Portugal Notável

Valor Universal (*****) Muito Notável (***) Notável (*)

11-06-07

JARDIM BOTÂNICO (***) DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Até que enfim!... 

Tomei conhecimento, através da Imprensa, que foram aprovados em Abril passado, pelo Senado Universitário de Coimbra, os estatutos da Fundação Universidade de Coimbra, que vai gerir algumas estruturas (não propriamente docentes) da Universidade, como são, por exemplo, o Estádio Universitário e o Teatro Académico de Gil Vicente. A mesma notícia refere ainda que, provavelmente, a dita Fundação virá a assegurar a gestão de outras estruturas universitárias como, por exemplo, o Jardim Botânico. ATÉ QUE ENFIM!...
Há muito que tenho vindo a referir à presidente do Conselho Executivo do Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia (F.C.T.) da Universidade de Coimbra, professora doutora Helena Freitas, que a melhor solução para os gravíssimos problemas, particularmente orçamentais e funcionais, que assolam o Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, seria a criação de uma Fundação, pois, assim, a gestão do jardim seria automatizada e não dependente do ratio discentes/docentes, como é actualmente. Com o orçamento actual do Departamento de Botânica, que inclui o Jardim Botânico, e com o número de jardineiros actuais (meia dúzia, quando já foram cinquenta, durante a minha vivência profissional no Departamento), é impossível manter o jardim aberto ao público. Por isso, quando a professora Helena Freitas solicitou a minha opinião sobre a pretensão do Conselho Executivo encerrar o jardim ao público aos fins-de-semana, eu considerei que o deviam encerrar ao público todos os dias.
Um jardim botânico não é um jardim destinado ao lazer, ao “promenade” (desculpem-me o galicismo, mas é a palavra aplicável aqui) e à opulência (como alguns que conheço), como, aliás, já o Marquês de Pombal referiu em 1773, numa carta (5 de Outubro) que dirigiu ao, então, Reitor da Universidade de Coimbra (Francisco de Lemos) a propósito do projecto para o jardim botânico delineado por Domenico Vandelli (1735-1816) e Giovanni Antonio Della-Bella (1730-1823) e que transcrevemos na íntegra, pois é um documento extremamente elucidativo:
“Reservei até agora a resposta sobre a planta que esses professores delinearam para o jardim botanico, porque julguei preciso precaver a v. ex.ª mais particularmente sobre esta matéria.
Os dictos professores são italianos: e a gente d’esta nação, costumada a ver deitar para o ar centenas de mil cruzados de Portugal em Roma, e cheia d’este enthusiasmo, julga que tudo o que não é excessivamente custoso não é digno do nome portuguez ou do seu nome d’elles.
D’aqui veio que, ideando elles nesta corte, junto ao palacio real de Nossa Senhora da Ajuda, em pequeno espaço de terra, um jardim de plantas para a curiosidade, quando eu menos o esperava, achei mais de cem mil cruzados de despesa tão exorbitante como inutil.
Com esta mesma idéa talharam pelas medidas da sua vasta phantasia o dilatado espaço que se acha descripto na referida planta. O qual vi que, sendo edificado á imitação do pequeno recinto do outro jardim botanico, de que acima fallo, absorveria os meios pecuniarios da Universidade antes de concluir-se.
Eu, porém, entendo até agora, e entenderei sempre, que as cousas não são boas porque são muito custosas e magnificas, mas sim e tão sómente porque são próprias e adequadas para o uso que d’ellas se deve fazer.
Isto, que a razão me dictou, sempre vi praticado especialmente nos jardins botanicos das Universidades de Inglaterra, Hollanda e Allemanha; e me consta que o mesmo succede no de Parma, porque nenhum d’estes foi feito com dinheiro portuguez. Todos estes jardins são reduzidos a pequeno recinto cercado de muros, com as commodidades indispensáveis para um certo numero de hervas medicinaes e proprias para o uso da faculdade medica; sem se excedesse d’ellas a comprehender outras hervas, arbustos, e ainda arvores das diversas partes do mundo, em que se tem derramado a curiosidade, já vistosa e transcendente, dos sequazes de Linneu, que hoje têm arruinado as suas casas para mostrarem o malmequer da Persia, uma açucena da Turquia, e uma geração e propagação de aloes com differentes appelidos, que os fazem pomposos.
Debaixo d’estas regulares medidas deve, pois, v. ex.ª fazer delinear outro plano, reduzido sómente ao numero de hervas medicinaes que são indispensáveis para os exercicios botanicos, e necessarias para se darem aos estudantes as instrucções precisas para que não ignorem esta parte da medicina, como se está praticando nas outras Universidades acima referidas com bem pouca despesa: deixando-se para outro tempo o que pertence ao luxo botanico, que actualmente grassa em toda a Europa. E para tirar toda a duvida, pode v. ex.ª determinar logo, por sua parte, que Sua Magestade não quer jardim maior, nem mais sumptuoso, que o de Chelsea na cidade de Londres, que é a mais opulenta da Europa; e pela outra parte, que debaixo d’esta idéa se demarque o logar; se faça a planta d’elle com toda a especificação das suas partes; e que se calcule por um justo orçamento o que há de custar o tal jardim de estudo de rapazes, e não de ostentação de príncipes, ou de particulares, d’aquelles extravagantes e opulentos, que estão arruinando grandes casas na cultura de bredos, beldroegas, e poejos da Índia, da China e da Arabia.”
Depois de aprovado o novo projecto, em 1774, o Marquês de Pombal enviou a Coimbra o jardineiro do Real Jardim da Ajuda (Lisboa), Julio Mattiazi, como responsável pelo cultivo das plantas no jardim botânico. As primeiras plantas vieram do Real Jardim da Ajuda, tendo sido enviadas para Coimbra por via marítima e acompanhadas por João Rodrigues Vilar, que foi o primeiro jardineiro do Jardim Botânico de Coimbra.
Iniciou-se, assim, a relevante fitodiversidade do Jardim Botânico de Coimbra, que implicou, por razões óbvias, um enriquecimento em zoodiversidade não só na área do jardim, como também em toda a zona circundante.
O Jardim Botânico ocupa uma vasta área (±13,5 ha.) do Vale das Ursulinas, onde corre um pequeno regato que nasce em Celas, e é constituído por duas zonas fundamentais: uma, na parte superior do vale, ajardinada (parte pública) e outra na parte inferior do vale, mais arborizada (a Mata).
A primeira, a área mais formal do jardim, é constituída por alguns terraços em socalco. No socalco inferior está o designado “Quadrado Grande”, que constitui a parte mais primitiva do jardim. Aqui, existem três relevantes árvores que datam dos primórdios do jardim, em que Brotero foi director (1791-1811). São o abeto-da-china (Cunninghamia lanceolata), o cedro-do-japão (Cryptomeria japonica) e uma eritrina (Erythrina crista-galli). Estão ainda em óptimo estado e, por isso, constituem um valiosíssimo património biológico da Universidade. Porém, caiu, em 2000, a árvore que eu considerava a mais antiga do Botânico, a Cupressus macrocarpa, originária da Baía de Monterey (Califórnia), que se encontrava em frente ao refeitório. Esse cipreste-de-monterey talvez tivesse sido plantado antes da fundação do jardim botânico, pelos frades que viviam no convento, onde actualmente está o Instituto Botânico e o Instituto de Antropologia.
A maioria das árvores mais antigas e de grande porte foram plantadas entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, durante a direcção de Júlio Henriques (1873-1918). As árvores que atingem grande altura, mas que se situam na parte pública do jardim, isto é, fora da Mata, não atingem idades consideráveis, pois acabam por morrer electrocutadas por funcionarem como pára-raios. Actualmente, a árvore mais alta do Botânico talvez seja um exemplar de Araucaria rulei F. Muell. ex Lindl., próxima do portão da rua Vandelli, com mais de 50 metros de altura, logo seguida de um alto eucalipto (ca. 50 m), que é a árvore de maior biomassa do jardim (Eucalyptus obliqua), ao lado das escadas que dão para o portão do Seminário e, do outro lado destas escadas, está um outro extraordinário exemplar de eucalipto (Eucalyptus viminalis); outro enorme eucalipto (Eucalyptus cornuta) está no canto junto à confluência da Alameda Júlio Henriques com os Arcos do Jardim e, muito próximo deste, o eucalipto de maior diâmetro do Jardim (Eucalyptus globulus); e, igualmente referenciáveis, são os altos, belíssimos e odoríficos (cheiro a limonete) eucaliptos de casca cinzenta (Eucalyptus citriodora).
Além deste património vegetal, no Jardim Botânico de Coimbra habitam muitos animais, como os esquilos europeus (Sciurus vulgaris), toupeiras (Talpa europaea), morcegos, pequenos roedores, tendo já sido vista uma raposa (Vulpes vulpes), uma doninha (Mustela nivalis), coelhos-bravos (Oryctolagus cuniculus) e muitas aves. Das cerca de quatro dezenas de aves assinaladas, umas são sedentárias, outras invernantes e algumas nidificantes. Algumas das aves que habitam o jardim botânico são espécies raras e protegidas, como as rapinas nocturnas [bufo-real (Bubo bubo); coruja-do-mato (Strix aluco); coruja-das-torres (Tyto alba)], a rapina diurna [milhafre-preto (Milvus migrans)], o pombo-torcaz (Columba palumbus); o guarda-rios (Alcedo athis).; o gaio (Garrulus glandarius); o bico-grossudo (Coccothraustes coccothraustes) e, para finalizar, o raríssimo dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula), tendo já sido vistas, nos viveiros, perdizes (Alectoris rufa).
Claro que também há anfíbios (rãs, sapos e salamandras) e répteis (lagartos e cobras).
Além de toda esta biodiversidade, há a biodiversidade “inconspícua” (invisível), como os invertebrados. Um exemplo disso, foi a descoberta recente (2005-2006) de espécies novas para a ciência de aracnídeos, algumas ainda não publicadas (Nemesia bacelarae; Malthonica oceanica; Sintula iberica; Harpactea sp. nov.).
Manancial de biodiversidade
O Jardim Botânico de Coimbra, como grande parte dos jardins botânicos (cerca de 2.500) é um manancial de biodiversidade (vital para a nossa espécie), uma enorme “fábrica” de biomassa (fotossíntese), com um elevado contributo na despoluição ambiental (consumo de CO2 pela fotossíntese) e excepcional purificador do ar (pelo enorme volume de O2 produzido pela fotossíntese). Além disso, o Jardim Botânico de Coimbra faz parte da rede internacional de Jardins Botânicos (Botanic Garden Conservation International – BGCI), onde se estima que existem cerca de 100.000 espécies de plantas vivas, algumas em vias de extinção, e cerca de 250.000 preservadas em Bancos de Sementes. Estes jardins botânicos são, pois, extraordinárias reservas de biodiversidade e relevantes recursos para a respectiva conservação. Por outro lado, nos jardins botânicos faz-se investigação científica, fundamentalmente aplicada, e educação ambiental abrangente (não tradicional), com dimensão ecológica, económica, cultural e social. Um jardim botânico não é, pois, um jardim qualquer. É um Monumento Nacional e é uma Reserva de Biodiversidade em risco e um Laboratório de Propagação e Preservação da Biodiversidade.
Jorge Paiva - Biólogo

Posté par Castela à 03:28 - Notícias - Commentaires [1] - Permalien [#]

Commentaires

    sasd

    Posté par CArine, 19-02-13 à 12:05

Poster un commentaire