08-07-07
Ponte de Sequeiros (Sabugal) (IIP) (*)
Como são imponentes as pontes
A ponte é sustentada por três arcos plenos, sendo o central o de maior diâmetro ladeado por dois talha-mares, tabuleiro rampante facetado e parapeito em cantaria. O pavimento é lajeado com continuidade em calçada; mas o que a distingue das demais é apresentar uma torre de planta quadrada com vão em arco pleno de ambos os lados e que materializava o dispositivo militar de defesa da portagem fronteiriça entre o território nacional e o Reino de Castela e Leão, antes da assinatura pelo Rei Lavrador do tratado de Alcanices. Juntamente com a Ponte da Ucanha (***) é uma das duas pontes fortificadas existentes no País.
Parado no meio da ponte o rio lampeja, revoluteando em marmitas de gigante, as margens eivadas de vegetação rípicola diversa. Não existe silêncio, a corrente líquida ressoa no granito, a evocar lembranças aterradoras, espectros que ali mesmo poderão ter morrido afogados, numa luta desesperada com as águas, clamado em vão que lhe acudissem- quem sabe resquícios de fronteiras que o Homem impõe a si mesmo- ali Castela, acolá Portugal!
Mais um local para um retiro estratégico do mundo, nesta Beira moribunda- quem a salva? À Beira, claro, porque a ponte está para durar mais alguns milénios.
"Falta de rigor científico"
"Difícil é escolher entre os Jerónimos e a Torre de Belém", como confessava ao JN Maria João Ribeiro, a designer responsável pela imagem da emissão em selos dos 21 monumentos portugueses candidatos.
Menos entusiasta do concurso, o arquitecto Manuel Graça Dias considerou "um pouco tonto pretender reduzir a uma espécie de síntese histórica as grandes obras. Se me tivesse dado ao trabalho de votar, talvez escolhesse o conjunto da Universidade de Coimbra, pelo somatório de épocas e pela integração harmoniosa na cidade".
Mesmo antes do anúncio das maravilhas vencedoras, o concurso já está a dar polémica, tanto a nível internacional como nacional. Em Portugal a iniciativa não é pacífica.
Desde o início houve um coro de vozes dissonantes. Uma das mais mediáticas é a do arqueólogo Cláudio Torres, director do Campo Arqueológico de Mértola e ex-representante de Portugal no Comité do Património Mundial da UNESCO. Diz "O concurso é uma iniciativa de um populismo barato. Não tem seriedade técnica nem científica".
Também o historiador Paulo Pereira, que, entre outros cargos, pertenceu à direcção do Instituto do Património Arquitectónico, o concurso "não tem rigor nem enquadramento científico". Daí que, logo de início, se tenha demarcado da iniciativa.
07-07-2007 21:08:32
O meu comentário pessoal
Concordo com o Paulo Pereira e com Claúdio Torres, nada disto tem lógica, a não ser a de proporcionar um mero divertimento televisivo. Querem dois exemplos; como foi possível o Convento de Cristo em Tomar (*****) ou o Parque Arqueológico do Côa não terem sido integrados (*****) (e este nem na lista dos 21), ambos Património Mundial da Humanidade não terem sido incluídos nas sete maravilhas? E aparecer-nos um banal Castelo de Guimarães (*)- seria capaz de evocar dezenas de castelos mais grandiosos e belos do que o citado: Castelo dos templários em Tomar (***) tirando de barato o Convento, Montemor-o-Velho (***), Penela (**), Monsarraz (***), Marvão (***), Monsanto (****), Numão (**)...
Quanto a carga simbólica do espaço, enfim criação do Estado Novo! Nada tenho contra Guimarães que é indiscutivelmente uma das cidades mais belas de Portugal e cuja recuperação patrimonial é um exemplo para todos nós. Obrigado Guimarães.
Nada disto tem lógica. Mas não deixo de colocar aqui em quem votei:
Convento de Cristo (*****), Mosteiro da Batalha (*****), Mosteiro dos Jerónimos (*****), Mosteiro de Alcobaça (****), Torre de Belém (****), Universidade de Coimbra (***) e Ruínas Romanas de Conímbriga (***).
Nada disto tem lógica!
05-07-07
Locais Notáveis do Concelho de Oliveira do Hospital
Panorama do Monte Colcorinho (Capela da Nossa Senhora das Necessidades) (***)
Igreja matriz de São Pedro de Lourosa (MN) (**)
Ruínas romanas da Bobadela (MN) (**)
Capela dos Ferreiros, anexa à Igreja matriz de Oliveira do Hospital (MN) (*)
Santuário da Nossa Senhora das Preces em Aldeia das Dez (*)
Vales dos rios Alva e Alvôco (*)
Vila Histórica de Avô (onde se inclui o panorama das Varandas de Avô) (IIP) (*)
Lagaretas da Sobreda (*)
Estalagem de Santa Bárbara na Póvoa de S. Cosme (IIP) (*)
Ponte Medieval de Alvôco das Varzeas (IIP) (*)
Palheiras de Fiais da Beira (*)
Outros locais com interesse turístico
Igreja de Travanca de Lagos (IIP)
Penedo dos Três Pezinhos
Igreja paroquial de Santo André do Ervedal da Beira
Solar dos Viscondes do Ervedal da Beira (IIP)
Ponte Românica em Vale de Negros (Ervedal da Beira)
Panorama da capela da Nossa Senhora da Boa Viagem no Ervedal da Beira
Castro do Vieiro
Aldeia abandonada do Vieiro
Anta da Cavada (Fiais da Beira)
Casa dos Mouros/Casa do Penedo (VC) (Nogueira do Cravo)
Tileira classificada no Adro da Igreja matriz de Oliveira do Hospital
Parque do Mandanelho em Oliveira do Hospital
Senhor das Almas
Casa Museu Cabral Metelo em Oliveira do Hospital
Pousada do Convento do Desagravo (Vila Pouca da Beira)
Panorama da estrada Ponte das Três Entradas-Aldeia das Dez
Anta do Pinheiro dos Abraços (IIP) (Bobadela)
Igreja Paroquial de São Gião
Anta da Arcaínha (IIP) (Seixo da Beira)
Anta de Curral dos Mouros (IIP) (Sobreda)
03-07-07
Espaço sagrado de São Pedro de Vir-a-Corça-Monsanto (IIP) (Idanha-à-Nova)-(2ªParte)- (**)
O topónimo do local está relacionado com a lenda da criança salva pelo demónio por Santo Amador, que ali se refugiava do mundo, e que a amamentou com leite de corça quatro vezes ao dia.
Na tradição popular, São Pedro é transformado em eremita. Assim se compreende que uma das mais lindas ermidas, numa das mais lindas paisagens, seja dedicada a São Pedro. Será São Pedro o Santo Amador?
A corça é consagrada a Diana (Artémis grega), a rainha dos bosques, que percorre todos os recantos dos prados, montes e vales. Diana era cultuada em templos rústicos nas florestas, como este, onde os caçadores lhe ofereciam sacrifícios.
Também associo Flidias ao local, a Deusa celta da Sensualidade e Senhora das Florestas- portanto sua protectora. Um dos símbolos dos seus é a...corça.
Além de sua graça e beleza, a corça simboliza a virgindade e pureza. Flidias tinha também como símbolos, a erva, as árvores e as nascentes, possuía ainda uma vaca (?) mágica cujo leite era capaz de alimentar diariamente centenas de guerreiros durante as guerras celtas.
Vem-me ainda à memória Sertório, que se fazia acompanhar por uma corça branca que lhe segredava instruções militares. Se trocarmos as palavras temos: Corça vira São Pedro, ou seja o culto da Corça vira o culto de São Pedro- mera divagação de Paulo Loução?
Desculpe-me o leitor mais erudito na minha tentativa vã de estabelecer nexos onde eles provavelmente não existem, mas é para aqui que dá a minha imaginação e quando escrevo não posso deixar de ser eu.
Se do culto das pedras (loca sacra) já falamos, resta falar do culto da água. Existia no local uma nascente de água termal, a que a tradição atribui propriedades milagrosas, desapareceram (?) com o terramoto de 1755, o que nos leva a pensar em importante fractura geológica activa! Mas paremos de especular que da geologia de Monsanto pouco sei; certo, certo é que por aqui também ocorreu o culto da água medicinal. Tenho que tentar vislumbrar nas rochas (pedras?) resquícios desta mítica e desaparecida fonte e, se tal for possível, indagar as suas características.
Espaço estranho, é aquela clareira, rodeada por fraguedo granítico, onde se entra por átrio monumental, no centro restos de fogueira, cruzes, ramos de maias entrelaçadas, lembro que São Pedro de Vir-a-Corça é hoje visitado por “druidas” modernos, que vem de todo o mundo, á procura da litoratria e da hidrolatria (ignorada), em comunhão com o recém (!) espaço cristão. Sentado no solo da clareira à espera que por detrás de um penhasco apareça Diana, também me contentava com Flídias.
Este espaço, com os sons da natureza, o verde, Diana, Flídias, o gigantesco caos de blocos, a capela românica, as estranhas tinas, tafonis, e o sombreado do maravilhosos chaparral, convida-nos à introspecção e para os crentes no além, em sentido lato, numa experiência religiosa única.
Termino com a frase de Maria Adelaide Neto Salvado.
“ Em São Pedro de Vir-a-Corça perdura, dum modo diríamos palpável, o espírito do lugar, o geniu loci, que conferiu a este lugar a particularidade de Santuário, pois aí se respira hoje, muito densamente, esse sentimento do Sagrado.”
PEREIRA, Paulo – Enigmas Lugares Mágicos de Portugal. Templários e Templarismo. Vol V III , Círculo de Leitores, 2005.
01-07-07
Espaço sagrado de São Pedro de Vir-a-Corça-Monsanto (IIP) (Idanha-à-Nova)-(1ª Parte)-(**)
No sopé da encosta escarpada sobre a qual se ergue a Aldeia Histórica de Monsanto (***) encontra-se a Ermida de São Pedro de Vir/Ver-a-Corça, completamente isolada num bosque de sobreiros e rodeada por colossos blocos graníticos dispostos caoticamente -terá aqui o caos uma razão para existir? Fico a aguardar a sua resposta!
Poderíamos incluir o local como fazendo parte do conjunto histórico, “mistérico” e de beleza impar que é o Mons Sanctus - uma das mais belas aldeias europeias. Mas a aldeia está lá em cima, erguida no topo de uma imponente inselberge granítico com 758 metros de altitude, que declina em escarpa abrupta em cerca de 300 m para o lugar que agora visitamos; e eu estou cá em baixo, a olhar embevecido para esta impressionante fortaleza medieval, que daqui, parece uma construção mágica associada aos gigantes dos romances de cavalaria.
O lugar é esplêndido, marcado pela arquitectura rude e singela, mas inesperada, daquela capela românica, pelo bosque sublime e também pelas enormes fragas boleadas que ampliam a monumentalidade do lugar e a fusão entre a natureza e o sagrado.
A igreja, que se constitui desde cedo como local de romaria e de feira, pelo menos desde os finais do século XIII (Dom Dinis concede carta de feira em 1308, consagrando provavelmente um uso existente), foi fundada entre os séculos XII e XIII de veneração associada ao São Pedro. Em 1613 constituir-se-á mesmo uma irmandade de São Pedro. Possui planta rectangular, com três naves definidas por quatro colunas jónicas, duas de cada lado e com abside e absidíolos rectangulares, denunciados volumetricamente pelo exterior.
Na fachada uma rosácea emoldurada por motivos geométricos com quadrifólio central e 8 arcos trilobados radiais. A norte, encostada a capela, existem sepulturas medievais cavadas na rocha.
A torre sineira defronte, em arco de volta perfeita, sobrepuja-se a grande bola granítica. Ao lado, numa reentrância erosiva, aponta-se o local de uma gruta eremítica. Por cima grandes tanques, que poderão ser lagaretas ou tanques de ablução a deuses pré-históricos.
Alguns destes pios espalham-se pelos afloramentos, alguns isolados outros conjugados, em depressões circulares ou poligonais decimétricas de origem antropormófica, alguns com cruzes gravadas (a posterior sacralização objecto pagão?); outros são claros tafonis, que poderão ter tido utilização.
Podermos estar em presença de algo semelhante ao santuário de Panóias (***)? Ou serão simples tanques (reu)tilizados de apoio à feria medieval?
Quantidades imensas de cerâmica comum, prendem-se aos nossos pés arrastados, prováveis resto de utensílios usados para transporte dos produtos dos feirantes.
Em muitos casos, este geólogo, não destrinça aquilo que foi feito por mão humana daquilo que foi operado pelo alargamento natural de fracturas pela água, o “nosso” grande escultor!
Apetece-me brincar aos ermitas, esconder-me nestes estreitos antros naturais (alguns afeiçoados) como o nosso anacoreta Amador, e ficar aqui para sempre afastados da espuma dos dias de hoje (Continua).
Plano Estratégico de Coimbra uma grande hipocrisia?
Catarina Martins, Militante , do Bloco , de Esquerda
Encontra-se em discussão (dita) pública o Plano Estratégico (PE) de Coimbra. Nos fóruns organizados pela Câmara, coube a vez, esta semana, ao Turismo e Património. Nesta área, como nas restantes, os autores do PE revelam omissões, fraca criatividade, e ausência de uma visão integrada, que articule os diferentes domínios de intervenção. Assim, empreendedorismo restringe-se à saúde e às engenharias, sem tocar a cultura e o turismo; e a ciência surge como alavanca de empresas tecnológicas, mas nunca do turismo, o que demonstra ignorância, quer do potencial inovador destas áreas, quer das próprias dinâmicas existentes na cidade, como o Exploratório Infante D. Henrique (que nunca é mencionado), semente possível de um grande Parque de Ciência.
O PE identifica potencial turístico que salta à vista (o património histórico), bem como alguns vectores consensuais de desenvolvimento (o turismo de congressos), e falhas óbvias, como a falta de um centro de congressos e de oferta hoteleira e de restauração. Para ir mais longe, porém, seria necessário contemplar dinâmicas de inovação nesta área e abandonar a perspectiva elitista, que se focaliza exclusivamente sobre as camadas sociais de maior capacidade financeira. Desta premissa decorre, por exemplo, a ignorância da existência de um parque de campismo, a defesa de uma instalação hoteleira de cinco estrelas como investimento estruturante e do turismo de golfe como área estratégica. Mais uma vez, é imposto a Coimbra um modelo de desenvolvimento pré-formatado, ao invés de potenciar as especificidades da cidade. Para além das reservas ambientais que suscita, esta proposta é excrescente face aos campos de golfe projectados para a região (Figueira/Montemor, Mealhada/Anadia).
Outras tipologias turísticas seriam de considerar, como o turismo religioso (inserindo Carmelo, Rainha Santa e S. António na rota de Fátima) e, sobretudo, a do turismo cultural, numa dinâmica que transcenda o património e assente na intersecção deste com a criação artística local e numa produção de eventos de qualidade, inovadora e diferenciadora. Neste âmbito, os Encontros de Fotografia, que lamentavelmente já não existem (embora o PE desconheça este facto) foram um óptimo exemplo de um evento cultural endógeno, com um lugar singular no panorama internacional. Outro é o Encontro Internacional de Poetas, único no género (e que o PE também ignora). Por outro lado, propor parques temáticos, como faz o PE, ainda por cima sobre o tema de D. Inês, é recorrer a uma receita falida. De um plano estratégico exige-se uma reflexão ambiciosa, com projectos estruturantes. Um deles devia ser um enorme complexo patrimonial, cultural e turístico na Rua da Sofia e áreas envolventes, convertidas em zonas vivas de criação, formação e fruição cultural e artística, de dinamização turística e comercial, assente numa reabilitação de primeira linha do património único (colégios e cercas) que se encontra profundamente desprezado.
Quanto ao centro histórico, Coimbra só será competitiva em termos turísticos se a requalificação do edificado for modelar, ao nível das melhores práticas internacionais. Por isso, suscita sérias apreensões o modo como a Câmara, através da SRU e dos parceiros privados, tem conduzido o processo. Assistimos, recentemente, à demolição de um quarteirão da Baixa, sem garantias de preservação da sua memória histórica.
Por fim, o turismo em geral não será potenciado sem uma intervenção profunda ao nível do ordenamento urbanístico da cidade, tornando-a, no seu conjunto, num território com qualidade de vida e qualidade ambiental (com destaque para os espaços verdes) e bem organizado em termos de mobilidade. Veremos se o Plano de Urbanização responde a estas exigências, ou se o PE, além de muito fraco, não passa de uma enorme hipocrisia.
Catarina Martins escreve, semanalmente, no JN, à quinta-feira catisabel.martins@sapo.pt








