27-04-08
Panorama do Cerro de São Miguel/Monte Figo (Olhão) (***)
Adoro nadar nas águas algarvias, mas fujo da balbúrdia e apenas me instalo a partir das 17 horas, se possível isolado numa ilha paradisíaca do Parque Natural da Ria Formosa- aí o paraíso é apenas meu (basta caminhar apenas uns 15 minutos, afastando-me da zona de maior densidade de veraneantes e ficamos sós - é um benfazejo estado de alma). Quando nado, por vezes destemidamente, para longe da linha de costa, tenho sempre aquele estupendo monte como guia tutelar. E até de noite, ao luar, quando nado algures distraído do cosmos, tenho-o todo em mim. Perdido resgatado renascido- ali está Lucífer na Terra!
A sua presença, esquecido pelos cegos turistas, tem sido um farol, para todos os povos que habitaram o Sotavento algarvio. Há uma beleza que nos é oferecida nesta região: a deste mar remansoso, a amenidade acariciadora da temperatura nocturna, e aquele estupendo monte calcário.
É notável a sua implantação; as tensões da orogenia Alpina, colocaram este enorme complexo anticlinal (complexo, pelo menos para mim que não o estudei) de litologia calcária com idade Jurássica Média numa situação privilegiada.
A estrada é apertadinha, mas alcatroada, passa por Moncarrapacho, bonita aldeia, com uma interessante igreja da Renascença (principalmente o seu portal). Depois de começar a subir, os seus horizontes vão-se alargando, ficamos extasiados por tanta amplitude visual, tanta luz, que ao nascer e ao pôr-do-sol, adquire tonalidades magníficas. Do alto dos seus 410 m de altitude colhe-se um dos mais deslumbrantes panoramas do Algarve (rivalizando com a Fóia na Serra de Monchique (**)), e arrisco dizer, de toda a Península Ibérica. Abrange metade do litoral algarvio, prosseguindo para Norte com o Barrocal sedimentar e as serranias xistentas do interior algarvio.
O Bruno pede-me para descrever o que vejo. Aqui está um resumo.
Viremo-nos para o mar,infinito com o cordão de localidades litorais: Albufeira, Quarteira, Vale do Lobo, Almansil, Faro (com o seu aeroporto, a sua Sé (*) de onde se avista um magnífico panorama) e Olhão; estas duas jazem a nossos pés. Ali as Ruínas Romanas de Milreu (***)-um dos mais belos complexos romanos portugueses, principalmente pelo seu ninfeu (calma Carlos não te desorganizes e não fales em Milreu), nem tão pouco, no quase contíguo Palácio de Estói (*), bem visível daqui - eles acenam que sim, eu desconfiou da sua argúcia visual; de certeza que descortinam a mais bela cidade Algarvia-Tavira (**), continuemos por Cacela, Manta Rota, Altura, Monte Gordo, passamos o Guadiana, eis a Ilha Cristina, e o Fernando ou o Filipe, já não sei qual deles, assevera que vê Huelva; não deixo de sorrir. A Inês não deixa de indicar, entusiasmada, a Fortaleza de Cacela Velha; era a sua actividade de menina que o papi lhe tinha destinado - e toma lá 1 euro! Atrai-me imenso visualizar com grande clareza o Parque Natural da Ria Formosa (***). São cerca de 60 km da Costa Algarvia entre as Penínsulas de Ancão (em Vale do Lobo) e da Manta Rota, com 18000 ha de ilhas, sapais, praias e lagunas. Quantas Ilhas? Dizem-me três, quatro- vejamos: a Deserta (***), Culatra-Farol (**), Armona-Fuseta (**), Tavira (**) e por fim, a de Cabanas (*). São 5- E tudo isto jaz serenamente a nossos pés.
Mas antes de nos voltarmos para o Norte (sim porque aqui o domínio visual é de 360º), pergunto se sabem quem foi Avieno, se conhecem a obra da “Ora Marítima” ou Zéfiro. As respostas são vagas e difusas.
Começo então a descrever o que sei. Prometo que não serei aborrecido, pois penso que não o fui para eles!
Este espaço constitui um extraordinário espaço de culto pré-cristão. Desde que o homem navega e devido à sua extraordinária localização, foi considerado um Santuário marítimo de altitude, farol e oráculo meteorológico.
Aqui passaram os navegadores fenícios, o espaço poderia ser associado a Baal Saphon, talvez ainda antes do século VIII a.C. A exegese grega posterior desta dedicação, talvez no século VI a.C., consagra-o ao vento Zéfiro divinizado.
O seu uso como santuário durante a Antiguidade Romana está comprovado pela existência de uma estrada romana, que subia até aqui, que provavelmente ligaria à importante cidade romana de Balsa (localizada ali, perto da Torre de Aires a 11 km), revelando tratar-se de um lugar de culto desta cidade e a um Deus ainda hoje desconhecido.
A sua localização foi indicador precioso dos navegantes, provavelmente estaria ali facho de sinalização nocturna. É esta memória ou tradição de farol, ainda hoje mantida entre os pescadores, que pode melhor justificar a sua dedicação posterior a São Miguel o feroz vencedor de Lúcifer- o que traz luz.(continua).
30-09-07
Locais Notáveis de Olhão
Panorama do outeiro de São Miguel/Monte Figo/Monte Zéfiro (***)
Centro Educacional Ambiental da Quinta de Marim (Sede do Parque Natural da Ria Formosa) (**)
Ilha da Fuseta - Armona (***)
Panorama da torre sineira da Igreja matriz de Olhão (*)
Outros Locais com Interesse turístico
Igreja Matriz de Moncarrapacho
Retábulo maneirista na igreja da Misericórdia de Moncarrapacho
Museu Paroquial de Moncarrapcho com o presépio napolitano
Arco Cruzeiro da igreja matriz de Quelfes
Antigo mercado municipal de Olhão






