03-12-06
Concelhos de Meda e Penedono
O que eu elogio:
- O caminho pedestre certificado da volta do Sirico (Penedono)
- O estudo e a valorização das antas do Concelho de Penedono, nomeadamente a da Capela da Senhora do Monte (**).
- A recuperação de Marialva ao abrigo do programa das Aldeias Históricas de Portugal da Região Centro.
- A construção do novo balneário das Termas de Longroiva (*).
- As escavações arqueológicas da aldeia em romana de Vale de Mouro (Coriscada) onde foi descoberto um painel de mosaicos policromado com os deuses Baco e Mercúrio.
O que eu recomendo:
- Explorar a Marialva romana na área da Devesa (Civitas Aravor), estudando e requalificando o templo ao Deus Júpiter a barragem (Naumaquia), bem como outros pormenores urbanísticos daquela cidade romana.
- Continuar a campanha arqueológica e classificar a aldeia romana de Vale de Mouro (Coriscada) para posteriormente ser requalificada e posta ao serviço do turismo.
- Estudar e requalificar as bonitas Termas da Areola (ribeira de Teja) que hoje estão abandonadas.
- Estudar e qualificar o castro de São Jorge (Ranhados).
- Aumentar a área e a qualidade da área vinhateira da Mêda nas freguesias de Longroiva e Fontelonga.
- Requalificar a mina de ouro da Granja (Penedono).
- Divulgar, usando todos os meios, os locais notáveis dos concelhos de Meda e Penedono.
- Divulgar os produtos locais com a abertura de pequenas lojas nos grandes centros urbanos portugueses.
- Requalificar e classificar o Casa da Prova (VC).
- Classificar a Devessa de Marialva.
-Classificar como valores concelhios e restaurar alguns imóveis do centro Histórico da Meda (Os dois solares, a fonte manuelina, a área em redor do castelo e a igreja Matriz).
- Estudar e requalificar o rico conjunto patrimonial de Ranhados. Classificar o conjunto como IIP.
- Estudar a área, arqueológica e esotérica, envolvente ao menir de Vale Maria Pais e a necrópole associada. Classificar como Monumento Nacional este conjunto.
29-05-06
Castelo de Penedono-I (MN) (**)
Este é uma obra singular na nossa arquitectura militar. Castelo-torre-moradia, encavalita-se em penedia granítica, é pequeno, mas invulgarmente alto, elegante e desafiador. É bem logrado o lançamento das torres, é feliz o seu jogo de formas e volumes que lhe dão escala.
A imagem que vemos é a de um castelo apalaçado de profunda reforma quinhentista, no entanto existe documentação sobre o castelo a partir de 960.
A planta do castelo aproxima-se de um triângulo. São de realçar os dois finos torreões com ameias ressaltadas e que ladeiam a porta de entrada, num elegante jogo arquitectural. Também esbeltos são os outros dois torreões.
“De modestas dimensões, o espaço interior mostra sinais de pavimentos, amplas janelas quadradas com bancos laterais de cantaria no desfrute de panoramas belos, num ângulo a cisterna elevada.
Até onde permite a penedia, uma ligeira barbacã parece dar maior altura ao castelo e ao redor serpenteia o estreito caminho de ronda.”1
Se passear em Penedono, localidade com forte carácter beirão, por todos as ruazinhas e praças tem o castelo com fundo, memória de gloriosas resistências, protecção sem ameaça, obra de arte invulgar.
1-Os Mais Belos Castelos de Portugal, com texto de Júlio Gil, editado em 1986 pela Editorial Verbo.
14-05-06
Menir do Vale Maria Pais e respectivo ambiente esotérico (Antas-Penedono) (*)
Para além da Anta da Nossa Senhora do Monte (MN), Penedono, tem um outro local de grande evocação esotérica - o menir do Vale Maria Pais, rodeado de sepulturas antropormóficas e prováveis pias.
O megalíto identificado em 1991, encontrava-se fragmentado em duas partes; é um monumento fálico, bem afeiçoado com covinhas “mágicas” e decorado com uma representação solar radiada. Possui três metros de altura. A disposição dos motivos decorativos faz supor que originalmente medisse entre 5 a 6 metros. Este menir é um dos mais notáveis do nosso território e, a norte do rio Tejo, não encontra rival. É uma pedra mágica na paisagem.
Os menires foram construídos e utilizados pela humanidade entre o Neolítico e Calcolítico (Idade do Cobre), na chamada Era Megalítica e tinham uma função religiosa (votiva) ainda hoje inaudível.
Quase de certeza que seriam símbolos solares, atributos masculinos (existem menires que são falos perfeitos de pedra em ejaculação) e expostos à vida e ao ar; em contraponto ao ambiente reprodutor feminino recolhido, materializado pelas antas, que eram verdadeiras casas dos mortos ritualizadas. Sempre que encontro um menir e uma anta, associo-as à sexualidade terrena e cósmica.
Provavelmente estas “pedras mágicas” seriam hipóstases do sagrado, servindo de elo de ligação entre a terra e o céu, a vida e a morte, a claridade e a escuridão.
Mas o post não termina aqui, porque neste ambiente também temos penedos com dezenas de sepulturas antropormóficas medievais, algumas delas parecendo verdadeiras tinas semelhantes aos do santuário de Panóias. Existe também um monólito (altar?) com degraus mal definidos.
O município de Penedono (que tem feito um bom trabalho na análise e divulgação do seu património) deveria aqui efectuar um estudo exaustivo, que não seria muito oneroso e que poderia oferecer resultados interessantes. A vegetação esconde mais do que aquilo que deixa ver; não me posso esquecer que alguma desta vegetação são carvalhos...a árvore magica dos druidas celtas.
A bruma cerebral e a ignorância impedem-me de clarificar o pensamento; apenas sei que aqui sinto mais do que racionalizo (e logo eu, que tenho alma de cientista descarnado), no seio da magia e do sagrado da Lusitânia notável.
02-05-06
Dólmen da Capela da Senhora do Monte (Penela da Beira-Penedono) (MN) (*)
O dia está frio, cinzento e chuvisca. A desconsolação domina o ermo. Estou pela segunda vez na necrópole da Nossa Senhora do Monte, local inóspito, retirado da humanidade corrente, por já pertencer às Terras do Demo, mas que é também um espaço singular na Lusitânia.
O sepulcrário é composto por seis monumentos de elevado valor científico; mas o que traz este viajante, é mais o valor simbólico e estético do Dólmen da Capela da Nossa Senhora do Monte... e também um momento íntimo.
O Dólmen possui uma câmara poligonal e um longo corredor de acesso, cuja altura é decrescente no sentido Este-Oeste. A colocação de um pilar granítico, a meio do corredor e junto à entrada da câmara, bem como as reduzidas dimensões dos esteio da entrada do corredor, demonstram que houve a intenção de tornar difícil a entrada neste monumento. Talvez na câmara apenas pudessem estar alguns eleitos ou íntimos dos falecidos, observando o sol levante, à espera do seu ressurgimento.
De grande importância para o estudo do megalitismo em Portugal, aqui foi exumado um depósito votivo de carácter colectivo, constituído por um recipiente cerâmico e uma caixa como provável receptáculo de oferendas. Nos rituais desenrolados no corredor foram acesas fogueiras cujos restos carbonizados, permitem datar o último momento de utilização desde sepulcro entre os 3260 a.C. e 2940 a.C. O sepulcro terá sido edificado, utilizado e selado num intervalo de tempo de 300 anos.
Este sepulcro foi alvo de uma violação na Idade do Bronze. A eficácia das estruturas colocadas no corredor impediu o acesso dos violadores através do átrio. Estes preferiam então retirar parte do contraforte do lado Norte do corredor, utilizando o espaço como sepultura e onde depositaram cerca de quatro dezenas de recipientes cerâmicos.
Muitos séculos depois este espaço continuava a ser sagrado, com a edificação de uma capela de idade indeterminada (século XV?) a sublinhar o sentido místico e religioso que o monumento já possuía. É um dos casos raros de dólmens cristianizados em Portugal e sem dúvida o mais surpreendente.
Não me posso esquecer de dizer que: a câmara da anta é a capela-mor do templo, que no piso da igreja encontro uma estranha pia rectangular, que descubro dois pentagramas nas pedras derruídas, que a pouco mais de 20 metros de distância descortino outra anta do raro tipo vestibular...
Nota Pessoal- Da primeira vez e única vez que estive com ela numa anta, nos Fiais da Telha (Carregal do Sal), achou muita mercê a tudo aquilo, e desapareceu, com algum susto nosso; de repente surgiu, investida entre os esteios da câmara, a dizer que tinha regressado da morte. Da primeira vez que vim ao Dólmen da Senhora do Monte, estava tudo muito recente e chorei como nunca o fiz na vida, à procura dos seus sinais; nestas pedras nada encontrei, mas sou muito devido à sua benfeitoria. Foi a minha última tentativa de aproximação a uma bruma divina. A capela da Nossa Senhora do Monte foi abandonada ao culto em 1914.
Bibliografia -Carvalho, M.S. Pedro e Gomes F.C.L. Luís (1995)- A Necrópole Megalítica da Nossa Senhora do Monte (Penedono, Viseu), Revista Estudos pré-históricos 3. Centro de Estudos pré-históricos da beira Alta, pp. 243-248
12-03-06
Conjunto Patrimonial e Hidrogeológico de Longroiva (Meda) (*)
Na visita a Longroiva, tive como cicerone o idoso o Pároco Amante, de muito saber e paciência para tão questionador visitante. Para ele desde já o meu bem hajam.
A povoação teve ocupação remota, como indicia a descoberta, a alguns quilómetros da localidade, de uma Estátua-Menir, onde está representada uma inscultura de um guerreiro da idade do bronze. Por toda a banda abundam artefactos cerâmicos e vestígios de fundição de ferro e estanho. Do período romano também foram encontrados diversos objectos.
O meu guia levou-me à capela de origem templária da Senhora do Torrão para mirar o seu altar; é uma ara romana que narra o seguinte. “Quinto Júlio Montagno Gémina Félix, cumpriu de boa vontade o seu voto a Bande Longróbico”. Quinto Júlio, segundo o cura, tornou-se cidadão romano após ter cumprido serviço militar em Lion e agradecia a uma divindade indígena. O leitor prevenido facilmente percebe a origem ao topónimo da localidade. Seria Longróbico um parente de Bormanico (deus indígena das fontes termais)?
Quem deambular de noite no balneário antigo, e se tiver sensibilidade, ou pelo menos imaginação, poderá sentir passos de gente ou mesmo ver a estátua viva de uma ninfa belíssima que protege esta nascente milagrosa; eu confesso que nada vi ou senti, mas isto acontece as almas infortunadas destituídas de qualquer sentimento religioso. Alguns idosos locais ainda tem receio de circular perto da fonte termal a partir da meia noite. Certo é que os banhos sempre estiveram ligados ao culto da senhora do Torrão, padroeira da freguesia e, nesse sentido, o povo diz que cada banho tomado no dia 8 de Setembro, dia dedicado à Santa, equivale a 8.
Longroiva seria provavelmente um castellum romano, aproveitando um antigo castro. Poderia esta fortificação defender os filões de sulfuretos existentes ou mesmo as notáveis nascentes minero- medicinais do local ? Ficam as dúvidas que não tentarei nem poderei desvendar.
Longroiva foi também pertença da Ordem dos Templários. Ao visionar o pequeno castelo, com a torre de Menagem, evoco estes cavaleiros, de forte acervo esotérico, e vem-me à memória a atroz sexta feira 13 de Outubro de 1307 dinamizada pelo Rei de França, Filipe IV o Belo e pelo Papa Clemente V; o símbolo de Baphomet; o pentáculo- como símbolo de espiritualidade humana; as maldições concretizadas do Grão Mestre Jacques Molay; a demanda do Santo Graal; a origem da maçonaria; os descobrimentos Portugueses; a majestosa Charola dos templários no Convento de Cristo (*****) em Tomar...
O castelo foi fundado em 1174, pelo Grão Mestre Gualdim Pais. Aos Templários se associa também o mais antigo hurdício de Portugal, precisamente na torre de menagem de Longroiva. Tenho de confessar que quando observo um signo ou local relacionado com os cavaleiros do Templo, sinto que estou no limiar invisível de uma indecifrável transcendência.
Longroiva está ainda pessoalmente associado às minhas primeiras campanhas de campo. As termas estão requalificadas, são já bem conhecidas, e é com algum orgulho que vejo levantar o novo balneário termal que estará pronto em 2008.
As águas termais, de caudal abundante (30 mil litros/hora), sulfúreas e fluoretadas brotam a 44º graus e são especialmente notáveis, pelo seu equilibrado quimismo e pela riqueza em flúor; sendo recomendadas para tratamentos do foro respiratório, dermatoses e musculo-esquléticos: entre as diversas maleitas qye podem ser tratadas destacam-se a rino-sinusute, a psoríase e as lombalgias. Actualmente as termas tem uma influência média de 40-50 pessoas por dia. No futuro, com as novas instalações, aquele número poderá subir para 400 pessoas.
Conta-se também que a Rainha Santa Isabel ter-se-á banhado nas águas sulfurosas de Longroiva, aquando da sua vinda de Aragão para casar, em Trancoso, com D. Dinis.
Continuando a falar de águas nobres, visiono do outeiro uma brecha geológica que aloja uma das águas mais interessantes que até agora conheci. É uma autentica liga metálica “líquida”, atentando aos seus teores elevadíssimos em chumbo, magnésio, ferro, molibdénio...; obviamente que a água mineraliza ao atravessar filões de sulfuretos. As águas são as mais ácidas de Portugal, perfeitamente intragáveis e perigosas para as incautas bestas. O povo chama esta curiosidade científica “as aguas purgativas”. Na idade média eram diluídas umas gotinhas num jarro de água para cura das enfermidades estomacais e anemias!? Depois de alguns desarranjos as águas foram seladas, mas um intuitivo hidrogeólogo tudo (re)descobre!
Também visiono a Falha da Veiga de Longroiva, de grande fertilidade, didáctico grabben, com sentido N/S e que é a continuação natural da Falha da Vilariça. Esta megafracura estabelece o contacto entre a Meseta Ibérica e as Montanhas Ocidentais Portuguesas. Todas as segundas feiras, ás 8h30 da manhã a cumprimento, na Ribeira de Massueime em Avelãs de Ambom (Guarda). O leitor também deve conhecer o vale do Zêzere do U na Serra da Estrela (***) em Manteigas, pois informo-o desde já que é aquela fractura.
No cabeço contíguo, a alguma distância, vejo a silhueta da forca, suficientemente afastada para não infeccionar a povoação, mas visível a todos os olhares para servir de aviso aos potenciais prevaricadores. Eu que sou um viajante quase banal, questiono-me no número de desgraçados que ali pereceram e até os crimes que cometeram!
Longroiva possui ainda outro património edificado interessante: a Igreja Matriz, as sepulturas antropomórficas, o solar dos Marqueses de Roriz ou a Fonte Manuelina da Concelha.
À primeira vista, Longroiva pouco revela, mas um olhar arguto e desenvolto entende que todo aquele conjunto é muito estimável.
28-02-06
Aldeia Histórica de Marialva-Meda (***)- II
Na porta de Santa Maria, de amplos horizontes medito na história obscura da cidade romana de Civitas Aravorum que jaz a seus pés sob a Devessa banal.
Este penhascoso monte era conhecido como Aravor (topónimo de origem celta que significa alta colina). Por causa da Pax Romana a população desceu a encosta e fundou a mais importante cidade romana desta região, com estatuto de Capital - a lendária Civitas Aravorum.
Nas imediações da Devessa podemos encontrar a barragem (Naumaquia) que abastecia a cidade e que merecia requalificação.
Todos os locais conhecem a lenda da Maria Alva e apontam para um edifício, de onde a infeliz se terá arremessado. Observado atentamente verifica-se que terá sido uma atalaia medieval e antes disso uma construção romana. Tratam-se dos vestígios de um templo dedicado a Júpiter e onde se encontrou uma lápide dedicada aquela divindade. Na Devessa foi ainda descoberto uma inscrição consagrada a Adriano (o mesmo do romance notável de Marguerite Yourcenar). Por toda a planície abundam vestígios romanos, inclusive uma pequena ponte romana. Acredito que a mítica Civitas Aravorum ainda tem muito para desvendar.
Haja dinheiro e aprazimento político, pois técnicos com vontade de a revelar não faltam.
Depois da invasão dos godos nada se sabe da Civitas.
Sabemos que Dom Afonso Henriques muito fez pelo seu repovoamento e restauro concedendo-lhe foral.
Dom Dinis fez importantes reformas no seu Castelo por ser muito importante na defesa da fronteira do rio Côa. O Castelo dionisiano, que aproveitou boa parte de construções anteriores, mantém ainda hoje a sua grandeza apesar das mutilações e abandono.
Dom Afonso V faria Marialva cabeça de condado e mais tarde D. Afonso VI faria desta terra um marquesado, que deu o primeiro título de Marquês de Marialva ao Conde Cantanhede, António Luís de Meneses, brilhante vencedor nas linhas de Elvas, Valência de Alcântara e Montes Claros e que possibilitaria a nossa independência por mais alguns séculos.
Infelizmente os descendentes do primeiro Marquês, tornaram a nobreza portuguesa malnascida. Gente sem escrúpulos, em que o seu único critério era a da autosatisfação e da ignomínia. Irrita-me pessoalmente o “marialvismo”!
A Vila pululou de vida até meados do século XVIII, mas a brutal condenação dos Távoras em 1759 tornou-a um fantasma de pedra. Era então alcaide do Castelo o Marquês de Távora (ainda hoje existem dois solares dos Távoras na Região: em Souropires (*) e em Ranhados).
A população transferiu-se para o arrabalde e para a planície, mais cómoda e menos comprometida com a recordação dos Távoras.
Gosto tanto deste sítio que procuro uma chave de ouro para concluir esta entrada; poderia evocar a tranquilidade da sua paisagem, a altivez do silêncio profundo, as ruínas feitas de escombros que imprimem uma natural poesia e beleza ao local e até o passeio solitário na cidadela fantasma onde se sente uma enorme paz interior.
Por fim, decido que a conclusão não será minha, mas do José Saramago.
“Enfim, partiu. Vai andando pela planície, o Sol está-lhe à altura dos olhos, alguma coisa o viajante cresceu depois de ir ao castelo de Marialva. Ou é o castelo de Marialva que vai com o viajante e o torna maior. Tudo pode acontecer em viagens como esta”.
Meda-Aldeia Histórica de Marialva -I (***)
Sempre que me desloquei a Trás-os-Montes, em trabalho de campo, olhei para aquela elevação que me chamava com insistência e um dia fui lá em turismo com a minha consorte e fiquei deslumbrado. Sensação semelhante só teria mais tarde na belíssima cidade histórica de Trujillo (****) na vizinha Extremadura espanhola.
Marialva divide-se em três: a Devessa, que é a nova Aldeia e que parece nada ter de especial (mas como vos enganais caro leitor), o Arrabalde e a Cidadela. Estes dois últimos conjuntos constituem a Aldeia Histórica de Marialva (é uma das doze Aldeias Históricas da região centro de Portugal) e que foi recentemente restaurada ao abrigo daquele programa.
O Arrabalde também conhecido como Vila, é um conjunto habitacional extramuros e que apresenta uma rara rua da Corredora (era aqui que aconteciam os jogos medievais que envolviam correrias equestres) e encontra-se milagrosamente preservada desde o século XVI; tendo em ambos os lados, casas quinhentistas com balcão, o Solar dos Marqueses de Marialva, além de outros pormenores dignos de nota.
Ainda nesta rua pode encontrar a Igreja de São Pedro, de origem românica que apresenta um púlpito exterior, um adro lateral com sepulturas antropomórficas e que tem no interior um bonito altar em talha de madeira. Mas aqui, o que mais sobressai à vista, são as pinturas murais emaranhadas, com vários estilos e épocas e de boa qualidade. Destaco o São Sebastião emoldurado por cruzes suásticas e ainda a sereia desnudada e voluptuosa que desviava a atenção dos devotos para outros “paraísos”. Obviamente que acabaste escondida, mas ainda bem que foste redescoberta e agora entusiasmas de novo os homens com sãos instintos!
No lado oposto da igreja, a rua termina no Largo do Cruzeiro, com a casa do Judeu (agora posto de turismo), o cruzeiro e a cisterna quinhentista. E agora leitor, prepara-te para entrar na mais espantosa aldeia fantasma de Portugal.
A cidadela tem ruínas evocativas com muralha integralmente preservada, com quatro portas medievais e três Torres e ainda o castelejo com a Torre de Menagem. Destaco ainda, a maravilhosa laçaria (*) da calçada da aldeia medieval, a esbelta e misteriosa torre sineira de uma antiga igreja dos Templários e duas igrejas: a matriz, de estilo Manuelino e dedicado a Santiago e a Capela da Misericórdia de estilo maneirista com elegante fachada com púlpito exterior. Para concluir esta entrada, voltemos de novo a José Saramago na “Viagem a Portugal”.
“Neste largo onde está a cisterna, onde o pelourinho está, dividido ente a luz e a sombra, adeja um silêncio sussurrante. Há restos de casas, a alcáçova, o tribunal, a cadeia, outros que não se distinguem já, e é este conjunto de edificações em ruínas, o elo misterioso que as liga, a memória presente dos que viveram aqui, que subitamente comove o viajante, lhe aperta a garganta e faz subir lágrimas aos olhos. Não se diga daí que o viajante é um romântico, diga-se antes que é homem de muita sorte: ter vindo neste dia, nesta hora, sozinho entrar e sozinho estar, e ser dotado de sensibilidade capaz de captar e reter esta presença do passado, da história dos homens e das mulheres que neste castelo viveram, amaram, trabalharam, sofreram, morreram”.
19-02-06
Locais notáveis de Meda e Penedono
Aldeia histórica de Marialva (MN) (***)
Castelo de Penedono (MN) (**)
Conjunto patrimonial e hidrogeológico de Longroiva (MN) (*)
Dólmen da Capela da Nossa Senhora do Monte (MN) (**)
Menir com inscrição solar de Vale Maria Pais (*)
Outros locais com algum interesse turístico
Vestígios romanos da civitas de Aravon (Marialva), que inclui a naumaquia
Centro Histórico da Meda
Conjunto monumental de Ranhados
Barragem de Ranhados
Termas da Areola
Minas de Ouro da Granja
Soutos em Penedono com destaque para o Castanheiro do Guerra
Necrópole de Lameira de Cima
Casa Grande da Prova
Panorama na Estrada Nacional 324 entre Fonte Longa e Poço do Canto






