ao rio. O sítio que os investigadores designam Faia 1 integra três painéis. Num deles figuram dois bovídeos semi-naturalistas pintados a vermelho. Outro painel ostenta um antropomorfo esquemático e um outro indeterminado. O terceiro painel tem pintado um orante esquemático. O sítio designado Faia 2 é constituído por um grande painel com dois grupos de barras pintadas a vermelho ladeadas por manchas indeterminadas. A Faia 3 é um painel superiormente protegido por uma pala ao centro do qual é reconhecível um grande antropomorfo semi-esquemático, pintado a preto, que parece segurar um objecto em cada uma das mãos (talvez um arco e um outro objecto indeterminado). Identificaram-se outras manchas de pintura mas sem que sejam reconhecíveis. A Faia 4 apresenta apenas uma mancha de ocre que não forma qualquer motivo. A Faia 5 é um painel no qual figuram dois pequenos antropomorfos esquemáticos pintados a vermelho apresentando mãos com longos dedos. A Faia 6 é uma grande superfície vertical, com cerca de 30 m de altura, na qual as pinturas e gravuras se encontram figuradas em vários painéis, a cota relativamente baixa, pouco acima do nível actual da águas. O núcleo mais meridional, constituído pelo maior painel, apresenta quatro cabeças de bovídeo gravadas por abrasão, cujo traço foi pintado a ocre. Nalguns casos foram pintados a ocre pormenores da boca e narinas. A cabeça de um destes auroques, que recebeu pintura sobre os traços gravados que a definem, excepcionalmente conservada, encontra-se numa localização muito protegida, sob um ressalto da rocha. Dentro da cabeça do auroque e sob a cabeça, encontram-se dois antropomorfos esquemáticos pintados a vermelho. Destaca-se a relação dos motivos com o suporte em que foram gravados, parecendo emergir da rocha. Para jusante destas figuras encontra-se um grande capríneo gravado por picotagem e abrasão e, no painel mais meridional, duas cabeças cruzadas, uma de auroque e uma outra de equídeo, gravados também por picotagem e abrasão.” (CNART, 1999; BAPTISTA, 1999)
Tendo em conta a minha descoberta no Castelo dos Mouros, a “gravura do caçador ou guerreiro” é muito natural que o rio Côa, neste sector, inclusive a cotas mais elevadas, tenha mais gravuras. Temos ainda que ter em conta, que a inscultura não se encontra in sito e poderia estar a ser estranhamente (?) deslocada de um outro sítio.
As Gravuras e pinturas Rupestres da Faia datam entre o Paleolítico e a idade do Ferro. Estas são caso único no contexto do vale do Côa, uma vez que, em alguns casos, coexistem motivos gravados com pinturas paleolíticas em suporte granítico. As pinturas estão normalmente resguardadas dos agentes erosivos.
Cidadelhe é ainda importante, porque foi aqui que se iniciou a descoberta do “Vale Sagrado”: As gravuras e pinturas da Faia foram identificadas pelas primeira vez por Francisco Sande Lemos quando procedia ao estudo de impacte ambiental encomendado pela EDP, estudo que precederia as obras de construção da barragem para aproveitamento hidroeléctrico do rio Côa. Na sequência das recomendações desse estudo, foi constituído pelo IPPAR o Projecto Arqueológico do Côa, coordenado por Nelson Rebanda, que veio a identificar as primeiras gravuras paleolíticas da Canada do Inferno. A seguir tivemos toda a acesa polémica entre os defensores das gravuras rupestres e os “talibãs” insensatos defensores da construção da barragem. As Gravuras Rupestres de Siega Verde no rio Águeda, fronteira a Almeida, também importantes (mas com menor quantidade e qualidade) foram salvas, não se construindo uma grande barragem. Apenas imitamos os vizinhos que sabem dar valor ao património que têm.
Será que os defensores da barragem não compreenderam que o Parque Arqueológico do Vale do Côa, tem a importância e valor universal idêntico à Acrópole de Atenas, ao Coliseu de Roma, ao santuário Histórico de Machu Picchu, ou à Grande Muralha da China...igualmente classificados pela UNESCO.
Tenho que encaminhar alguns amigos “talibãs” a Cidadelhe; e tenho a certeza que os seus horizontes se abrirão à evidência. Será a cura da sua miopia.
28-01-06
Pinhel-Cidadelhe (***) II- Castelo dos Mouros e Poio do Gato (**)
A viagem dista até ao “além” cerca de 10 minutos, por entre carvalhos, sobreiros, azinheiras e outra vegetação mediterrânea. Passo por um pombal gigantesco.
É um lugar singular. As placas indicam-me o “Centro do Castelo”, a “ Forca dos Lusitanos” e o “Poio do Gato (**)”; é para aqui que me dirijo.
Eis o rio Côa abismal! Estou perante um profundo vale encaixado que atinge os 200 metros a pique. O “rio mágico”, bramidor e enfurecido, peleja contra as ciclópicas escarpas graníticas. Em Santa Comba o granito dará lugar ao xisto e então o rio das “pedras mágicas” serenara ao lidar com margens menos declivosas devido à maior brandura litológica. É um dos desfiladeiros mais impressivos que vi (e saibam os leitores que sou um geólogo com alguma experiência). Relembro que o trabalho paciente e erosivo dá os seus frutos. Penso, contemplo e não esqueço.
Um grifo-dourado voa à minha frente, contrasta com o tom cinza do granito, subitamente, dá duas voltas em círculo fechado e desaparece na curva da rio.
Volto para atrás e ignorando a “Forca dos Lusitanos”, embrenho-me no “Centro do Castelo”- a experiência é excepcional.
É um raro bosquete mediterrâneo; e ao baque dos meus passos, estou à espera de ver surgir por detrás de um “barroco” algum druida celta com a sua foice mágica. É uma miríade de pormenores sensoriais neste túnel de vegetação. É também uma viagem solitária dentro de mim.
São pedras almofadadas, colunas romanas, lintéis, frisos, moinhos... e numa clareira tropeço e descubro a minha primeira gravura rupestre num granito fragmentado; um antropormofo com o seu arco retesado e que poderá ser da Idade do Bronze ou do Ferro. Lembro aos leitores que nos encontramos na extremo sul do Parque Arqueológico do Vale do Côa(*****), classificado como Património Mundial da UNESCO em Dezembro de 1998 e estou próximo das importantes Gravuras Rupestres da Faia (***).
O Castro teve muralha, que ainda existe em alguns panos e foi habitada desde a idade do bronze (entre XIII a X a c.). Teve também ocupação romana e fazia parte do território da civitas de Aravos (actual Marialva (***)).
O “Castelo dos Mouros” é um local transcendente e mágico, de grande riqueza arqueológica, paisagística e natural. É a entrada meridional do mais belo museu ao ar livre da Humanidade.
Pinhel- Cidadelhe (***) I- Aldeia de “Baixo” (*)
A propósito de Cidadelhe, “calcanhar do mundo”, voltemos de novo a Saramago que a transformou numa “aldeia literária”. Na “Viagem a Portugal”, obra menor na sua extraordinária carreira literária, dedica as mais belas páginas do livro a esta localidade, oculta dos portugueses.
Cidadelhe divide-se em dois, é o “Povo de Cima”, as Eiras, mais recente, e o “Povo de Baixo” (*), mais antigo.
As Eiras têm de interessante a Ermida de São Sebastião, com alpendre, que protege uma pintura maneirista provincial representando o Calvário e tendo no seu interior o São Sebastião patusco imortalizado por Saramago, com seus enormes “abanos”, e que é uma composição menor de um santeiro de Castelo de Paiva (a senhora Rosário manda dizer ao senhor escritor que ficou desgostosa por este ter brincado com o santinho).
A aldeia de “baixo” é única. Diz o nosso Nobel, “a Aldeia é toda pedra. Pedra são as casas, pedra as ruas. Muitas destas moradas estão vazias, há paredes derruídas. Onde viveram pessoas, bravejam ervas”.
“O viajante maravilha-se diante de algumas padieiras insculpidas ou com baixos-relevos decorativos: uma ave pousada sobre uma cabeça de anjo alada, entre dois animais que podem ser leões, cães ou grifos sem asas, uma árvore cobrindo dois castelos, sobre uma composição esquemáticas de lises e festões”.
A humilde povoação cristalizou no tempo, por volta da idade Média e, por toda a banda, abundam artefactos rústicos e arqueológicos há muito desaparecidos nas aldeias portuguesas e que um citadino pouco versado em ruralismo não ousa entender e designar. Este conjunto ancestral está em estado de abandono e declínio.
São as habitações rurais arcaicas, algumas redondas de apelo castrejo, os pombais colocados estrategicamente, as manjedouras (tantas como eu nunca vi), os arados, as charruas, as sepulturas antropomórficas transformadas em lagaretas (uma rara lageada), é a igreja com belos caixotões hagiológios do século XVII ou final do XVI (também está a Rainha Santa Isabel e pensei muito em ti avó), são as inúmeras marcas de religiosidade... e é o “cidadão”.
A propósito deste voltemos a Saramago. “O viajante medita no singular amor que liga um povo tão carecido de bens materiais a uma simples pedra, mal talhada, roída pelo tempo, uma tosca figura humana em que já mal distinguimos os braços, e confundem-se os pensamentos, vendo como é tão fácil entender tudo se nos deixarmos ir pelos caminhos essências, esta pedra, este homem, esta paisagem duríssima. «Que se sabe da história do Cidadão?», perguntou o viajante. «Pouco. Foi encontrado não se sabe quando, numas pedras de além» (faz um gesto para a invisível margem do Côa).”
Eu também encontro o “além”; é um outeiro arredondado, num nível inferior ao “povo de baixo”. É o “Castelo dos Mouros” que é um importante sítio arqueológico, rodeado de grande beleza natural.
21-01-06
Paisagem e aldeia abandonada de Aldeia (Azêvo-Velho) (*)
Quando se deslocou a Cidadelhe, José Saramago deve ter observado de relance, ao longe e sem parar, a aldeia de Azevo Velho. Desaproveitou, porque às vezes a rapidez impede-nos de ver o óbvio. Não é o autor que diz: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." (Ensaio sobre a Cegueira).
Aldeia é um local fantasmagórico, desabitado, mas com encanto. Quem a vê ao longe, avista ruínas pardacentas, rodeadas por muros toscos e, no topo, uma estranha casa circular que é um moinho adaptado por um emigrante.
O local situa-se no flanco oeste da crista quartzítica da Marofa, à cota de 667 metros. Nesta pequena serra guia, apenas se instalaram na sua cumeada, duas pequenas localidades e em flancos opostos: a que estamos a descrever e a Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo (*).
São por isso “manas”, de uma beleza dissemelhante; mas uma lembrada e visitada e a outra completamente abandonada e esquecida que deveria ser recuperada e posta ao serviço do turismo.
É certo que Azêvo Velho, não tem o património erudito de Castelo Rodrigo, mas ao invés tem outros interesses, como as humildes ruínas vernaculares, as habitações circulares que são francos resquícios castrejos...ou simplesmente a sua paisagem.
Aldeia foi muralhada por rudes mãos temerárias que construíram um "Castelo rural". Como apenas foi abandonada recentemente, pergunto-me qual seria a razão para os moradores habitarem local tão ermo, sujeito às intempéries de uma Beira climaticamente extremada.
Lembrei-me agora, e peço desculpa porque os viajantes têm o direito de errar, que talvez seja lembrança genética do “saque dos Marialvas. Este atingiu quase todo o concelho de Pinhel, e relacionado com ele, existe uma sentença dada por D. Afonso V, em 21 de Julho de 1481 “contra ho Marichall de nossos reynos, e senhor da dita villa de Pinhell, Dom Fernando Coutinho”. Tudo começou com a expedição punitiva que o seu filho, D. Henrique Coutinho, reunindo gente armada, resolveu fazer a Azevo, pelo facto de os habitantes do lugar se recusarem a efectuar vigias no castelo de Pinhel. Inebriados pelo sangue e pela sobranceria da sua condição, alastraram a punição ao resto das localidades do Concelho e aos gritos de Marialva! Marialva! roubaram, mataram, destruíram e violaram.
È belo o seu panorama. Para se sentir a sua abrangência repare-se no que diz o Padre Luís Cardoso no “Dicionário Geográfico” publicado em 1758,“...Aldea, fundada sobre um alto cabeço, donde está a igreja, e se descobrem terras de sete bispados: do de Viseu, da Guarda, de Coimbra, de Miranda, de Braga, de Lamego e do de Ciudad Rodrigo no Reyno de Castela. Avistão-se várias povoações, como a praça de Almeida, Pinhel, Trancoso, Marialva, Meda, Longroiva, Villa Nova de Foz Côa, e outras muitas povoações da Província de Trás os Montes”.
Ao redor, nos socalcos de olivais, vinhas e amendoais, coexistem, possantes camadas quartzíticas com a flora local: zimbro, carrascos, azevinhos e giestas.
O topo da aldeia tem sido desfigurado por uma família que adquiriu uma área considerável e que transformou o moinho altaneiro em habitação.
Quase todos os edifícios estão em desmoronamento e, no silêncio da serra e da ruína, consigo evocar a labuta diária, martirizada, dos seus antigos habitantes.
14-01-06
Pinhel-Paisagem e aldeia medieval abandonada de Porto de Vide (Bogalhal Velho) (*)
Existem locais belíssimos em Portugal e completamente alheados dos roteiros turísticos. Parecem perdidos na bruma dos tempo e abandonados na nossa memória.
Entre os leitores, existe alguém que conhece a aldeia medieval abandonada de Santa Maria de Porto de Vide, vulgarmente conhecido por Bogalhal Velho? É um sítio solene com imensa beleza paisagística, a que acrescento alguma magia, que nunca hei-de renunciar sentir nestes lugares.
Ao chegar deparamo-nos com as ruínas poéticas de uma povoação com alguma importância medieval rodeada de matagal, tendo apenas em pé o esqueleto gótico da igreja (típico dos templos medievais na região) e vestígios de habitações.
A localidade deverá ter sido abandonada no final da idade média, à semelhança do que sucedeu com a povoação vizinha do Castelo de Monforte (Figueira de Castelo Rodrigo); e poderá ter sido um ponto estratégico na defesa do Reino antes de Alcanices. Deste modo se comprova que desde sempre, a zona da raia beirã, devido a sua periferia, ao seu clima extremado e às desavindas com o reino vizinho, sempre foi repulsiva à ocupação humana durante a nossa nacionalidade.
Mas a sacralização do lugar, possibilitou que a igreja continuasse a ser frequentada por procissões anuais durante mais algum tempo. Depois até aquelas cessaram e o local foi esquecido, até que o edil de Pinhel, em boa hora, tornou possível a sua acessibilidade.
A aldeia está assente num cabeço granítico, com 500 m de cota, e poderia ter sido um crasto fortificado. Tem como limite Este uma intransponível escarpa granítica, no restante perímetro, provavelmente seria rodeada por muralha.
É notável o vale encaixado da Ribeira das Cabras, que tem aqui a sua foz no rio Côa. O desnível altimétrico chega a atingir os vertiginosos 110 m. A minha sensibilidade de geomorfólogo vê aqui, ansioso, uma audaciosa fractura, por outro lado, o geólogo não encontra nas rochas sinais de tão extremada alteração tectónica (provavelmente terei que alterar este texto em breve).
A norte deambula o misterioso Côa, alojado no sopé da Serra da Marofa, preparado para romper a forte muralha quartzítica.
A serra, que é a bússola da região, surge com o todo o seu esplendor, desde Santo Antão até à Marofa.
Sentado numa enorme penha granítica, visiono dois locais notáveis que em breve visitarei: a povoação também quase deserta de Aldeia na freguesia de Azevo (*) e o ponto mais alto da Serra da Marofa (*).
Aqui sente-se o ambiente bravio mediterrâneo e pensa-se na complexidade geológica; vêm-se agitadas aves crocitantes que cortam os céus e ouve-se o ruído da água ao fundo, em enlace com a rocha... e o abismo, para sempre em atracção perpétua.
27-12-05
Fonte DGMN
Solar dos Távoras (*) em Souro Pires
O Solar dos Távoras é uma casa Senhorial do século XV, com dois torreões de reminiscência medieval, que fazem lembrar uma fortaleza. Tem cinco formosas janelas: uma de canto e as restantes com lindas volutas de cantaria. As grandes e regulares paredes e o número escasso de aberturas são características da idade média, mas o tratamento dessas aberturas é já tipicamente renascentista.
Apesar da sua sobriedade é um dos mais belos paços quatrocentistas portugueses e no entanto encontra-se em deplorável estado, quase em ruína.
O edifício é também evocador da tragédia dos Távoras. Estes formavam uma das famílias mais poderosas do reino no século XVIII. A três de Setembro de 1758, o rei D. José é alvo de um atentado, sendo o Duque de Aveiro e os Távoras acusados de serem os principais mentores de tal acto. Em Dezembro do mesmo ano são detidos e no mês seguinte são barbaramente executados o duque de Aveiro e vários Távoras. O envolvimento do Duque deu-se como provado, mas a inocência dos Távoras era dada como quase certa e as suas mortes suscitaram vivas reacções na Europa ilustrada. A execução serviu para dissuadir e eliminar qualquer tentativa de contestação política despótica do Marquês de Pombal.
Torre Norte com janela manuelina do Castelo de Pinhel (*)
A estrutura da velha cerca medieval encontra-se bem preservada, tendo 800 metros de perímetro. Apenas falta um pequeno troço que dá para o Largo Engenheiro Duarte Pacheco. A muralha ora se esconde ora se descobre entre o casario velho ( por vezes monumental) e quintais, abrindo nas portas de São Tiago, São João, Porta de Marrocos, Porta de Marialva e Porta de Alcavar. Entre a porta de Alcavar e a antiga Porta da Vila (não existente), ergue-se formosa, a torre do relógio do século XIX.
Do castelo sobrevivem ainda duas poderosas Torres quadrangulares medievais.
A torre Norte (*) tem cerca de trinta metros de altura e porta de entrada alta, ao nível do primeiro andar, a que se acedia através de uma escada retráctil. Tem dois balcões com mata-cães e duas gárgulas góticas a exibirem o seu traseiro para...o antigo reino de Castela e Leão, um siglamento misterioso, e a mais bela janela manuelina da beira interior; de sacada, duplo vão, com colunelos de tradição quatrocentista, com arquivoltas naturalistas das ramagens e na sacada abre-se uma troneira cruzetada. Infelizmente o IPPAR abriu uma porta na base da torre que a aviltou.
O mesmo Instituto com a conivência da população local, deixou que construíssem um execrável edifício junto a medieva Torre Sul. Esta tem como pormenor exterior digno de nota, a datar a primitiva edificação (século XIV) um janela românica, com almofada arcaica de descarga. A torre que funcionou como prisão, tem no seu interior a esbelta escada helicoidal da acesso ao terraço de onde se desfruta um vasto cenário.
O panorama é agradável e vasto. O perfil da Serra da Marofa desenha-se com nitidez.
A serra quartzítica é uma verdadeira bússola na região. Montes sucessivos boleados, pobres, tristonhos, cheios de olivais e vinhedo.
Dignos ainda de registo são a cisterna do castelo e a enorme bombarda (símbolo das gentes de Pinhel). Imperdível!
Praça Central de Pinhel (*) (Largos Sacadura Cabral e Eng. Duarte Pacheco)
Esta praça esconde a sua real beleza aos incautos. Para quem não a conhece, imagine uma Praça com um monumento nacional: o pelourinho em Gaiola manuelino. Três imóveis de Interesse Público: a Igreja da Misericórdia com um belo portal manuelino, a Igreja de São Luís (em que se destaca a capela-mor maneirista, com artísticos azulejos de camélia, tecto em caixotões e duas belas pequenas tábuas de pintura quinhentista portuguesa que representam o Baptismo de Cristo e a Decapitação de São João) e os antigos Paços do Concelho, que acolhe o museu. Os belos solares brasonados da Casa dos Mena Falcões (onde se alojou a Rainha Catarina de Bragança) e a Casa Grande estão classificados como Valor Concelhio. Os restantes edifícios do(s) largo (s) também têm interesse patrimonial. No total seis edifícios classificados num espaço tão concentrado.
Todo o conjunto de planta irregular, se encontra desnivelado em três patamares, caoticamente ajardinados, o que não permite perscrutar a monumentalidade do largo.
Felizmente, que o conjunto constituído pela Casa Grande e pelos antigos Paços do concelho, está a ser transformado num grande espaço cultural (futura biblioteca e museu). Também existem projectos para converter a Casa dos Mena Falcões para Câmara Municipal.
Este ano foi apresentado um projecto de requalificação que tornaria a Praça em uma das mais belas do País. Em relação ao projecto, considero o estacionamento subterrâneo secundário e discordo da eliminação total das árvores. Aquilo que faria, seria trasladar algumas delas e criar um micro espaço verde, encostado ao muro a Norte, criando uma estância intimista, aromática e acolhedora dos refrigérios do estio.
Acrescentaria ainda uma estátua de um autor conceituado, da histórica Rainha Dona Catarina, que após trinta anos de reinado em Inglaterra (e que depois da morte do rei Dom Carlos II foi regente daquele poderoso império). Entrou na cidade no dia 31 de dezembro de 1682 e esteve alojada no Solar dos Mena Falcão.
Se todas estas intervenções fossem realizadas- e como diz o senhor António, barbeiro da praça; tornaria este espaço, semelhante as belas praças maiores espanholas (estou ainda a lembrar-me da requalificação da Praça Luís de Camões na Guarda (*)).






