Portugal Notável

Valor Universal (*****) Muito Notável (***) Notável (*)

02-02-07

Museu da Ciência (*) da Universidade de Coimbra

No Largo Marquês de Pombal, Alta de Coimbra, é impossível ficar indiferente ao imponente edifício que alberga o Museu da Ciência. O segredo é entrar e partir à sua descoberta.
Quando se fala de Património Mundial, estatuto a que a Universidade de Coimbra pretende ascender, tem de falar-se de alguns emblemáticos e fundadores edifícios, espólios e tradições que lhe constroem a história de séculos. Vem, portanto, mais que a propósito a escolha do Museu da Ciência – Laboratório Chimico para integrar o ciclo “Coimbra – Uma candidatura a património mundial”, promovido em conjunto pela Livraria Minerva e pelo Rotary Club de Coimbra, Santa Clara.
E, na terça-feira, foi para uma plateia atenta que Paulo Gama Mota traçou o percurso fascinante de um edifício – o Laboratório Chimico – e de um projecto – o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra – que agora se encontraram num mesmo destino: o de tornar visível aos olhos de um público alargado um espólio científico de uma riqueza ímpar em Portugal, conferindo-lhe a unidade desejável dentro de um espírito de pluridisciplinaridade e abertura à sociedade e à problematização/compreensão de temas fundamentais nos dias que correm.
Para Paulo Gama Mota, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra – que viu concretizada em Dezembro último a sua primeira fase no Laboratório Chimico – pretende ser um local de divulgação, mas mais do que isso, pretende ser um local de diálogo entre a sociedade e os cientistas: a ciência que os cientistas produzem, o conhecimento que daí resulta e as problematizações que na sociedade se podem levantar e que surgem relativamente à forma como esses conhecimentos são ou não postos em prática.
Magnífico por si só, o Laboratório Chimico – a primeira janela que se abre sobre o grande projecto que é o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, cuja segunda fase prosseguirá no edifício fronteiro e igualmente notável que é o Colégio de Jesus – tem uma proposta concreta para apresentar ao público: uma exposição permanente que se subordina ao tema “Segredos da luz e da matéria”, na qual a equipa multidisciplinar que pensou o projecto procurou, através de vários processos e meios, transmitir conhecimentos sobre os dois grandes temas em causa.
Ainda de acordo com o director do Museu da Ciência, esses meios são, naturalmente, os objectos reais utilizados ao longo do tempo, quer para demonstração, quer para experimentação, e que são património da Universidade de Coimbra, nomeadamente ampolas de raio X, aparelhos de espectrofotometria, aparelhos cirúrgicos de laser... Enfim, conjuntos muito diversificados de equipamento de épocas diferentes e de diferentes áreas disciplinares. Mesmo porque, para Paulo Gama Mota, a exposição permanente do Museu da Ciência atravessa conhecimentos que vão da Astronomia à Física, passando pela Química, Biologia, Ciências da Vida, Mineralogia, até à Antropologia. No entanto, ainda que tenha este carácter abrangente, há um fio condutor na exposição: a luz e a matéria.
Tendo surgido num momento fundamental da história da Química – o final do século XVIII, quando Lavoisier a “transforma” definitivamente de “alquimia” em “ciência experimental” –, o Laboratório Chimico apresenta todas as características dos laboratórios da época: espaçoso, isolado, bem equipado, ordenado, seguro, bem ventilado, servido de água e fontes de calor.
No entanto, o edifício pombalino de Coimbra, “uma das mais importantes obras de linguagem neoclássica em Portugal”, é o único a chegar praticamente intacto aos nossos dias: situação que pontencia mais ainda a condição de “jóia” de uma coroa científica e patrimonial que, agora, num espaço candidatado a património da Humanidade, assume contornos verdadeiramente extraordinários.
Dada a natureza e as características do edifício, de acordo com Paulo Gama Mota, o museu conta também com a chegada de visitantes integrados numa rota específica de turismo cultural: para esses, além do catálogo, disponibiliza-se uma espécie de viagem virtual ao interior do edifício no século XVIII e XIX.
Entre a guerra e a paz
A pia de pólvora a marcar a entrada no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, no Laboratório Chimico, encerra muito mais que o evidente simbolismo de uma peça fundamental para fixar a memória do edifício. Destacada por Paulo Gama Mota, director do Museu da Ciência, a peça representa sobretudo o percurso entre a guerra e a paz, que foi o do edifício construído propositadamente para o ensino da Química experimental na grande reforma pombalina da universidade.
E, entre a guerra e a paz, o Laboratório Chimico foi um dos importantes protagonistas de um período marcado pelas invasões francesas, na primeira década do século XIX, altura em que a cidade e a região do Baixo Mondego foram ainda assoladas por uma praga de peste: transformado em fábrica de pólvora para combater os invasores, o Laboratório Chimico assumiu pouco depois a produção intensiva de desinfectantes com os quais haveria de combater-se um inimigo ainda mais traiçoeiro que os soldados de Napoleão.
Terça-feira, durante a visita promovida pela Livraria Minerva e pelo Rotary Club de Coimbra, Santa Clara, ao Museu da Ciência, a escritora Helena Rainho Coelho haveria de citar duas passagens do seu romance “As taças da ira” para ilustrar aqueles dois momentos de um significado imenso na vida da cidade e do país.

Posté par Castela à 03:49 - Notícias - Commentaires [0] - Permalien [#]

Commentaires

Poster un commentaire