07-09-07
Painéis de Azulejo da Estação de Caminho de Ferro de Vilar Formoso (Almeida) (*)
A estação do Caminho de Ferro de Vilar Formoso, foi inaugurada em 3 de Agosto de 1882 pela família Real- o rei D.Luís, a rainha D.Maria Pia e o príncipe D.Carlos, em conjunto com a linha da Beira Alta que, vinda da Pampilhosa, ali desembocava. Deve ter sido um dia muito festivo para os povos raianos, que olhariam o futuro com esperança - afinal de contas, passado 125 anos a Beira Interior não desenvolveu e continua agonizante – “apesar da crueza dos factos, as sonoras locomotivas a vapor, possibilitaram algum progresso comercial a Vilar Formoso - surgiram as pensões, casas de pasto, boticas, depósitos de recolha e despacho de mercadorias. Instalou-se uma alfândega de primeira classe e uma secção fiscal. Instalaram-se funcionários públicos, pois a fronteira significou burocracia no controlo de passageiros, revisão de bagagens e cobrança de taxas. De repente o anónimo lugarejo acordou como categorizado entreposto comercial e administrativo, vendo perdida a aquietação habitual.
Agora os automóveis passam céleres pelo asfalto da A25, Vilar Formoso é por isso um povoado ferido pelas mudanças ditadas pela União Europeia e pelo acordo de Schengem. Sem fronteira não há despachos, conferências, taxas e coimas a aplicar. Escoou-se a necessidade de pernoitar e alimentar na Vila.
Na sua demanda a Espanha, ou na sua vinda, se tiver algum tempo disponível, visite a estação de caminho de ferro, e deixe-se encantar com a imponência do edifício e os painéis de azulejo embutidos nas paredes (*). É um dos mais belos conjuntos azulejares portugueses do século XX, representam paisagens típicas e alguns dos mais belos monumentos de portugueses (Mosteiro da Batalha, Alcobaça, Sé Velha de Coimbra, Sé da Guarda, igreja da misericórdia de Mangualde, …). Foram executados na fábrica viúva Lamego, Lisboa, em meados do século XX.
São contudo de valor desigual e de autores diferentes. Belíssimos e monumentais, são por exemplo, os painéis dos lavabos, que retratam os banhistas na praia da Figueira da Foz; infelizmente atenuados, por não estarem na zona nobre da estação e à sua frente terem feito a construção de um edifício sem nexo. Alguns azulejos são atribuidos a João Alves de Sá (não sei se são o melhor ou o pior conjunto de azulejos!).
Aqui trabalhou Júlio Resende, em 1958, no início da sua carreira, um dos maiores pintores portugueses - o mesmo que, por exemplo, elaborou a “Ribeira Negra” (1986) (*) no Centro Histórico do Porto (*****)- os seus painéis, entretanto desaparecidos, deveriam ser restaurados, de acordo com o parecer e gosto do mestre, o que tornaria Vilar Formoso mais apelativo.
Estas representações azulejares, pintadas durante o século XX, nesta e noutras dezenas de estações de caminho de ferro do País, associavam-se à apologia propagandística do Estado Novo que pretendia afirmar-se nos arquétipos da identidade e valores nacionais- os painéis davam (dão) aos visitantes noções básicas do que poderá visitar em Portugal e também representavam o labor agrícola do povo. Enfim, são bons anúncios turísticos feitos, em muitos casos, com mestria.
Épocas marcantes em Vilar Formoso são as levas da 2ª Guerra Mundial, quando os comboios se dirigiam para a Espanha ou vinham com refugiados (terão passado por aqui centenas de Judeus salvos por Aristides Sousa Mendes). Já nos anos do último quartel do século XX a vaga migratória nacional tem como referência a estação e o nome de Vilar Formoso como símbolo de um último adeus à terra pátria.
Visite a Estação de caminhos de Ferro de Vilar Formoso e reflicta na beleza que é Portugal - um verdadeiro Éden à espera que os Portugueses elaborem o seu Paraíso terreal.
11-06-07
Termas da Fonte Santa (*) (Almeida)
Perto de Almeida, na margem direita do selvático rio Côa, numa paisagem de penedia granítica e solos incultos, existe uma nascente de água minero-medicinal de grande qualidade; devido ao seu grande poder curativo e até “milagroso”, no sentir do povo, este designou-a por Fonte Santa.
A emergência já era referida em texto do século XVIII; “usam dela os moradores para sarnas, comichões, pruridos, chagas rebeldes e corrosivas, assim tomando banhos, como lavando com ella as partes exulceradas ou pruiginosas…) e por isto útil para os que padecem de afectos hipocondriacos, flatos melâncolicos e queixas rufriticas”.
Apesar de fracamente mineralizada, a agua é fria (19ºC), bicarbonatada sódica sulfúrea, sendo recomendada para o tratamento de problemas articulares, laringites, bronquites, sinusites e acessoriamente actua como cicatrizante, desintoxicante e estimula de uma maneira geral o nosso metabolismo (confirmação em fase de testes).
Foram pela primeira vez registadas pelo médico do Reino dos Hospitais Militares da Praça, General Perdigão em 1905; actualmente pertencem a Câmara Municipal que felizmente, decidiu requalifica-las e coloca-las ao dispor de uma maior número de utentes (no ano de 2006 fizeram tratamentos no local cerca de 1000 pessoas). Para substituir o complexo pré-fabricado, está em construção um novo edifício termal que será um magnífico espaço, confortável e de grande qualidade arquitectónica; em 2008 as termas já deverão estar a funcionar em pleno.
As águas brotam de fracturas graníticas, sendo actualmente captadas de um furo com uma profundidade de 19 metros.
O local é aprazível, selvagem e agreste com o rio Côa ainda mediano, mas compulsivo e ruidoso. Mesmo que o leitor não padeça de nenhuma das enfermidades indicadas o local merece a sua visita.
Será uma oportunidade para Almeida se valorizar e ao aumentar o seu afluxo turistíco-para isso será também necessário o investimento de privados em instalações hoteleiras, tendo em conta o mercado espanhol.
O local é aprazível, selvagem e agreste, com o rio Côa ainda mediano, mas compulsivo e estridente. Mesmo que o leitor não padeça de nenhuma das enfermidades indicadas o local merece a sua visita.
25-02-06
Fortaleza de Almeida (***) (III)
Almeida é uma das doze Aldeias Históricas de Portugal e pretende candidatar-se a Património Mundial da Humanidade. Obviamente que nada tenho a opor, mas vou fazer duas sugestões.
A Praça-Forte poderia ter uma candidatura conjunta com o Real Fuerte de la Concepción (**). São duas estruturas análogas e rivais, que simbolizam o extenso período de conflitos hispano-portugueses. Ambas as construções estão eivadas de racionalidade e equilíbrio construtivo, típicas da arquitectura militar abaluartada. Apesar de muito distintas na forma (confesso que a “nossa” fortaleza é muito superior em dimensão e conservação) são ambas belíssimas. A candidatura simbolizaria a recente fraternidade entre os dois povos e faria acrescer o fluxo turístico espanhol a Almeida.
Uma outra hipótese, seria candidatar todo o conjunto das doze Aldeias Históricas beirãs, incluindo Almeida, a Património Mundial da UNESCO, e relacioná-las com uma das mais antigas fronteiras entre nações da humanidade. Seria uma enorme mais valia para todo o interior de Portugal; a candidatura teria à força de um todo nacional. O turismo é uma das salvações para toda esta belíssima região.
O conjunto inserido dentro do sistema de fortificações, é uma estrutura ordenada e mesmo regular de ruas direitas e largos bem abertos e definidos. É um vasto conjunto harmónico de edifícios do século XIX com influência castrense, na sua rígida geometria de formas e que tem sido muito bem restaurado ao abrigo do programa das Aldeias Históricas. Entre os edifícios intramuros destaco: o Quartel das Esquadras, os alicerces do antigo castelo manuelino, a Pousada, a Casa da Roda, o Picadeiro de El´Rei e os edifício dos Paços do Concelho (Antigo Quartel da Artilharia).
Antes de terminar, quero dizer aos leitores que já elegi o meu lugar para meditar em Almeida, e no meu caderno de viajante, tirei alguns apontamentos que me serão úteis nestas humildes “entradas”.
É no baluarte de Santa Bárbara, também conhecido como Praça Alta; pequena plataforma lajeada de uma bateria com algumas árvores que me fazem sombra. Escuto algumas aves, a primavera está próxima. Medito sobre a condição humana. Dialogo com John Beresford.
- Como explicas caro tenente, que toda a arquitectura militar, exerça sobre mim, o mais pacífico e pacifista cidadão, tão estranho fascínio?
Respondes-me por intermédio de Lord Byron, teu conterrâneo- “Depois do sofrimento e horror, que culminou na minha morte, a beleza renasceu e envolveu-nos”.
Se nos três próximos anos vier para aqui desterrado, ter-me-ás por companhia, mas apenas para cavaquear; prometo que não te sentirás desamparado, e em Janeiro colocarei uma pequena flor na tua lápide, a relembrar a tua última viagem no ano de 1812.
Fortaleza de Almeida (***) (II)
A colina Almeida terá sido provavelmente um povoado proto-histórico romanizado com ocupação constante até aos nossos dias.
A povoação árabe chamava-se Talmeyda, que significava mesa, exprimindo bem a topografia da sua implantação; em constaste com a altaneira Marofa, ao fundo, que nessa mesma língua significava “guia”.
Fadada para sofrer guerras, passou várias vezes de mão sarracenas a cristãs, e vice versa. E mesmo nas mão de cristãos as compitas continuaram, desta vez entre leoneses e portugueses. O inevitável Dom Dinis assegurou a sua posse definitiva em 1297 pelo tratado de Alcanices.
Dom Manuel I ordenou novas ampliações na fortaleza e a remodelação do castelo manuelino, arrasado por uma explosão em 1810. As escavações arqueológicas, puseram em evidência as suas ruínas, com o seu enorme fosso. O castelo era belíssimo, como se pode constatar pelos desenhos de Duarte de Armas e esteve envolvido na sua reforma o genial arquitecto do Mosteiro da Batalha (*****), Mateus Fernandes.
Mas foi a partir da Guerra da Restauração que a praça foi sendo (re) construída até aos finais do século XVIII, sendo o risco final do Conde Lippe.
Quem quiser conhecer uma praça fortaleza, tem tudo aqui e quase intacto: Baluartes, revelins, fossos, monumentais muralhas, hospital de sangue, canhoerias, plataformas, flancos de bastião, túneis abobadados, portas à prova de Bomba, quartéis, paióis, depósitos, forjas, oficinas, casamatas, edifícios de Estado-Maior ...
Foi constante a participação da Praça-Forte de Almeida, nas campanhas da Restauração seiscentistas e nas guerras napoleónicas.
Aqui está uma pequena história como exemplo. Massena quis iniciar a 3ª invasão francesa com vitória prestigiosa e veio assaltar Almeida. Estabeleceu cerco e na madrugada de 26 de Agosto de 1810 abriu fogo. Ao fim da tarde, dois projécteis caíram no velho Castelo sobre pólvora deixada no chão, que serviu de rastilho. A terrível explosão arrasou parte da vila, a igreja matriz e o Castelo medieval e matou cerca de 500 pessoas e abriu várias brechas na muralha. Ainda prosseguiria a resistência até à tarde do dia seguinte, mas por fim a praça capitulou.
No século XIX, durante o período das lutas liberais (1832-1834), mais uma vez a localidade é palco de confrontos pela posse desta Praça. Esta transitou entre Absolutistas e Liberais, servindo as Casamatas de prisão para 1500 presos políticos.
Só em 1927 a fortaleza deixou definitivamente de ter funções militares.
Já não se ouvem agora rufares de tambores, ritmos de marchas de parada, gritos feéricos ou o ribombar dos canhões, mas os baluartes de Almeida são ainda um bastião da nossa nacionalidade, que nos deve recordar de sobremaneira para aquilo que não podemos perder - o orgulho de sermos portugueses...E “Alma até Almeida”.
Um agradecimento especial ao amigo José Luís Mendes por me ter cedido esta magnífica fotografia.
Fortaleza de Almeida (***) (I)
Almeida é uma lição em pedra da arquitectura militar barroca e é também um espaço de imensa evocação histórica.
Esta fortaleza, é a par com a de Valença do Minho (**) e as de Elvas (***), a mais monumental das nossas praças de armas abaluartadas.
Indico apenas alguns números impressivos, para que não cesse o seu desejo de aqui vir e testemunhar uma das mais pungentes e melhor conservadas relíquias militares da Península Ibérica. A profundidade do fosso, alcança doze metros com a largura mínima de 10 m, e máxima de 62 m. A área total da Praça é de 650000m2 e o seu perímetro é de 2500 m.
A praça forte em vista área é uma estrela monumental com doze recortes (seis baluartes e seis revelins), não muito simétricos.
“Como em todas as praças do tipo Vauban, o polígono é geometricamente recortado em reentrâncias e saliências angulares agudas, que obedeciam aos princípios estabelecidos de enfiamento e cruzamento de tiro de táctica do século XVII e XVIII. Os taludes de terra assentam em muros aparelhados de granito, de leve inclinação.
Cada ângulo do polígono remete para o exterior, em forma de lança, um baluarte: baluarte de São Pedro, baluarte da Bandeira, do Trem, de Santa Bárbara, de São João de Deus e de São Francisco. Em face das cortinas e entre cada par de baluartes, erguem-se como pequenos fortins insulares, acessíveis pelo fosso, os revelins (da Cruz, da Brecha, de Santo António, do Paiol, Doble e dos Amores)”1.
O acesso da Praça faz-se, por duas portas duplas (São Francisco e Santo António), colocadas em revelins, abertas em túnel, com abóbadas à prova de bomba e que ostentam as armas reais. Apesar de terem uma austeridade castrense não estão isentas de beleza.
Nos relvados delicados do fosso entre revelins e baluartes, pastam pequenos rebanhos e brincam os rapazitos da vila. A toda a volta o planalto indefinido, que a norte encontra a muralha quartzítica da Marofa. É uma paisagem tranquila e rica de encantos, principalmente na Primavera, quando as searas ondulam por todos os lados. Aquela serena amplidão verde, contrasta com as cruéis batalhas do passado que avassalaram Almeida.
1-Retirado do Guia de Portugal-Beira II-Beira Baixa e Beira Alta, texto de Sant`Ana Dionísio-1984)
18-02-06
Almeida-Aldeia de Castelo Bom (*)
Quem viaja pela A25, perto da fronteira de Vilar Formoso, repara numa aldeia assente numa pequena colina. Trata-se de uma pequena povoação com vestígios históricos e que foi escolhida na década de 90 para ser Aldeia Histórica com outras nove localidades. No entanto, nas vésperas de ser anunciado o programa, foi substituída pela Aldeia de Piodão (**). O que terá acontecido?
Não obteve o dinheiro por este programa, mas conseguiu-o por outras vias e de certa forma requalificou-se, embora por vezes incongruentemente.
Próximo da localidade foi encontrada uma magnífica espada de bronze com idade entre (1600-1200 AC). Será que Castelo Bom foi um povoado da Idade do bronze? A dúvida poderá ser dissipada com estudos futuros.
Por ocupar uma importante posição estratégica sobre o rio Côa, deve ter tido uma ocupação contínua. Sabe-se que passou para a coroa portuguesa como dote da Rainha Santa em 1282.
Dom Dinis (re)construi o seu castelo e deu-lhe foral. O rei Venturoso ordenou novas obras e reformou-lhe o foral. Durante a guerra da independência foi importante como núcleo defensivo. É belo o desenho de Duarte de Armas que mostra duas linhas de muralhas, a cidadela, a torre de menagem e duas torres de plantas quadradas.
E hoje, o que é Castelo Bom ?
É uma pequena aldeia, encravada numa paisagem bonita, com muitos pormenores dignos de nota; deserta no áspero inverno e ocupada no tórrido verão.
Vêm-se ainda restos desmantelados do seu castelo: panos de muralha, a porta da vila, uma torre em ruínas, a bela cisterna (o “poço do rei”), um paiol, uma guarita e dois poços. Pela Aldeia encontram-se alguns bons edifícios dos séculos XVI e XVII e habitações alpendradas beirãs. Os edifícios da cidadela, quase todos, construídos em granito bem aparelhado, têm sido reparados pelo seus proprietários com algum esmero. As vistas são abrangentes e o ar é revigorante.
É uma bela aldeia que merece estudos mais aprofundados e ampla divulgação turística.
O meu bem hajam ao senhor Henrique, meu cicerone, que no final da visita me acolheu em sua casa para merendarmos, vinho, pão de centeio, muito presunto e delicioso queijo de Idanha.
11-02-06
Almeida-Castelo Mendo (**)-ii
Castelo Mendo deixou de ser sede de conselho em 1855, com a reforma liberal e a partir dai, não deixou de decair. Mas se pensarmos bem, a decadência já era anterior; deste modo se pode explicar que Massena, importante general de Napoleão Bonaparte, teve que enfrentar uma feroz guarnição de 19 homens sitiados na aldeia!
Em 1991, o governo de Portugal, e em boa hora, decidiu criar um programa para restaurar doze Aldeias Históricas da Beira interior, onde Castelo Mendo foi incluída; as restantes são: Trancoso (**), Almeida (***), Belmonte (*), Castelo Rodrigo (*), Castelo Novo (*), Marialva (***), Sortelha (**), Monsanto (***), Idanha-a-Velha (**), Piodão(**) e Linhares da Beira (***)).
Ao abrigo deste programa, Castelo Mendo foi relativamente bem restaurado, apesar de ainda existirem alguns pontos degradados (a Porta do Sol, a calçada medieval ou romana, alguns trechos da muralha, a Casa do Fidalgo, etc).
Mas os encantos não terminam quando saímos de novo pela Porta dos Berrões, por isso devemos reparar neste belo prado que se espraia á nossa frente. Estamos a contemplar a Devessa mais bem preservada de Portugal, e ainda hoje é utilizada. Devessa é o local de pastagem dos animais, junto às localidades, e que em Portugal existiram por exemplo, em Marialva, Penamacor, Ervedal da Beira e Castelo Branco.
Quando o espaço intra-muros se tornou pequeno demais para realização das feiras, estas passaram a realizar-se na Devessa. Ainda hoje se pode ver o Alpendre da Feira (IIP) e vários chafarizes que prestavam apoio à Feira e aos habitantes da povoação. A Fonte Nova foi mandada construir pelo rei Dom Dinis e as Memórias Paroquiais de 1758 referiam as suas águas como medicinais (em breve farei o seu reconhecimento); encontra-se semi-encerrada e selada. Para além dos fontanários, a Devessa tem também um pombal, o calvário (IIP), a capela do cemitério e várias amoreiras centenárias.
Trata-se de um comovente amoreiral primitivo e talvez a sua plantação remonte ao ano de 1472 no reinado de Dom Afonso V; pois este pediu a todas as comarcas que plantassem 20 pés de amoreira ou eventualmente as enxertassem em pé de figueira.
Esta região com as localidades de Castelo Mendo, Amoreira, Pinhel, Almeida, Vila Nova de Foz Côa, Castelo Rodrigo, Parada..., foi um dos três principais centros produtores de seda de Portugal.
Durante algum tempo as mulheres cuidavam dos ovos do bicho-da-seda como se fossem filhos. Colocavam-nos em sacos de camurça e usavam-nos ao peito até as crisálidas nascerem e o fio da seda era extraído dos casulos. O “fio de luxo” nascia assim numa região agreste. Para os produtores locais ficava a seda de qualidade inferior, chamada “maranhos”, resultado dos casulos rasgados pelas crisálidas.
Tenho que usar este post para fazer uma recomendação. Gostaria de ver criado um museu nacional da sericicultura na devoluta Casa do Fidalgo, inclusive com produção artesanal de seda e tecido; e já agora gostaria que mais amoreiras fossem plantadas nas ruas, praçetas e jardins das localidades da região.
Antes de abalar, estacione o automóvel no alto da estrada e não deixe de observar a beleza solitária de Castelo Mendo, e parta com a impressão que a localidade merece o seu regresso.
Almeida-Castelo Mendo (**)-I
Se quiseres conhecer uma antiga vila medieval fortificada, bem preservada, e entenderes melhor a história da Beira Interior deves dirigir-te a Castelo Mendo. Está situada numa região obscura do teu País e na primavera enche-se de mil encantos.
Está assente num esporão rochoso e foi um povoado proto-histórico romanizado e posteriormente uma vila medieval. Castelo Mendo tem dois núcleos distintos, ambos muralhados. O mais antigo é formado pelo castelo, a igreja de Santa Maria do Castelo, a cisterna e a casa da Câmara (que foi também tribunal e cadeia e é actualmente o museu local). O núcleo mais recente apresenta um traçado irregular, com as habitações repartidas em torno das Igrejas de São Pedro e São Vicente e distribuindo-se ao longo da rua Direita.
A cerca tinha seis portas, tendo actualmente três. Não fiques espantado com a sua reduzida dimensão, hoje é uma Aldeia, mas na Idade Média tinha tamanho suficiente para ser uma Vila categorizada. E foi aqui, espanta-te leitor, que foi realizada a primeira feira oficial do Reino, concedida por foral de D. Sancho II em 1229, assinado em Vila do Touro, com três realizações anuais – Páscoa, São João e São Miguel - tendo cada uma a duração de oito dias.
Dom Dinis deu também foral, reconstruiu as muralhas, o castelo e instituiu uma Feira Franca na Devessa.
Relembro que do outro lado do Côa, e até à assinatura do tratado de Alcanices em 1297, habitavam os inimigos leoneses e por isso Castelo Mendo ocupava uma posição estratégica na defesa da recém nascida nação portuguesa.
Agora chegaste, estacionas-te o automóvel e estás defronte à porta principal. È gótica, flanqueada por duas torres quadrangulares, que ostenta nos seus lados dois monumentos da cultura pré-romana. É um admirável casal de zoomórfos graníticos (porcos ou javalis), com curiosas “covinhas” datados de IV AC e que viram os seus “focinhos cortados por se atemorizarem as bestas que nelas faziam reparo”.
Nos cubelos vais encontrar dois painéis curiosos que informam que Mário Soares e Cavaco Silva visitaram Castelo Mendo, no século XX na década de noventa. O primeiro era Presidente da República e o segundo Primeiro Ministro. As voltas que o tempo dá.
Intra-muros vais encontrar diversos valores arquitecturais: edifícios dos séculos XVI e XVII, o antigo hospital da Santa Casa da Misericórdia, marcas da peregrinação a Santiago de Compostela, casas de cristãos novos, um pequeno museu local, que foi o antigo tribunal, cadeia e câmara, (e que tem algumas peças romanas -moedas, moinhos, fíbulas, pontas de projécteis...), três igrejas (duas delas com restos de tectos mudéjares), para além de alguns apontamentos interessantes do reduto defensivo (muralhas, torres e o castelejo com a sua óptima cisterna medieval) e recantos castiços espalhados por ruas mediévicas com belos panoramas em pano de fundo. Inesquecível!
04-02-06
Foto retirada do site da DGMN
Locais Notáveis do Concelho de Almeida
Fortaleza de Almeida (MN) (Aldeia Histórica)(***)
Castelo Mendo (Aldeia Histórica) (MN) (**)
Aldeia de Castelo Bom (MN) (*)
Águas minero medicinais da Fonte Santa no rio Côa (*)
Painéis de Azulejos na Estação de Caminho de Ferro de Vilar Formoso (*)
Outros locais com algum interesse turístico
Ponte Grande sobre o Côa
Igreja de Leomil
Fonte "romana" de Leomil
“Barrocos” na margem esquerda da ribeira das Cabras na Parada do Côa
Igreja de Malhada Sorda (IIP)
Convento da Quinta da Barca (Almeida)
Conjunto patrimonial e paisagístico de Malhada Sorda
Casa habitada por Wellington na Freineda







