Portugal Notável

Valor Universal (*****) Muito Notável (***) Notável (*)

11-04-07

FEC

7 Medidas para melhorar o afluxo turístico em Freixo de Espada-à-Cinta

1- Reforçar acções promocionais das belezas locais, em feiras, eventos da especialidade e em grandes espaços comerciais das grandes cidades de Península Ibérica. Apostar ainda fortemente no mercado espanhol.

2- Salvaguardar e divulgar as pinturas rupestres (Fonte Santa, Cavalo de Mazouco e da Calçada de Alpajares).

3- Melhorar a notoriedade do passeio turístico fluvial do Douro entre as Barragens de Saucelhe e Aldeadavilla (é um dos mais extraordinários percursos turísticos fluviais da Europa).

4- Investir fortemente na Internet divulgando por vários meios os Locais Notáveis do Concelho.

5- Restaurar o centro histórico manuelino de Freixo de Espada-à-Cinta utilizando as verbas do QREN.

6- Aumentar o cultivo das culturas tradicionais (amendoeira, vinha e olival) para aumentar a beleza agrícola e os recursos da região.

7- Estudar as águas minero-medicianis da Fonte Santa tendo em conta a sua qualificação.

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26-01-07

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Igreja de São Miguel, Matriz de Freixo de Espada-à-Cinta (**) (MN)

Este templo faz lembrar, em escala menor, a igreja do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa com abobadamento das naves à mesma altura. É uma igreja-salão mandada edificar por D. Manuel no local de um antigo templo gótico, inicialmente construído no reinado de D. Sancho II. A campanha do século XVI haveria de se arrastar por muito mais tempo, praticamente um século, e as obras encerraram definitivamente depois da restauração da independência, já em pleno reinado de D. João IV.

A sua arquitectura, em parte, pode ter sido gizada pelo próprio João de Castilho, que como já se disse anteriormente se casou com uma jovem de Freixo. Também não será despiciente falar em Boitaca, mestre de obras régio da primeira metade do século XVI e que trabalhou na Sé da Guarda.

O exterior apresenta uma feição bastante austera e compacta tendo misturados os estilos manuelinos e maneirista. O portal principal, ladeado por dois grandes contrafortes, é de arco abatido e sobrepujado por uma composição decorativa manuelina que termina em dois óculos, sendo estes os únicos elementos que suavizam toda a austeridade estrutural que caracteriza o monumento. No entanto os portais manuelinos são constituídos por elementos decorativos, a meu ver, rudes e banais, mas com a habitual simbologia manuelina, neste caso, rosas e alcachofras. Lateralmente tem ainda, nas fachadas Norte e Sul, mais dois portais no mesmo estilo.

O interior é bastante belo  e vasto, dividindo-se por três naves e cinco tramos, marcados por elegantes colunas com sóbrios capiteis manuelinos, ligando-se as nervuras aos contrafortes exteriores. O primeiro tramo é ocupado pelo coro alto.

Como disse Henrique Pais da Silva, é uma igreja salão, filiado na tradição germânica, que define este tipo como «igreja de três naves de igual altura e espaço interior unitário graças também ao ritmo pausado na implantação dos suportes, pois, de o observador, onde quer que se situe no interior, captar visualmente na íntegra o volume interno; mais equitativa distribuição da luz por todo o interior do templo».

Ao longo do tempo a igreja foi sucessivamente enriquecida, e ainda que em nenhum momento se tenha secundarizado o carácter manuelino de todo o conjunto, são várias as obras modernas que ainda se podem contemplar no interior da igreja.

A meio da igreja podemos visionar um belo púlpito de ferro forjado, com o seu magnífico dossel da primeira metade do século XVI, único em Portugal, mas comum em Espanha.

É bela a capela-mor com abóboda manuelina, com as armas de Dom Manuel I, esferas armilares e Cruzes de Cristo, honrando a memória de quem proporcionou este belo espaço. Estes emblemas repetem-se nos fechos da nave central . Tem ainda um retábulo em talha dourada barroca. Este estende-se às duas paredes da capela, e as suas molduras enquadram dezasseis tábuas flamengas, oito de cada lado, provavelmente de 1535, da autoria de Grão Vasco, sobre temas da vida de Jesus.

Actualmente distribuem-se de modo aleatório, já sem qualquer relação com a organização que assumiam no retábulo original. Infelizmente mais não pude contemplar, porque a capela-mor se encontra a ser restaurada, esperemos com qualidade e brevidade.

Segundo Reinaldo dos Santos, as tábuas pertencerão à fase de transição do artista entre as suas obras de Lamego e Viseu.

Os absidíolos têm também retábulos de barrocos e são abobadados. No do lado esquerdo, um interessante túmulo manuelino. Nas paredes que separam as três capelas existem dois retábulos de talha com nichos e algumas imagens como é o caso de um bonito São Pedro.

Destaco ainda o fragmento em talha dourada, figurando os quatro evangelistas, que actualmente se encontra colocado no altar da capela direita, poderia ter feito parte da estrutura original do retábulo. Trata-se de uma peça de autoria provável do escultor e entalhador de origem flamenga, Arnau de Carvalho, que trabalhou com os pintores de Viseu e fez uma série de retábulos para igrejas da região.

A campanha barroca do reinado de D. João V privilegiou essencialmente a renovação do retábulo-mor, em talha barroca estilo nacional, a construção do coro e a remodelação da sacristia, mantendo os elementos essenciais manuelinos que chegaram praticamente íntegros até aos nossos dias.

A igreja matriz de Freixo de Espada-à-Cinta, vale a sua deslocação à vila, principalmente quando a sua capela-mor estiver disponível. Esta igreja é mais um dos belos monumentos portugueses à sua disposição, numa região deprimida e arredia do desenvolvimento, que bem merece a sua demorada visita.

Fonte de Informação-Sousa, Fernando de e Pereira, Gaspar Martins- Alto Douro Douro Superior, Novos Guias de Portugal, Editorial Presença, 1988, Lisboa. Vários autores- “Manuelino à descoberta da arte do tempo de Dom Manuel”,Ediotra Civilização 2001.Site do IPPAR. Gil, Júlio e Calvet, Nuno-"As Mais Belas Igrejas de Portugal, Editora Verbo, 1989.

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22-01-07

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Capela-mor da Igreja da Misericórdia de Freixo de Espada-à-Cinta (*) (IIP)

Virada para a praça Jorge Alvares, a igreja da Misericórdia do século XVI, possui uma fachada desornamentada com  grande portal de aduelas largas à moda de Castela.

A nave é estreita, mas bastante alta e alongada. A capela-mor abobadada é notável (*), quer pelo sumptuoso retábulo de talha dourada barroca, com colunas salomónicas e tribuna em dossel, mas principalmente pela belíssima abóbada polinervada de granito concluída apenas em 1555. O tecto é policromado em abóbadas de nervuras, curvas e densas, que partem das mísulas trabalhadas e fecham em botões de flores e cabeças de anjos. Em dois fechos singulares aparecem um escudo dourado com as cinco chagas de Cristo e um brasão de armas. As chaves, heráldicas e decorativas, são preciosas, já de recorte renascentista Subsistem nas paredes laterais vestígios de pinturas a fresco. O exterior da capela-mor tem no friso interessantes gárgulas com gravuras grotescas.

Alguns autores julgam ter havido na construção desta capela-mor a influência do arquitecto asturiano João de Castilho, uma inspiração à solta, que depois de ter estudado em Itália, veio para Portugal em 1517. Trabalhou no convento de Cristo em Tomar, na Sé de Viseu, Alcobaça e Jerónimos, tendo casado em Freixo de Espada-à-Cinta com a filha de outro refugiado espanhol e com uma senhora nobre da Vila, cuja família esteve ligada à fundação desta Misericórdia. O risco do reticulado não poderia sair da mão de um mestre pedreiro provinciano; é possível que estejamos a ver uma obra saída da inspiração do genial João Castilho ou de um seu discípulo.   

Quem passar pela vila, é imperdível ver esta maravilha manuelina; aquando da sua construção ainda se respirava a honra e o orgulho dos descobrimentos, enquanto ao longe, o Império se desmoronava. A frase do nosso Camões, adaptada por mim, corresponde à nossa maior lacuna: fracos líderes tornam fracas as fortes gentes.

Peça as chaves no Lar da Misericórdia.   

Fonte de Informação-Sousa, Fernando de e Pereira, Gaspar Martins- Alto Douro Douro Superior, Novos Guias de Portugal, Editorial Presença, 1988, Lisboa.

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19-01-07

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Torre do Galo (MN) (Freixo de Espada-à-Cinta (**)

Quem vagueia por Freixo de Espada-à-Cinta rapidamente repara que a vila possui no seu casco histórico um vasto conjunto de habitações quinhentistas, de estilo manuelino: em que se destacam a casa dos carrascos e a casa no início da rua outeiro de extremado labor de alvenel. As ruas convergem para a Praça Jorge Alvares, que é o seu centro cívico. É neste adro que encontramos a estátua de qualidade mediana deste navegador datada de 1950- foi o primeiro navegador português que chegou ao Japão e que era amigo de São Francisco Xavier. Aqui também encontramos os três monumentos notáveis da vila: A Torre do Galo (**), a Igreja Matriz (*) e a capela da Misericórdia com a sua belíssima capela-mor polinervada (*).

A dois passos da matriz, está o que os moradores teimam em designar por Castelo. É o recinto murado de xisto do actual cemitério, constituído por restos da muralha e vestígios de uma porta e adossada a magnífica e elegante Torre do Galo, verticalista, com 25 metros de altura, facetada e heptagonal, e com parapeito saliente. Ostenta na face voltada para a praça as armas da vila. É sabido que Dom Dinis aqui mandou fazer importantes obras e a ele se deve certamente, para além da ampliação da cerca muralhada, esta belíssima sineira Torre do Galo.

Para observar as suas vistas (bela panorâmica da vila, dos campos e montes vizinhos) temos que passar por um salão ogival que recebe a luz coada pelas sete seteiras e trepar uma escada ogival. No terraço ergue-se a torre sineira do relógio, colocada ali posteriormente, está na origem da designação da “torre do galo”. Mas o que narro neste parágrafo não viu o viajante, porque das duas vezes que fui a Freixo a entrada da torre estava fechada.

E é tudo o que resta daquilo que devia ser uma óptima cerca defensiva, que tinha cinco cubelos e duas poderosas torres: uma – a desaparecida torre de menagem e a Torre do Galo. Aliás, a semelhança do que aconteceu com a muralha defensiva, o mesmo poderá acontecer ao seu histórico, porque se encontra degradado e descaracterizado, misturando-se o tijolo, janelas e portas de alumínio com relíquias quinhentistas cheias de carácter.

Fontes de Informação: GIL, Júlio, Os Mais Belos Castelos e Fortalezas de Portugal, Lisboa, 1986; ARMAS, Duarte de, Livro das Fortalezas, Lisboa, 1990;  Site da DGMN   

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09-01-07

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Miradouro do Carrascalinho (Fornos) (*)- Freixo Espada-à-Cinta

Aqui recomeço o ano do "Portugal Notável" - o sítio é o do Miradouro do Carrascalinho , porque aqui tive uma das mais gratas surpresas do ano.

O miradouro é extraordinário, com vistas sobre o Canhão fluvial do Douro; “um espaço selvagem que parece intocado pelo Homem, ainda que sejam variados os vestígios da sua actividade, quer ao nível arqueológico, quer em termos agro-pecuários. Numa observação mais atenta da paisagem pode detectar-se a povoação espanhola da Mieza, o castro da Lagoaça, os olivais e laranjais em socalcos nas encostas, e na zona planáltica conhecem-se numerosas construções graníticas, as “carriças”, destinadas a guardar os rebanhos das ovelhas e as encostas cobertas de lodão que tem nestas paragens uma das manchas mais extensas da Península Ibérica e ao fundo o enorme rochedo quartzítico do Penedo Durão”.1

O que me cativa aqui é a paisagem agreste e bela, a solidão e aquelas enormes silhuetas de aves pretas e brancas que planam airosamente, conhecidas localmente como Corvo-branco ou Cuco dos almocreves e que tem o nome comum de Britango; felizmente é Maio, porque no Inverno deslocam-se para as savanas africanas.

Era quase noite quando parti deste local notável, fui até à Lagoaça, observei ainda o bonito miradouro da Cruzinha que tem ao fundo a barragem espanhola de Aldeiadavila. Uma estrada medonha, estreita, coleante vai até ao rio. É quase noite - mas aventuro-me. A meio da viagem percebo que errei, a noite está escura como breu e não tenho espaço para fazer marcha atrás- a face medonha da barragem e das gigantes arribas! De repente um luzeiro, quase elfos na noite encantada. Afinal é uma festa, quando avistam o carro, sou chamam-me para a tertúlia; como uma saborosa ovelha churra assada. É enorme a alegria, apenas homens da Lagoaça, o vinho tinto ácido, mas de boa qualidade jorra a rodos. Sinto-me um lagoaçeiro. Parti quase à meia-noite, com as sobras de carne para me alimentaram mais um semana. Não esquecerei este festim. A todos os lagoaçeiros o meu bem-hajam por esta noitada inesquecível. Se algum dos convivas ler este site que me convide para mais uma tertúlia nocturna na versão 2007, se possível à sexta-feira.         

Fonte Informação - Painel informativo do local do PNDI 1.

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26-12-06

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Conjunto paisagístico e patrimonial da Ribeira do Mosteiro/Calçada de Alpajares (IIP) (***) (Parque Natural do Douro Internacional) (Freixo de Espada à Cinta)-III

Partimos, então caros leitores, do castro de São Paulino sem vermos as suas enigmáticas sepulturas rupestres e descemos pela famosa ladeira, classificada em 1977 como "Imóvel de Interesse Público"; é conhecida como  "Calçada de Alpajares", ou "Calçada dos Mouros", ou “Calçada do Diabo”,  é para alguns de origem romana, para outros tem origem medieval. Actualmente, remanescem apenas alguns dos seus troços originais, visíveis perto da convergência das ribeiras da Brita e do Mosteiro, a partir da qual se prolonga pela encosta de Alpajares de forma ziguezagueante, estruturada ao longo de cerca de oitocentos metros em lajes afeiçoadas em xisto e seixos de pequena dimensão e escalonada em degraus. Uniria, talvez, o Castelo de Alba a Poiares, passando pelo castro de São Paulino (com magnifica posição estratégica ).

Descanso num pequeno abrigo, escuto o suave raspar da água no leito da ribeira da Brita, alguns láparos saltitam, as andorinhas, mensageiras da Primavera, volteiam; com cansaço, quase adormeço e sonho. Nas quebras da rocha, aranhas dedicadas à fiação e a tecelagem são senhoras do seu destino. A parede está riscada de actividade recente humana, de repente consigo visionar sob todos os hieróglifos contemporâneos a figura de um animal vermelho, muito estilizado. Há muito que eu procurava neste passeio a “Fraga do Gato” !

A cabeça tem o focinho arredondado e não apresenta detalhes de narinas, orelhas ou chifres; o corpo é igualmente  arredondado  e  com os  membros apenas esboçados, o  que leva alguns a pensar que se trata de  uma lontra,gato ou animal semelhante. Por baixo dessa figura parece uma pintura a preta que parece representar  uma figura de um bufo e que segundo António Martinho Baptista, “ambos têm caracter absolutamente original no contexto da arte pré-histórica ibérica ao ar livre”, são de difícil atribuição cronológica, mas há quem as atribua como pertencentes ao Paleolítico Superior. É urgente a preservação da Fraga do Gato, inclusive com a colocação de gradeamento apropriado e um painel explicativo, senão por ignorância ou má fé, os homens contemporâneos degradarão este lembrança pré histórica. Nos recessos das anfractuosidade das duras rochas, outros enigmas existem à espera de olhos argutos; sei que também já é conhecido por parte dos arqueólogos figuras abstracto-simbólicas, pintadas em tom ocre- situa-se a meia encosta na margem esquerda da Ribeira. Adiante, o lusco-fusco não tarda.

Continuo a descida até à foz da fugaz ribeira da Brita, quando esta invade a ribeira do Mosteiro (alguém me sabe explicar a origem deste nome dado que não há notícia de qualquer convento ou vida monacal naquela área?)

Depois de atravessar a ribeira do Mosteiro, tento a salto destemido passar por aquela parede abrupta do desfiladeiro, pouparia imenso tempo até ao carro. Mas a encosta é para mim intransponível, mesmo após algumas tentativas temerárias e desvairadas. Decido continuar pela carreira  mais fácil e longa, tenho fome: como laranjas e azedas, tenho sede: bebo água da ribeira. Chego por fim á estrada de alcatrão, até ao veículo é ainda meia hora, decerto acharei boleia. Mas nem vivalma alma por ali passou. Próxima estava a noite.

O grandioso espectáculo  da ribeira do Mosteiro, quando corta magistralmente o sinclinal quartzítico da Serra é dotada de uma força extratemporal e ambivalente, é  “exemplo singularíssimo do belo horrível”1.

Simboliza o tempo, o espelho das nossas pulsões profundas, dos nossos instintos domesticados ou selvagens e ainda  o Homem mortal, na sua pluriformidade,  nascido da Terra que aqui a acomete com destreza e medo; é ainda o mundo inconvertível e imortal, a natureza (em consanguinidade) na sua diáfana beleza e no seu endiabrado sofrimento; aquela topografia torturada é uma completa cosmogonia que aqui irrompe e se assiste.

Todo o português digno deste nome deveria, quando tiver oportunidade, apresto físico e saúde, percorrer este carreiro  inesquecível. É uma das maravilhas de Portugal!

Fontes de Informação:

-Guia de Portugal – Trás-os-Montes e Alto-Douro, II-Lamego, Bragança e Miranda. (5 volume) editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, 1970.1

-Informação oral de António Martinho Baptista m

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20-12-06

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Conjunto paisagístico e patrimonial da Ribeira do Mosteiro/Calçada de Alpajares (IIP) (***) (Parque Natural do Douro Internacional) (Freixo de Espada à Cinta)-II

Diz a lenda que”.. em tempos antigos era tudo por estes sítios barrancos e precipícios medonhos, um dado cavaleiro vindo dos lados de Barca de Alva em noite de tempestade, chegou à margem da Ribeira do Mosteiro que ia de mar a monte. Dada a necessidade imperiosa de atravessar o esbravejante curso de água suspirou aflito: Valha-me Deus ou o Diabo. Foi satanás que apareceu ao chamamento e disse: se me deres a tua alma, antes que cante o galo preto, te darei uma ponte e uma estrada para que possas seguir a tua viagem sem o mínimo perigo. O cavaleiro aceitou e o infernal pedreiro e seus acólitos atarefaram-se na arrojada construção de uma calçada entre os fraguedos intratáveis, distribuindo 18 elegantes lancetes com lajes sólidas de quartzito, ao som de estridentes cantares de Bruxas que no terreiro se reuniram para festejar a conquista de mais uma alma. Eis que canta o galo três vezes quando apenas faltava colocar as duas últimas pedras da ponte. Liberto do seu compromisso, o viajante prosseguiu a sua jornada e o Diabo enraivecido, desapareceu com os seus ajudantes através de uma bocarra que no momento se abriu entre os penhascos1”. 

Aqui estou nas Alminhas, de novo, os quarztiztos dobrados, parece que estão em movimento e têm vida, talvez sejam ainda reminiscências da captura do Diabo. Onde acaba a História e começa a lenda?

Local extranatural ( por tão natural ser) que reclama de mim o percurso da sua imensidão; a calçada serpenteia, coleante, com forma réptil, a água da ribeira acomete endemoninhada contra as duras rochas que a emparedam. A vida saltita e sussurra por toda a banda. 

É tempo de aventura. É tempo de solidão. O verdadeiro viajante viaja só ou em companhia dos seus fantasmas! A Calçada de Alpajares é o local ideal para fingir que desapareci, talvez me assoma o demo ou pelo menos uma bruxa. É uma viagem memorável, num cenário que desperta simultaneamente a aquietação  e a inquietação- paisagem própria para um profeta ou para um salteador, no dizer de Junqueiro, eu sou uma excepção porque nem sou uma coisa nem outra.

Caminho na vertente Calçada do Picão da Ana, grande penedo cónico, até ao fundo do vale, ladeado por bosque ribeirinho dominado pelo amieiro, a água límpida rumoreja, após passar o pontão, sucedem-se palas de quartzitos, que poderão ter sido habitadas desde o Paleolítico Superior. O xisto de tom acetinado intercala com o quartzito acinzentado por vezes ferruginoso, “sangue” da voragem do tempo, uma ave de grande porte plana altaneira. Matos ralos de giesta, piorno, azedas, rosmaninho e cornalheiras, camadas de rocha empilhada como livros gigantescos. O xisto agora domina, paisagem mais aberta, a ribeira mal se vê, o calor aperta; agora arriba para Sul. Ao longe a crista vertical de quartzito conhecido como o  “Muro da Abalona”, o monte boleado do Castro de São Paulito - é para lá que me dirijo,  dois pombais e aquelas rochas gigantescas sempre a clamarem a minha presença - como isto é belo, repito até à exaustão.

No cimo de  um espigão sobranceiro entre as ribeiras do Mosteiro e da Brita, o Castro de São Paulito, restos de muros derribados em fiadas de muralhas, a vegetação é tanta que não vejo vestígios arqueológicos, li algures que aqui foram efectuadas sondagens que descobriram material do calcolítico e Bronze Final , que foi povoado romanizado, como se constata pelo achado de uma ara dedicada a I(ovi) o(ptimo) M(aximo), estamos obviamente a falar do líder dos deuses romanos-Jupíter. E terá sido, na verdade, a excelente implantação estratégica deste castro, que assenta num dos poucos acessos do rio Douro ao Planalto Transmontano, que subjazeu à sua construção; é assim natural que a calçada conflua para o castro. No seio desta grandiosa paisagem, tudo é único e singular.

Fonte de Informação:Folheto da Rede de Percursos da Natureza (Vale da Ribeira do Mosteiro)1.

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10-12-06

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Conjunto paisagístico e patrimonial da Ribeira do Mosteiro/Calçada de Alpajares (IIP) (***) (Parque Natural do Douro Internacional) (Freixo de Espada à Cinta)

“Nem pela palavra, nem pela fotografia, podes avaliar, leitor, o que aquilo é. Só visto”1

A serra de Poiares (Penedo Durão - não há meio de lhe acertarem com o nome) é uma gigantesca muralha intransponível quartzítica provinda do Período Ordovícico, que ladeia o  rio Douro, e que aqui se encontra arribada por mor da erosão diferencial e de movimentações tectónicas hercínicas que originaram um extenso sinclinal.

Eu sabia que este colosso teria que ser cortado transversalmente por uma linha de água, que desaguaria no rio Douro!  Numa das minhas digressões de viajante e após me terem dito que a Ribeira do Mosteiro era um local “bonito” decidi descobrir o local do talhe. Segui na  EN221, a partir de Barca de Alva no sentido de Freixo de Espada à Cinta e após meia dúzia de Km virei à esquerda por coleante estrada municipal.

É um assombramento o que se vê, local penhascoso e medonho, principalmente pelo esmagamento que se sente ao estar emparedado entre os gigantescos penedos quartzíticos  e a  garganta estreita e profunda da ribeira do Mosteiro.

A princípio ainda encontramos sinais de civilização. Junto às margens uma ou outra casita, as copas escuras das laranjeiras e limoeiros, que juntamente com as nespereiras, diopireiros, amendoais e olivais fazem desta área um jardim mediterrânico.

Mas depois o natural subjuga-nos de emoção e racionalidade (para mim muito geológica), a estrada passa então a ser cortada no próprio rochedo e sobre a ribeira que em baixo, se contorce em pequenas cascatas sussurrantes. Estou sempre a parar naquela cenografia impressiva, a solidão é total.

O espesso corredor ripícola é um santuário natural: ali um Pêgo-azul, acolá melros, aquele não conheço, plana altaneiro um grifo na companhia de outras aves rípicolas (Águia-real ou Bufo-real?), entre amieiros um brava agitação - talvez uma lontra.

Aparecem-nos no meio de uma apoteose de despenhadeiros abruptos no sítio das Alminhas um dos mais belos geomonumentos que já vi.

Nos quartzítos ocorrem espectaculares dobras de eixos sub-horizontais com direcção geral E-W. As dobras são observáveis a várias escalas. Algumas delas atingem dezenas de metros, jazem no fundo do despenhadeiro como animais selvagens convulsivos e doridos agitados por manifestações tectónicas da Terra - poder gigantesco que soergue as montanhas.

Há quem acredite que o fraguedo contorcido é obra de Deus ou do Diabo. O inesperado surge de novo na margem esquerda da ribeira, a trepar o afloramento, deparamos com a íngreme Calçada de Alpajares (IIP), de construção tão arrojada e inóspita que o povo diz ser obra também do diabo. É traçada em ziguezague e feita de duros quartzítos, em elegantes lacetes. Para controlar o Demo aquela simples alminha, alumia-nos os caminhos. Tudo isto é singular em Portugal: por ser selvagem, belo, rude, científico e esotérico. O vale da ribeira do Mosteiro constitui um dos ex-libris nacionais em termos geológicos, paisagísticos e ecológicos.

A Calçada de Alpajares reclama uma caminhada, existe um caminho pedestre certificado, mas é tarde e chuvisca. Voltarei. 

Fontes de Informação:

-Leitores de paisagem locais m

-Guia de Portugal – Trás-os-Montes e Alto-Douro, II-Lamego, Bragança e Miranda. (5 volume) editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, 1970.1

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27-11-06

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Paisagem no Penedo Durão-Assumadouro (PNDI) (Freixo de Espada-à-Cinta (**)

PÁTRIA (extracto)

Maior do que nós, simples mortais, este gigante
foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa pátria... E que pátria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abundância, amor, concórdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
Pátria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torreão de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor, a dar o alento,
grimpas de catedrais, zimbórios de convento,
campanários de igreja humilde, erguendo à luz,
num abraço infinito, os dois braços da cruz!
E ele, o herói imortal duma empresa tamanha,
em seu tuguriozinho alegre na montanha
simples vivia ? paz grandiosa, augusta e mansa! -,
sob o burel o arnês, junto do arado a lança.
Ao pálido esplendor do ocaso na arribana,
di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,
ermitão misterioso, extático vidente,
olhos no mar, a olhar sonambolicamente...
«Águas sem fim! Ondas sem fim! Que mundos novos
de estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
ilhas verdes além... para além dessa bruma,
diademadas de aurora, embaladas de espuma!
Oh, quem fora, através de ventos e procelas,
numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
a demandar as ilhas de oiro fulgurantes,
onde sonham anões, onde vivem gigantes,
onde há topázios e esmeraldas a granel,
noites de Olimpo e beijos de âmbar e de mel!»
E cismava, e cismava... As nuvens eram frotas,
navegando em silêncio a paragens ignotas...
? «Ir com elas...Fugir...Fugir!...» Ûa manhã,
louco, machado em punho, a golpes de titã,
abateu, impiedoso, o roble familiar,
há mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira...
Manhã de heróis... levantou ferro... e, visionário,
sobre as águas de Deus foi cumprir seu fadário.
Multidões acudindo ululavam de espanto.
Velhos de barbas centenárias, rosto em pranto,
braços hirtos de dor, chamavam-no... Jamais!
Não voltaria mais! Oh! Jamais! Nunca mais!
E a barquinha, galgando a vastidão imensa,
ia como encantada e levada suspensa
para a quimera astral, a músicas de Orfeus:
o seu rumo era a luz; seu piloto era Deus!
Anos depois, volvia à mesma praia enfim
uma galera de oiro e ébano e marfim,
atulhando, a estoirar, o profundo porão
diamantes de Golconda e rubins de Ceilão!

Guerra Junqueiro

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23-11-06

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Paisagem no Penedo Durão-Assumadouro (PNDI) (Freixo de Espada-à-Cinta (**)

O Penedo Durão, de litologia quartzítica, é um dos locais mais emblemáticos do Parque Natural do Douro Internacional. Este rochedo ciclópico e medonho está debruçado centenas de metros em precipício sobre o rio Douro. Daqui avista-se a vasto  Planalto Castelhano e que em Portugal se prolonga até à Aldeia Histórica de Marialva (***) e mais a Sul cessa contra a muralha enorme, estruturalmente complexa da Serra da Estrela).

Observa-se a barragem de Saucelhe que constitui um aproveitamento hidroeléctrico espanhol, em funcionamento desde 1956 -escuta-se o ruído da água a sair pelo escoadouro das turbinas; na margem oposta minas abandonadas, enorme cratera que desfigura a paisagem, e a foz do selvagem rio Huebra quase gémeo do Águeda.

Um grifo, que é uma das aves mais espectaculares da fauna portuguesa voa tranquilamente abaixo de mim. É conhecido nesta região por abutardo, que com as suas asas largas com mais de  2,30 m de envergadura, utiliza as correntes de ar quente e os ventos para ascender até elevadas altitudes. Desta forma prospecta um vasto território procurando encontrar cadáveres de animais que constitui o seu alimento. Na minha ascensão até ao Penedo é possível observar os “alimentadores de abutres” colocado pelo PNDI. Tão bem ou melhor que às muralhas de de Marvão (***), lhe assenta a descrição de Raul Brandão:”daqui se vêem as águias voando abaixo de nós”.

Um caminho de macadame para poente indica-me Assumadouro. O automóvel com algum custo desloca-se sobre a cumeada do Penedo Durão, enorme baleia de rocha dura, sob a sua dianteira saltitam em fuga coelhos, tantos como eu nunca vi. O denso coberto vegetal é odorífico e as estevas são predominantes. Por vezes numa nesga do terreno avisto o plúmbeo Douro.

Chego ao ponto desejável a vista é inolvidável; é ali ao fundo Barca de Alva rodeada por terrenos boleados xistentos, são as quintas do Douro com olivais, amendoais, vinhas e laranjais a darem uma nota mediterrânea, mansas e bravas, selvagens e distantes, estas aqui foram esquecidas pela UNESCO; identifico aquela a arroteada pelo poeta Guerra Junqueiro, que nos últimos anos da sua vida se entregou aos assuntos agrícolas e de mineração com notável zelo, dando os seus estudos sobre radioactividade, ensejo a polémicas e louvores por parte dos homens de ciência. Mais ao fundo a Marofa, Pinhel, talvez a Guarda, Ciudad Rodrigo, o estreito canhão do rio Águeda…

O Penedo Durão aqui é dissecado pelo vale estrutural da Ribeira do Mosteiro (***), com as suas extraordinárias dobras e a calçada de Aljapares, e que alberga uma das paisagens mais impressivas de Portugal. Este local onde estou é conhecido como Serra Porreira. Depois do espectacular sulco, o penedo quartzítico prossegue o seu caminho até a Senhora do Castelo em Urros (*).

Mas o que é surpreendente é que não estou só! Um casal suíço numa autocaravana bebe o nosso “sol engarrafado”, sentados confortavelmente em cadeiras de praia, dispersam os olhos por aquela beleza sem fim.

Conversamos, vão ali passar a noite, andam a viajar por toda a Europa. Talvez por simpatia dizem-me que Portugal e a Irlanda são os mais belos países que conheceram, e que o nosso é um dos últimos paraísos existentes na Humanidade. Ficam espantados quando eu lhes digo que por vezes os portugueses não gostam de o ser …não compreendem… como é possível? Digo-lhes que a esmagadora do povo lusitano, se lhes dessem a escolher entre a Suiça e Portugal, preferiam o primeiro. Dizem eles que devemos ser doidos, como é possível gostar-se mais duma pátria que não tem mar, apenas montanhas, que é gelado durante 7 meses, onde apenas se trabalha, dorme, come enlatados e no Inverno às duas horas da tarde já é noite. Como é possível o povo portugûes bolçar no paraíso terreal, e abre os braços para as arribas rochosas que caem, quase a prumo sobre a margem direita do Douro, meio milhar de metros mais abaixo. É uma imagem de uma força imensa.

Vão agora comer um peixe pequeno azulado, que nunca experimentaram. Num fogareiro ajudo-os a assar uma sardinhada com pimentos. São constantes os elogios ao pitéu, acompanhado agora por um bom tinto duriense.

Já é noite, ao fundo muito pequenina a ponte iluminada de Edgar Cardoso, diz-me que tenho de voltar (o Sevilha ganha a Taça Uefa). De noite vultos suspeitos esvoaçam em redor…não tenho medo já conheço o Penedo Durão, que fica em Portugal, na margem direita do rio Douro no concelho esquecido de Freixo de Espada à Cinta. 

Posté par Castela à 00:47 - Freixo de Espada-à-Cinta - Commentaires [0] - Rétroliens [0] - Permalien [#]



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