19-06-06
Retábulo principal da Igreja matriz de Escalhão (Figueira de Castelo Rodrigo) (IIP) (*)
Da igreja medieval já nada resta, em sua substituição construi-se no século XVI e XVII esta monumental igreja maneirista, construída também com algumas pedras do castelo dinisiano, desaparecido da voragem do tempo.
No exterior a ornamentação é simples e de grande sobriedade, apresentando nas paredes, sinais dos danos provocados pela artilharia espanhola durante a guerra da restauração.
Em 1642 o Duque de Alba reentra na Beira com um exército poderoso, destruindo várias aldeias. Um troço deste exército ataca Escalhão. A população apavorada acolhe-se na vasta igreja fortaleza; construiu em seu redor dois revelins (ainda existiam vestígios destes no século XIX) e foi bombardeada, e quando a cavalaria inimiga avançou, um popular- José Janeiro- subido à torre da igreja e arrancado o badalo a um sino, desfere com o ferro uma pancada mortal na cabeça de um capitão castelhano. As tropas desorientadas, perante uma resistência inesperada e com a morte do capitão, retiraram, dando tempo à chegada das tropas de Fernão Teles de Menezes que destroçaram o exército espanhol.
O interior da igreja é amplo, acolhedor e harmonioso. Mas o que prende o nosso olhar, é ao fundo o notável retábulo mor (*), seiscentista, revestido a talha dourada, maravilhosamente trabalhada, com colunas salomónicas e uma composição onde se inserem belas edículas com imagens de santos.
Tem ainda dois interessantes painéis quinhentistas em alto relevo de inspiração flamenga que representam a deposição no túmulo e Jesus a caminho do Calvário. Este último, para além de belo, remete-nos para uma provável heterodoxia, pois um cristo observa o seu irmão gémeo a caminho do calvário!
Uma outra heterodoxia encontra-se no interior da sacristia num fresco parietal de má qualidade, onde é visível a Virgem Maria a amamentar dois meninos; estamos de novo remetidos para o carácter dual e alternativo das diferentes correntes do cristianismo?
Sendo esta igreja uma comenda rendosa da Ordem de Cristo e devido à proximidade da capela templária de Mata de Lobos, estariam estas marcas relacionadas com resquícios esotéricos da Ordem Templária?
Aqui em Escalhão, tornou-se tradicional uma peculiar, espiritual e poética forma de implorar uma boa hora para a mãe expectante quando as condições aparentes indiquem possíveis dificuldades para dar á luz. Sete jovens virgens, todas marias de seus nomes, sobem à torre sineira da igreja matriz e a espaços que dêem tempo, cada uma faz soar uma badalada. E cada toque é sinal a quantos escutem para rezarem uma Ave Maria a pedir a Nossa Senhora que interceda pela felicidade do parto. É sem dúvida, uma lindíssima prece eclesial. Se já caiu em desuso, rezemos por seu retorno. Embora saibamos que no futuro os partos serão realizados na cidade da Covilhã! Outro problema será provavelmente a existência de sete jovens Marias virgens em Escalhão...
18-06-06
Algumas recomendações para o desenvolvimento do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo
-Estudar, classificar e colocar ao serviço do Turismo as ruínas da povoação do castelo de Monforte e da aldeia do Colmeal.
- Requalificar a Albergaria dos peregrinos de Santiago de Compostela em Escarigo.
-Requalificar e difundir o caminho medieval de Santiago de Compostela (o mais belo em Portugal e tão ignorado).
-Classificar o nicho e a albergaria no caminho de Santiago de Compostela em Escarigo, a Igreja de Almofala e o Santo André das Arribas (*).
-Remover o menír dos Ataúdes para um local mais protegido; colocá-lo mesmo na sede de freguesia em local de destaque e devidamente protegido.
- Homenagear Agostinho da Silva em Barca de Alva (*), com a elaboração de uma consequente estátua.
-Reabrir a linha férrea do Douro entre o Pocinho e Barca de Alva unindo-se a Espanha.
-Expandir a agricultura, uma vez que ao contrário dos concelhos vizinhos, os seus terrenos no planalto de Vilar Torpim-Vermiosa-Escarigo- Mata de Lobos-Escalhão, são muito férteis.
-Colocar um parque eólico na cumeada de Serra da Marofa.
- Em conjunto com outros concelhos da bacia hidrográfica do Côa criarem-se lojas nos principais centros urbanos da península Ibérica (Lisboa, Porto, Madrid, Valhadolid...) para divulgar as riquezas da região.
22-04-06
Miradouro do Alto da Sapinha (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)
Estrada Nacional 221, entre Escalhão e Barca de Alva.
Este é um notável miradouro, em que se interligam a água, a botânica e a rocha.
Aqui cessa abruptamente o inóspito Planalto Castelhano, para ceder aos verdejantes campos do rio Douro e do seu afluente Águeda, que aqui tiveram um intenso trabalho erosivo. Interessantes são também os dobramentos de pequenas cristas quartzíticas atrás de nós e que, devido à sua maior resistência diferencial, coadjuvam no processo de desnivelamento altimétrico do local.
O miradouro é muito aprazível, com parque merendeiro e um leitor de paisagem do Parque Natural do Douro Internacional que diz o seguinte.
“Chegado a Barca de Alva, o rio Douro inicia o percurso em território nacional, passando a dividir as províncias da Beira Alta e de Trás-os-Montes. Neste local onde desagua o seu afluente Águeda, situam-se duas pontes, uma ferroviária, que fazia parte do eixo Porto-Salamanca encontrando-se desactivada há várias décadas, e uma rodoviária recentemente construída que assegura a rápida ligação a Espanha.
Neste cenário grandioso, com a crista quartzítica de penedo Durão como fundo, observam-se extensos amendoais e olivais ocupando a quase totalidade dos terrenos xistosos. Estas culturas agrícolas encontram aqui excelentes condições edáficas, e a sua instalação nesta região remonta ao fim do século XIX, processo a que esteve associado o escritor Guerra Junqueiro, que calcorreou “...esta terra inóspita onde a custo a urze desponta..”
Em termos naturais, esta área têm bastante importância para as aves de grande porte. Observando-se grifos, águias e até o tímido Bufo-real, que nas vizinhas arribas do Águeda tem o seu habitat de nidificação”.
Paisagem em Barca de Alva (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)
A aldeia ribeirinha de Barca de Alva, na margem esquerda do rio Douro, junto à raia definida pelo rio Águeda a leste, é povoação de desenvolvimento recente. Antes do século XIX ser um obscuro ponto de passagem do Douro e porto fluvial sem grande movimento. Aliás, as condições climáticas e de salubridade do sítio não eram propícias à atracção de gentes. O verão tórrido e as inundações de Inverno tornavam este recanto cercado de montes quase inabitável. As febres palustres eram frequentes.
O desenvolvimento agrícola, a construção da linha do Douro e a ligação ferroviária com Espanha, a construção da Estrada Nacional 221, que atravessa o rio Douro, justamente aqui pela ponte de betão construída em 1955 por Edgar Cardoso e a atracção turística que constituem as “Amendoeiras em Flôr”, vieram fazer de Barca de Alva uma localidade com alguma dimensão - hoje tem 200 habitantes.
Apesar de ser uma povoação banal, a sua área envolvente é de grande beleza, rodeada pelos rios Douro e Águeda, pelo seus alcantilados montes, com a crista quartzítica de Penedo Durão a impor a sua rude altivez, e os seus laranjais, olivais, vinhedos e principalmente as suas amendoeiras em flor, com tom rosa ou branco, que anunciam festivamente a primavera.
Depois do fecho do encerramento da linha de caminho de Ferro Porto-Salamanca, em 1987, a povoação entrou em decadência, mas a construção do novo cais fluvial e da ligação rodoviária para Espanha pela foz do Águeda fez renascer a esperança.
É particularmente belo o passeio pela linha abandonada, junto ao rio Douro até a Foz do rio Águeda e fronteira Espanhola. Passamos pela fantasmagórica estação de caminho de ferro abandonada, ruína de ferro e betão, a invocar pesadelos poéticos e sempre o frémito ruído calmo do Douro, que por vezes se esconde devido à vegetação ribeirinha. Junto à confluência do Águeda com o Douro, a capelinha de Santo Cristo integra, na esquina uma lápide funerária romana a um casal, Modesto e Cornélia Censulia, dedicada pelo filho e por um escravo liberto. A importância de Barca de Alva em tempos adveio certamente da proximidade da vila fortificada de Alva no cabeço fronteiro do outro lado do Douro, sede de concelho até ao século XIII.
Por fim a ferrugenta ponte de caminho de ferro, que este andarilho não usa transpor com receio da queda. Assustador e atractivo são também os túneis do caminho de ferro, verdadeiras grutas de Montesinos que também atraem e repulsam.
O silêncio ruidoso do Águeda e do Douro, é quase redentor e fazem-me lembrar as palavras do filósofo Agostinho da Silva, menino eterno de Barca de Alva.
“Penso, portanto, que a natureza é bela na medida em que reflecte a nossa beleza, que o amor que temos pelos outros é o amor que temos pelo que neles de nós se reflecte, como o ódio que lhes sintamos é o desagrado por nossas próprias deficiências...”
02-04-06
Capela-Mor da Igreja de Escarigo (IIP) (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)
Bem vindo à bela igreja de Escarigo, que tem um dos mais belos exemplares portugueses de tectos de marcenaria hispano-árabe(alfarge); o autor confessa que só conhece dois de qualidade superior: na Sé do Funchal (**) e no Palácio Nacional de Sintra (****).
A laçaria é graciosa, original e encontra-se muito bem preservada.
Por toda esta raia beirã, encontram-se várias igrejas com estas coberturas. Vêm-me agora à memória, as igrejas de Leomil, Vilar Formoso, Castelo Mendo (com duas: São Vicente e Santa Maria do Castelo), e Sortelha; para além da de Escarigo, que é de todas a mais bem preservada e extensa.
A arte mudéjar caracteriza-se pela influência estética e das técnicas muçulmanas em terra cristã. São maravilhosas estas coberturas, pela minúcia, pelo intenso cromatismo, luxo e jogo geométrico. Os tectos das igrejas referidas foram provavelmente elaboradas no tempo do rei Venturoso no século XVI.
A sua concentração nesta região é única em Portugal, e em terras tão rudes e pobres, na época do esplendor de Portugal, construíram-se verdadeiras obras de arte. Merecia um estudo atento, sobre as suas origens e a razão da sua existência. Infelizmente muitas coberturas mudéjares têm sido degradadas, e inclusive desapareceram; estou-me a lembrar das igrejas de Almofala e Castelo Bom e do tecto do corpo da Igreja de Vilar Formoso, destruída nas obras da sua reedificação.
Mas a Capela Mor oferece ainda um maravilhoso retábulo e talha dourada construído entre os séculos XVII e XVIII.
Vejamos o que diz o nosso Prémio Nobel da Literatura acerca do mesmo.
“A igreja tem um retábulo barroco dos mais belos que o viajante viu até agora. Se tudo isso tivesse o vulgar e banal dourado-uniforme, não mereceria mias do que olhar a quem não fosse especialista. Mas a policromia da talha é tão harmoniosa nos seus tons de vermelho, azul e ouro, com toques de verde e róseo, que se pode estar uma hora a examina-lo sem fadiga.”1.
Esta igreja integrava a rota de peregrinação a Santiago de Compostela. Para além do templo podemos encontrar na localidade um nicho manuelino onde se destacam três vieiras. Em Escarigo podemos ainda encontrar, uma antiga Albergaria, infelizmente arruinada, que era um ponto de hospedaria para os peregrinos. Também símbolo da peregrinação, em Almofala, encontramos o formoso Cruzeiro Roquilho (MN) de estilo Manuelino.
Dos vários caminhos portugueses de peregrinação a Santiago de Compostela, este é o mais interessante, e que mereceria ser estudado, requalificado e divulgado. Nesta boa visita a Escarigo tive como cicerone guardião da chave do “tesouro”, o senhor João Espinha, ex. GNR em Coimbra, e que reformado, voltou à sua terra mater .
É óbvio que este viajante não viu mais nada, porque foi convidado a merendar em casa do senhor João, em que provou diversos enchidos, um bom queijo de cabras e desta vez um bom vinho tinto da Quinta do Cardo. A conversa derivou para as loas aos nossos chãos: Coimbra e Escarigo. Terminámos aos abraços, com o senhor João a dizer que já me tinha visto muito pequenino, como filho de quem sou.
“ E diga ao seu paizinho, que se lembre de uma multa que lhe perdoei e que depois me tornei seu cliente; e nunca ele me perdoou... tornámos amigos”.
Já noite, sai contente o viajante conimbricence, feliz com a coincidência; ao longe reparei na iluminação do Castelo de São Felices dos Galegos (*), mas preferi ter como companhia as estrelas.
1-Viajem a Portugal, 1981 de José Saramago
Santo André das Arribas (PNDI) (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)
A poucos quilómetros de Almofala existe uma pequena capela construída em 1909, que se situa a pouca distância das ruínas da primitiva ermida manuelina, que está assente sobre um povoado proto-histórico romanizado.
É terra inóspita. Somos logo recebidos por dois berrões vetões, bem altaneiros, que limitam a porta da entrada do átrio da capela recente; depois de bem observar as suas intimidades cheguei à conclusão que são um casal simpático, mas não namoram porque não têm focinho. São duas esculturas em granito, que eram usualmente colocadas nos limites das povoações e erigidas como manifestação de culto aos animais. Estes totens vetões distribuem-se por Trás-os-Montes e a sul do Douro apenas os encontramos aqui e em Castelo Mendo (**).
A porta está trancada, mas este moço viajante salta o muro desdenhoso (atenção não posso mostrar este post à mãezinha, porque saltei a cerca com dois metros).
O átrio e a capela são banais mas aprazíveis. Abro novo portão, caminho entre muros escalavrados, de socalcos uns, vestígios de construções castrejas outros, e dirigi-mo (ainda sem o saber), para um penedo ergonómico, que é óptimo miradouro para garganta granítica selvática do rio Águeda, a lembrar o seu gémeo rio Côa em Cidadelhe. Na margem direita temos o território dos nossos amigos castelhanos. O viajante gosta de se empinar nestes barrocos, mas aqui sente-se intimidado, pois uma sua queda serviria para bom repasto. Único é o som das asas destes animais a voarem, por vezes abaixo de mim.
A quantidade de abutres avistada é impressionante, alguns deles quase que lhes toco e inquieto-me ao observar aquelas avantesmas, aquieto-me porque apenas comem carne putrefacta, o que por enquanto, não é o meu caso; questiono-me como é que existe tanta comida para tantos animalejos tão graúdos!
Aqui está de novo um painel informativo do esforçado Parque Natural do Douro Internacional (PNDI).
“Em plenas arribas do rio Águeda, num local mítico onde se observam os vestígios pré-históricos da ocupação humana, contempla-se uma paisagem escarpada e selvagem, um enclave natural que alberga uma importante comunidade de aves rípicolas.
Destacam-se os abutres, localmente denominados por abutardos, com dezenas de casais distribuídos pelos afloramentos rochosos. Estas aves encontram-se protegidas por lei estando proibida a perturbação e a aproximação dos ninhos.
Outras espécies características deste vale são o Abutre do Egipto localmente conhecido por Britango, a Águia-real, e a Cegonha preta. Pode observar-se ocasionalmente o Abutre-negro.
As duas capelas rodeadas de olival, são alvo de uma importante festividade, o Santo André das Arribas no mês de Agosto”.
Concluo com um elogio. Existe um encantador percurso pedestre de pequena rota certificado, com grande beleza paisagística; parte das margens da Albufeira de Santa Maria de Aguiar (*), passa na Torre das Águias (*) por Santo André das Arribas (*) e pelo cruzeiro do Roquilho (que se situa na rota de Santiago de Compostela). O meu bem hajam a quem o fez.
Albufeira de Santa Maria de Aguiar (PNDI) (Almofala) (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)
Diz o seguinte, o oportuno e breve painel descritivo do local.
“A Albufeira de Santa Maria de Aguiar, resultante da construção em terra batida de uma barragem em 1979, localiza-se no extremo sul do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), concelho de Figueira de castelo Rodrigo. Destinada ao abastecimento público, esta albufeira sofre escassa flutuação do nível das águas, tendo ocorrido a instalação de manchas de vegetação aquática e ribeirinha, e na sua zona envolvente verifica-se uma alternância de campos agrícolas, pastagens, lameiros e pequeno maciços florestais. Esta conjectura ecológica aliada à escassez de outras zonas húmidas no interior, permitiu que este espaço detenha elevada importância para as aves aquáticas, com destaque para os mergulhões de crista que possui nesta área um dos núcleos populacionais mais importantes a nível nacional”.
Em seguida o viajante indica as aves desenhadas no painel: Cegonha branca, Garça-real, Corvo-marinho-de-faces-brancas, Galeirão, Mergulhão-de-crista, Mergulhão-pequeno e Pato-real.
O viajante confessa que se tivesse sempre assim painéis, teria a vida mais facilitada na elaboração dos posts.
O ruidoso motor do meu automóvel afastou toda uma panóplia de aves finórias que esvoaçaram, e apenas fiquei reduzido aos marrecos reais. Esperei algum tempo e algumas aves retornaram à bela Albufeira, mas muito ao largo; as aves de rapina faziam circos altaneiros e quase adormeci- o lago é o local ideal, para se observarem pássaros, mas também para um merecido repouso deste desvelado aventureiro.
Com os olhos recheados de beleza e a alma revigorada, parti para Santo André das Arribas, a pensar que se calhar não será muito boa ideia colocar aqui este post por caisa da "Gripe das Aves".
Torre das Águias, Torre de Almofala, Torre dos Frade, Casarão da Torre ou Ruínas de Almofala (MN) (Figueira de Castelo Rodrigo) (*)
Este edifício, que sempre foi enigmático, ao longo dos séculos, e que impressionou os viajantes pela sua singularidade, tem hoje a sua origem explicada; sabe-se agora que corresponde às ruínas de um templo romano dedicado ao Deus máximo romano; em 1997 identificou-se uma ara dos inícios do século I que diz o seguinte: “A Júpiter Óptimo Máximo – a cidade dos Cobelcos” (Helena Frade, 1998). Trata-se da etnia lusitana dos Cobelci, que tendo origem pré-romana, foi romanizada e aqui estabeleceu a sua cidade com estatuto de Civitates romana, era portanto, uma localidade capital de um território. As civitas possuíam uma certa autonomia com um conjunto de serviços, obrigações e direitos relacionados: administrativos, religiosos e fiscais. Até agora os vestígios arqueológicos apontam para uma cidade de pequena dimensão.
Perto no rio Águeda esvoçam os abutres, provavelmente descendentes, de outras aves que aqui iriam buscar restos de carne putrefacta, resultado dos sacríficos impostos pelos áugures, perscutadores de entranhas- já estou a delirar!
Em redor deste templo descobriu-se uma delicada mão feminina, em mármore, que corresponderia a uma estátutua com cerca de três metros de altura-poderia corresponder a deusa Juno?
Na alta idade média (século V a X) foi torre de vigia. Em 1165 é doada pelo Rei de Leão aos monges de Aguiar que fazem dela a sua atalaia devido a domínio visual, que assim poderiam ter sobre os seus férteis terrenos- seria verdadeiramente a Torre dos Frades de Cister. Funcionou como posto de vigia durante a Guerra de restauração e nesta foi arruinada.
Não posso deixar de descrever aqui uma bela lenda relacionada com a Torre.
Aqui vivia um fidalgo que um dia se aventurou nas arribas do rio Águeda durante uma caçada, vindo a ser surpreendido por um grupo de mouros que por ali rondavam. Na luta desigual, o nobre morre, mas um dos serviçais que o acompanhavam correu a avisar a sua esposa. Esta encontrava-se encerrada na Torre, pois a porta só poderia ser aberta pelo seu marido. Abeirando-se da janela e vendo os sarracenos a aproximarem-se, decidiu atirar-se da janela, implorando Santa Maria de Aguiar que a perdoasse e a levasse para o paraíso apesar do acto suicida, pedido que a Santa atendeu, colocando um cavalo alado que a amparou da queda e a levou para local seguro. Por agradecimento doou todos os seus bens à Santa e o chefe dos agarenos ao presenciar o milagre ficou tão impressionado, que se converteu a Cristo.
A base do templo, o podium romano, é constituída por pedras graníticas magnificamente aparelhadas, e a restante torre por litologias distintas (granitos, quartzitos e xistos) de outras épocas.
Em seu redor abundam inúmeros vestígios arqueológicos, mas o que não deixa de surpreender é a beleza serena do local a apelar aos nossos sentidos: com as aves de rapina ainda hoje a sobrevoarem-na, com o espelho de água tranquilo da Albufeira de Santa Maria (*), o verde dos prados e o multicolor das eflorescência primaveris, de certo modo, tuteladas por Jupiter e a sua esposa.
26-03-06
Mosteiro de Santa Maria de Aguiar (Figueira de Castelo Rodrigo (MN) (*)
No início o mosteiro terá sido beneditino e posteriormente pertenceu à ordem de Cister. Os monges desta Ordem foram aqui instalados pela grande fecundidade dos terrenos em redor; amigos como são da vida espiritual, da sabedoria mas também da actividade agrícola.
Este convento pertenceu ao bispado de Ciudad Rodrigo, tendo passado para a filiação do mosteiro cisterciense de São João de Tarouca aquando da integração das terras de Riba-Côa no território português. Foi sem dúvida o centro principal do desenvolvimento agrícola, cultural e religioso da região. Foi bastante devastado quer nas invasões francesas quer na época das invasões liberais, tendo o cenóbio encerrado em 1840.
O edifico actual é ainda de uma grande pureza arquitectural, construído nos estilos de transição do românico para o gótico. O seu interior é espaçoso, mas despido e frio, sem ornamentos de distracção (à excepção do retábulo barroco). No século XVI foram realizadas algumas intervenções das quais ficaram marcas como é o caso da porta manuelina que liga o transepto à sacristia.
No século XVIII foi construído o monumental retábulo barroco. e colocado as armas cistercienses e do escudo na hospedaria. Esta foi transformada, durante as invasões Francesas em hospital militar pelas tropas inglesas e hoje constitui uma unidade turismo luxuosa. Deverá ter albergado os peregrinos que se dirigiam a Santiago de Compostela.
A sacristia tem um pequeno museu arqueológico onde podemos ver a Santa Maria de Aguiar, a tal da Batalha das Salgadelas.
Nele viveu e morreu em 1617 o cronista mor do reino Frei Bernardo de Brito.
O claustro já não existe, mas ainda permanecem as celas e a casa do capítulo, este de grande beleza. O viajante versado em templarismo, não pode deixar de admirar as lápides funerárias destes misteriosos cavaleiros, expostas na casa do capítulo, e interrogar-se acerca da sua origem.
Viriam do cemitério de Mata de Lobos, apenas a meia dúzia de quilómetros do Mosteiro, onde existe a Capela de Santa Marinha (IIP), que foi pertença da ordem de Cristo, herdeira da Ordem dos Templários? Segundo a tradição existiria aqui um mosteiro templário. Na capela de Santa Marinha a cachorrada é bastante interessante e apelativa aos prazeres do corpo.
O Mosteiro de Santa Maria de Aguiar é um dos monumentos mais importantes desta região.
Batalha das Salgadelas (Castelo Rodrigo)
Durava a Guerra da Restauração havia 24 anos quando Castelo Rodrigo teve oportunidade para compensar e limpar o deslustre que injustamente sofria desde 1580 pela infâmia de seu filho e governador - Cristóvão de Moura.
Entre incursões fronteiriças, escaramuças e saques mais ou menos importantes em que a guerra então se alongava, o duque de Ossuna cercou Castelo Rodrigo com 5000 homens e 95 peças de artilharia em Julho de 1664. Defendiam o castelo escassos 150 homens a bater-se como feras, mas incapazes de sustentar o assédio por muitos dias.
O general da Província, o aventureiro Pedro Jacques de Magalhães, estripado em algumas partes do corpo pelas muitas campanhas bélicas em que participou, conduzia a luta raiana a partir de Almeida e, ao saber do ataque logo marchou com cerca de 3000 soldados.
A Batalha das Salgadelas decorreu a sete de Julho de 1644. Quando chegaram à sorrelfa, deu ordens secretas para os de Castelo Rodrigo investirem com os seus 150 homens (??) sobre os inimigos. O duque de Ossuna achou prudente retirarem-se para a Salgadela (Mata dos Lobos) onde foram atacados de supresa por Pedro de Magalhães desbaratando os sitiantes. Ossuna e Dom João da Austria, que viera auxilia-lo – dizem que se vestiram cobardemente de frades no Mosteiro de Aguiar e fugiram para Espanha com os restos da infantaria. Foram feitos muitos cativos e tomou-se a artilharia espanhola. O número de invasores perecidos ultrapassou o milhar.
Salgadela é o nome dado ao campo da batalha, à vista das muralhas de Castelo Rodrigo e situa-se a 2 km de Mata de Lobos. Aqui foi erguida, logo a seguir à batalha, a Cruz de Pedro Jacques, em memorial do sucedido. Está classificada como Monumento Nacional. Os portugueses cépticos em relação à nossa independência, deveriam conhecer este local e virem aqui a sete de Julho.
Associada a esta vitória, reza a lenda que durante a batalha, os soldados espanhóis viram a imagem de Nossa Senhora entre os portugueses animando-os na luta e parando num açafate as balas disparadas pelo exercito inimigo, provocando o pânico entre as hostes invasoras e dando alento aos nossos heróis. Um facto é real: os frades do Mosteiro acompanharam Pedro Jacques com a imagem da Santa invocando a sua protecção. Esta lenda é semelhante à da Batalha de Campo de Ourique.
Estranha Santa esta, que na Batalha de Castelo Rodrigo, serviu para aniquilar as gentes Espanholas, tão ou mais fervorosamente cristãs do que as Portuguesas! Quem a quiser conhecer, deve dirigir-se ao Convento de Santa Maria de Aguiar.






