03-07-07
Espaço sagrado de São Pedro de Vir-a-Corça-Monsanto (IIP) (Idanha-à-Nova)-(2ªParte)- (**)
O topónimo do local está relacionado com a lenda da criança salva pelo demónio por Santo Amador, que ali se refugiava do mundo, e que a amamentou com leite de corça quatro vezes ao dia.
Na tradição popular, São Pedro é transformado em eremita. Assim se compreende que uma das mais lindas ermidas, numa das mais lindas paisagens, seja dedicada a São Pedro. Será São Pedro o Santo Amador?
A corça é consagrada a Diana (Artémis grega), a rainha dos bosques, que percorre todos os recantos dos prados, montes e vales. Diana era cultuada em templos rústicos nas florestas, como este, onde os caçadores lhe ofereciam sacrifícios.
Também associo Flidias ao local, a Deusa celta da Sensualidade e Senhora das Florestas- portanto sua protectora. Um dos símbolos dos seus é a...corça.
Além de sua graça e beleza, a corça simboliza a virgindade e pureza. Flidias tinha também como símbolos, a erva, as árvores e as nascentes, possuía ainda uma vaca (?) mágica cujo leite era capaz de alimentar diariamente centenas de guerreiros durante as guerras celtas.
Vem-me ainda à memória Sertório, que se fazia acompanhar por uma corça branca que lhe segredava instruções militares. Se trocarmos as palavras temos: Corça vira São Pedro, ou seja o culto da Corça vira o culto de São Pedro- mera divagação de Paulo Loução?
Desculpe-me o leitor mais erudito na minha tentativa vã de estabelecer nexos onde eles provavelmente não existem, mas é para aqui que dá a minha imaginação e quando escrevo não posso deixar de ser eu.
Se do culto das pedras (loca sacra) já falamos, resta falar do culto da água. Existia no local uma nascente de água termal, a que a tradição atribui propriedades milagrosas, desapareceram (?) com o terramoto de 1755, o que nos leva a pensar em importante fractura geológica activa! Mas paremos de especular que da geologia de Monsanto pouco sei; certo, certo é que por aqui também ocorreu o culto da água medicinal. Tenho que tentar vislumbrar nas rochas (pedras?) resquícios desta mítica e desaparecida fonte e, se tal for possível, indagar as suas características.
Espaço estranho, é aquela clareira, rodeada por fraguedo granítico, onde se entra por átrio monumental, no centro restos de fogueira, cruzes, ramos de maias entrelaçadas, lembro que São Pedro de Vir-a-Corça é hoje visitado por “druidas” modernos, que vem de todo o mundo, á procura da litoratria e da hidrolatria (ignorada), em comunhão com o recém (!) espaço cristão. Sentado no solo da clareira à espera que por detrás de um penhasco apareça Diana, também me contentava com Flídias.
Este espaço, com os sons da natureza, o verde, Diana, Flídias, o gigantesco caos de blocos, a capela românica, as estranhas tinas, tafonis, e o sombreado do maravilhosos chaparral, convida-nos à introspecção e para os crentes no além, em sentido lato, numa experiência religiosa única.
Termino com a frase de Maria Adelaide Neto Salvado.
“ Em São Pedro de Vir-a-Corça perdura, dum modo diríamos palpável, o espírito do lugar, o geniu loci, que conferiu a este lugar a particularidade de Santuário, pois aí se respira hoje, muito densamente, esse sentimento do Sagrado.”
PEREIRA, Paulo – Enigmas Lugares Mágicos de Portugal. Templários e Templarismo. Vol V III , Círculo de Leitores, 2005.
01-07-07
Espaço sagrado de São Pedro de Vir-a-Corça-Monsanto (IIP) (Idanha-à-Nova)-(1ª Parte)-(**)
No sopé da encosta escarpada sobre a qual se ergue a Aldeia Histórica de Monsanto (***) encontra-se a Ermida de São Pedro de Vir/Ver-a-Corça, completamente isolada num bosque de sobreiros e rodeada por colossos blocos graníticos dispostos caoticamente -terá aqui o caos uma razão para existir? Fico a aguardar a sua resposta!
Poderíamos incluir o local como fazendo parte do conjunto histórico, “mistérico” e de beleza impar que é o Mons Sanctus - uma das mais belas aldeias europeias. Mas a aldeia está lá em cima, erguida no topo de uma imponente inselberge granítico com 758 metros de altitude, que declina em escarpa abrupta em cerca de 300 m para o lugar que agora visitamos; e eu estou cá em baixo, a olhar embevecido para esta impressionante fortaleza medieval, que daqui, parece uma construção mágica associada aos gigantes dos romances de cavalaria.
O lugar é esplêndido, marcado pela arquitectura rude e singela, mas inesperada, daquela capela românica, pelo bosque sublime e também pelas enormes fragas boleadas que ampliam a monumentalidade do lugar e a fusão entre a natureza e o sagrado.
A igreja, que se constitui desde cedo como local de romaria e de feira, pelo menos desde os finais do século XIII (Dom Dinis concede carta de feira em 1308, consagrando provavelmente um uso existente), foi fundada entre os séculos XII e XIII de veneração associada ao São Pedro. Em 1613 constituir-se-á mesmo uma irmandade de São Pedro. Possui planta rectangular, com três naves definidas por quatro colunas jónicas, duas de cada lado e com abside e absidíolos rectangulares, denunciados volumetricamente pelo exterior.
Na fachada uma rosácea emoldurada por motivos geométricos com quadrifólio central e 8 arcos trilobados radiais. A norte, encostada a capela, existem sepulturas medievais cavadas na rocha.
A torre sineira defronte, em arco de volta perfeita, sobrepuja-se a grande bola granítica. Ao lado, numa reentrância erosiva, aponta-se o local de uma gruta eremítica. Por cima grandes tanques, que poderão ser lagaretas ou tanques de ablução a deuses pré-históricos.
Alguns destes pios espalham-se pelos afloramentos, alguns isolados outros conjugados, em depressões circulares ou poligonais decimétricas de origem antropormófica, alguns com cruzes gravadas (a posterior sacralização objecto pagão?); outros são claros tafonis, que poderão ter tido utilização.
Podermos estar em presença de algo semelhante ao santuário de Panóias (***)? Ou serão simples tanques (reu)tilizados de apoio à feria medieval?
Quantidades imensas de cerâmica comum, prendem-se aos nossos pés arrastados, prováveis resto de utensílios usados para transporte dos produtos dos feirantes.
Em muitos casos, este geólogo, não destrinça aquilo que foi feito por mão humana daquilo que foi operado pelo alargamento natural de fracturas pela água, o “nosso” grande escultor!
Apetece-me brincar aos ermitas, esconder-me nestes estreitos antros naturais (alguns afeiçoados) como o nosso anacoreta Amador, e ficar aqui para sempre afastados da espuma dos dias de hoje (Continua).
27-04-07
Conjunto patrimonial e paisagístico da Cidadela de Penamacor (*)
Há suficientes memórias que podem levar o visitante que atravessa a zona raiana a deter-se em Penamacor. No cimo da vila, onde Gualdim Pais, mítico mestre templário, mandou levantar o castelo, depois de conquistada a povoação aos mouros por D. Sancho I, deve ter habitado gente sempre espreitando inimigos possíveis e imaginários. De certeza que defendeu a incerta fronteira portuguesa contra castelhanos e mouros e que desempenhava papel primordial no sistema defensivo da beira Baixa, tentadora linha penetradora, mas desencorajante pelas possantes fortalezas que a ocupavam os mais apropriados cumes. Porém Penamacor já era habitada anteriormente como provam os machados de pedra polida aqui descobertos e que lembram que o homem habita o morro do castelo desde o Neolítico. Durante a Idade do Ferro e do Bronze foi fortificado como castro, e as legiões romanas deram-lhe a forma de atalaia. Daqueles tempos provém o espólio da secção de arqueologia do Museu Municipal de Penamacor, composto por machados do Neolítico, mós proto-históricas e lápides epígrafadas.
No tempo de rei Venturoso, reforçam-se defesas, e o estilo manuelino é visível na Capela da Misericórdia com o seu belíssimo portal e no pelourinho (1565); no interior da desmantelada cidadela, de onde a onde, podem ver-se sinais decorativos neste estilo, nos portais e janelas casario, por vezes com sinais de cristãos convertidos nos seus umbrais. Mas deste tempo o que mais fica retido é o símbolo de Penamacor- a sua monumental bela Torre de Vigia com o seus 20 metros de altura.
No século XVII, para defesa da pátria restaurada, constroem-se 6 baluartes e três meio-baluartes, segundo as exigências da pirobalística. Pode-se observar-se um junto da antiga Casa da Câmara; sob este edifício (1568) abre-se uma bem conservada porta gótica da muralha. Depois de entrar repare no seu balcão, sobre a porta de lintel recto encimado pelas armas nacionais ladeadas de esferas armilares -é agora o bem apetrechado posto de turismo.
Destaco ainda na cidadela ovalada, a robusta e bem restaurada Torre do Relógio, que parece ter sido torre de menagem, trechos de muralhas, ruínas de baluartes, a igreja de São Pedro, de fundação românica, os alicerces da Igreja de Santa Maria e a cisterna do Castelo.
Bela é também a paisagem, principalmente em dias límpidos, de onde se avista largo horizonte, com destaque para as planálticas regiões castelhanas, a Serra da Malcata, a serrilhada crista quartzítica de Penha Garcia (*), os montes ilhas, onde num deles se acavalita a mais bela aldeia de Portugal- falamos é claro, de Monsanto(****); pressentem-se ainda as invisíveis searas espraiadas nas campinas de Idanha.
E agora uma história que daria um reflexivo romance e que aconteceu em Penamacor E que por ter sido o primeiro-poderá ser umas das origens primaciais do sebastianismo.
“Em 1584 aqui apareceu o aventureiro conhecido pelo rei de Penamacor, que por ingenuidade do povo e ambição de dois cúmplices que se intitulavam, um bispo da Guarda, outro Cristóvão Távora, se fez passar por Dom Sebastião. Conseguindo atrair as populações simples desta região, à sua figura misteriosa, falando árabe e contando histórias da batalha em que se perdera o rei, o falso Dom Sebastião andava a cavalo seguido de grandes cortejos de crentes e curiosos. A princípio, timidamente, depois com a audácia de uma convicção, o rei de Penamacor aceitava as honras e títulos de majestade, tendo chegado a construir um conselho de estado na sua corte. Chegando até Lisboa o rumor da sua aclamação, aí foi levado o embusteiro. Os dois ministros foram condenados ao cadafalso e o rei mandado para as galés. Encontrando-se como remador na Invencível Armada, liberta-se dos ferros, salta na costa de França e nunca mais foi visto nem achado o célebre aventureiro1. Os seus companheiros de aventura foram condenados à morte.
Não poderíamos terminar este texto, sem referir que entre os muros desta cidadela cresceu o cristão-novo Ribeiro Sanches (1699-1783), ilustre em toda a Europa culta, foi um dos inspiradores do Marques de Pombal nas reformas de ensino; filósofo e médico na corte czarina foi um dos percursores do espírito iluminista europeu que ainda hoje e bem nos alumia.
Fonte de Informação: Lugares a Visitar em Portugal- Selecção do Reader´s Digest, 2001; Guia de Portugal- Beira II- Beira Baixa e Beira Alta 1. Os Mais Belos Castelos de Portugal de Júlio Gil e Augusto Cabrita.
13-04-07
Locais Notáveis de Idanha-a-Nova e Penamacor
Aldeia Histórica de Monsanto (MN) (****)
Aldeia Histórica de Idanha-a-Velha (MN) (**)
Crista quartzítica com fósseis icnológico em Penha Garcia (*)
Águas minero-medicinais de Monfortinho (*)
Conjunto patrimonial e paisagístico do alto de Penamacor (IIP) (*)
Reserva Natural da Serra da Malcata (*) (abrange o Concelho de Sabugal)
Outros Locais com Interesse turístico
Parque Natural do Tejo Internacional (Ver como local notável em Vila Velha de Ródão)
Vale fértil da Ribeira da Meimoa
Ponte Romana da Meimoa
Canhões fluviais do rio Erges
Senhora do Almortão
Museu Municipal de Penamacor
Igreja e Convento de Santo António em Penamacor
Termas da Fonte Santa em Águas
Panorama da estrada para Meimão








